Coluna

A corrida do ouro e o risco de genocídio contra os yanomami

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09 de Dezembro de 2019 às 15:20

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A Fiocruz fala em até 92,3% de contaminação por mercúrio nas aldeias mais expostas; o metal contamina o ambiente e causa doenças graves / Carl de Souza/AFP
O garimpo derruba a floresta, contamina os rios, mata os índios e os animais

As áreas yanomami estão pintadas com as cores da guerra. Relatos de representantes indígenas falam em 25 mil garimpeiros na região. O garimpo ilegal é uma atividade extremamente danosa às pessoas e ao meio ambiente.

Os garimpeiros estão armados e empoderados.

O mercúrio usado para separar o ouro corre pelas veias da Amazônia. A Fiocruz fala em até 92,3% de contaminação por mercúrio nas aldeias mais expostas, às margens do Uraricoera, o rio mais extenso de Roraima, com 870 quilômetros.

O mercúrio que contamina o ambiente causa uma série de doenças graves. Pode ocorrer perda da coordenação e dificuldade para enxergar. Na selva, um índio com problema de coordenação e dificuldade para enxergar está condenado à morte.

Os garimpeiros estão empoderados pelo apoio do governo brasileiro. Em outubro, Bolsonaro disse que “os garimpeiros merecem toda a consideração”. A frase seria perfeita se não estivesse falando de uma atividade criminosa.

Nas terras yanomami, o garimpo ilegal é um crime contra a humanidade. Derruba a floresta, contaminam os rios, mata os índios e os animais.

Os garimpeiros, depois de depredar uma área, se mudam. Deixam terra arrasada, índias estupradas, crianças contaminadas, rios poluídos pelo mercúrio. Os indígenas que ficam, doentes, pagam a conta. A humanidade paga a conta.

A infantaria de selva atua para minimizar o problema. Mas falta dinheiro, equipamento, planejamento e apoio do chefe. Funai, Exército e Polícia Federal deveriam estar à frente de ações de proteção e garantia de direitos, mas nada acontece.

No domingo passado (8), o Ministério da Defesa negou aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para a Comissão de Meio Ambiente da Câmara inspecionar o desmatamento da Amazônia. Isso é sintomático.

Em uma das poucas operações realizadas, a Polícia Federal (PF) prendeu, na semana passada, pessoas que movimentaram mais de uma tonelada de ouro ilegal. É uma gota no oceano de problemas. A estimativa é de 20 toneladas ilegais por ano, cerca de R$ 3 bilhões. 

A cadeia produtiva do ouro

Na década de 1980, 20% da população yanomami foi dizimada por doenças levadas por garimpeiros.

Os anos 1990 são lembrados por tiroteios, massacres e muita pressão internacional. Os anos 2000 chegaram com uma constatação: quem banca o garimpo ilegal não está na Amazônia, mas por trás dos biombos da indústria de joias, de tecnologia e de equipamentos de precisão, que usam o ouro da Amazônia.

Os vilões estão fora da Amazônia e até o momento não foram incomodados. É preciso investigar a cadeia produtiva do ouro e responsabilizar os financiadores dos crimes que hoje ocorrem nas terras yanomami.

Hoje, o risco de novos massacres é alto. O governo lava as mãos. As ONGs são atacadas e pouco conseguem mobilizar. A pressão internacional é tímida. Todos os ingredientes para uma tragédia estão na mesa.

Edição: Rodrigo Chagas