CRÔNICA

Claudia, a mulher que enfrentou uma mineradora

Paramos a mineradora Saara, os três caminhões que operavam naquele areal, extraindo areia e ameaçando famílias

Brasil de Fato I Curitiba (PR)

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A recepção foi imediata e o impacto dispensou qualquer leitura de autoajuda / Divulgação

Admitindo algum pequeno desvio fora da curva da memória, foi no dia 31 de junho de 2008. Antes das seis da manhã de inverno, o sorriso de Claudia já estava lá, posicionado na estradinha de terra. Ela já havia convocado a Josi e outras amigas, num bater de palmas através daquelas janelas tortas, e se juntou ao grupo de meia dúzia de estudantes que aguardavam o seu comando.

Sob a liderança dela, paulista de vários rumos, paramos a mineradora Saara, os três caminhões que operavam naquele areal, extraindo areia e ameaçando família por família quando o trator começava a se aproximar das casa. A ameaça podia ser declarada ou com um insultante xeque de uns dois mil reais.

O Jardim Itaqui é uma área de ocupação localizada em uma área de proteção ambiental, na divisa entre Curitiba, São José dos Pinhais e Piraquara. Situação delicada, mas nem por isso o poder público local, leia-se vereadores, prefeito e deputados, tiveram, nesses anos intermináveis, qualquer agilidade para dar uma solução para as famílias.

Dou então um salto longo no tempo.

E chego no domingo recente, dia 8 de dezembro, uma manhã e tarde entre amigos e camaradas. Era o primeiro final de semana com praia neste 2019 de compromissos e finais de semana preenchidos. Entremeados num sol tímido, cortamos a rodovia daqui até o litoral a caminho da casa de Lucas e Malu, amigos de militância, em Pontal do Paraná. O oceano numa temperatura boa, a cerveja também, um momento de relaxamento necessário nesses tempos de tensões diárias. Um cãozito amigo ensinando para nós humanos a arte da confiança, do estar junto, do dormir despreocupado e do viver focado no momento. Coisas que ainda não dominamos.

Lembrei que Claudia vive na mesma região no litoral e um olhar no google maps mostrou que ela estava a apenas quinze minutos de nós. Eu e Tatiana decidimos visitá-la. Há sete anos, Claudia deixou a região metropolitana de Curitiba e veio para uma nova ocupação, uma nova luta permanente e lenta pela regularização dos lotes, agora no litoral, onde tentaram viver da venda de caranguejos.

Havia uma certa preocupação, porque Claudia informava pelas redes que estava com um câncer e havia iniciado a quimioterapia. Adentramos em ruas de areia, passadas a fileira de casas de veraneio e condomínios com piscinas pouco usadas, depois dos quais começavam a área com casas de madeirite. Daí chegarmos até a curva da casa de Claudia. A recepção foi imediata, e o impacto dispensou qualquer leitura de autoajuda que quiséssemos fazer nesta vida. Claudia estava corada, forte, rindo e reafirmando que não se entregou em momento algum, mesmo nas sessões diárias de radioterapia, no bate e volta entre a costa e a capital.

Nos recebeu com a confiança de que nossa militância sempre foi de apoio e luta, nunca colocamos em questão qualquer contrapartida eleitoral ou o que fosse.

“ Para variar, aqui em casa é a sede da associação de moradores. O povo aqui não sabia se mobilizar, tivemos que começar a fazer umas visitas pra prefeitura”, Claudia riu.

Era a mesma, a mesma Claudia que, nas primeiras pressões para que liberássemos a entrada da mineradora ocupada, naqueles anos de lutas isoladas, entre o riso, a calma e a firmeza, era ela quem dizia:

“- Ninguém vai sair daqui, não”, o que nos manteve ao longo do dia recebendo a visita da imprensa, de apoiadores, e até mesmo de uma polícia que chegou ameaçando nos prender, mas que, ao final do dia, teve de ceder à pressão popular.

“Eu falo pro povo aqui: Bolsonaro é rico, serve os ricos, trabalhador não tem o que apoiar nesse cara”.

Recordei de uma entrevista que eu havia lido há muito tempo, com a líder das mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, para a extinta revista Caros Amigos, quando um dos entrevistadores contou que saiu do diálogo com ela “sentindo-se um inseto”.

Às vezes quando nos sentimos pequenos perto da grandeza de outras pessoas é que os mares se abrem, as janelas tortas se alinham e o sol começa a perfurar aquela camada de nuvens que tantas vezes se acumula. Foi o que aconteceu no domingo.

Edição: Lia Bianchini