Campeonato Slam BR reúne vozes das periferias brasileiras em forma de poesia falada

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Batalha
Batalha - Foto: Slam BR
Nena Callejera, mulher trans, é uma das finalistas da batalha

"E a ideia é  mais ou menos assim: assobia e chupa cana, é ligeira mesmo sem sentir pressa. Ela não faz caso, não crer em azar, o acaso é quem justificará. Nunca marca toca, ciente que na prática a teoria é outra. Nena Callejera, a pirraia é louca, a nega tá ligeira."

Preta, trans, periférica, nordestina. Aos vinte e seis anos, a pernambucana Nena Callejera resume bem o perfil das novas gerações de dezenas de competidores de 15 estados brasileiros que participam da sexta edição do Slam Br, o Campeonato Brasileiro de Poesia Falada.

O Slam BR acontece há cinco anos. Na sua sexta edição vai reunir durante quatro dias na cidade de São Paulo, entre 12 e 15 de dezembro, no Sesc Pinheiros, os campeões estaduais brasileiros das batalhas de poesia.


 

As rimas de Nena Callejera vai representar Pernambuco no Slam BR. Foto: Reprodução

Surgido na década de 80 nos Estados Unidos, o slam chegou ao Brasil em 2008. Nestes onze anos, as batalhas de poesia falada se espalharam por calçadas, praças e ruas e hoje acontecem em mais de 200 comunidades espalhadas em 20 estados brasileiros.

Quem conta a história de crescimento do slam no Brasil é Roberta Estrela D´Alva, fundadora das batalhas de poesia no país. “O slam na verdade é aberto para qualquer pessoa participar. Isso que é legal. E não tem limite de idade nem de tema nem de nada. O que aconteceu no Brasil é que ele se popularizou muito, cooptou muito a atenção de jovens das periferias, e a gente teve de 2008 pra cá um enegrecimento. O slam vai ficando mais negro, mais jovem e mais mulheres participando.”

Roberta afirma que o que importa realmente não são as competições e sim as vozes que querem falar e serem ouvidas em cada batalha de poesia. Ela destaca também o papel político de resistência que os slams vem exercendo no Brasil. Nas rimas, cada voz se levanta contra o genocídio negro, a violência de Estado, o racismo, a homofobia, o feminicídio.

“Nesse sentido o slam tem muito a ver com isso, traz muito essa aliança da poética com a política que para mim é a política do futuro. A gente ganha com isso e também com a participação popular e democrática”, comenta.

Para quem não conhece, as três regras básicas do slam são: poemas próprios, de no máximo três minutos. As poesias devem ser faladas sem acompanhamento musical e sem figurino. E o próprio público é o júri das batalhas.

A participação do público é decisiva na escolha dos vencedores e torna as batalhas mais democráticas e emocionantes. Foto Slam BR.

No caso do SLAM BR, cinco pessoas escolhidas entre o público e pela equipe do evento, atribui notas após cada poema. A nota mais alta e a mais baixa são retiradas. As médias e as notas são marcadas em um quadro onde todos possam ver.

Nena Callejera traz sua rima para o Slam Br deste ano diretamente da comunidade Roda de Fogo, na zona oeste do Recife. A artista visual, performer, mc e poeta representa o Slam da Praça, da Favela de Jardim Piedade. Ela conta que começou a colocar a sua voz no mundo e a potência da sua poesia nas ruas há dois anos, incentivada por outras mulheres negras da sua comunidade.

“Acho que a matéria-prima primordial do meu trampo é o meu corpo e a minha vivência. Minhas rimas falam muito disso, de ser uma travesti preta da periferia do Recife. E toda estrutura que existe para me afundar ao redor disso. E como eu transformo essa estrutura opressora em rima, em metarima e denúncia da própria estrutura.”

Todas as apresentações da final do Slam BR que acontecem este fim de semana em São Paulo são gratuitas e abertas ao público. Além disso, serão transmitidas em tempo real na página do evento no Facebook Slam BR. A vencedora ou o vencedor representará o Brasil na Copa do Mundo de Slam na França em 2020.

Edição: Camila Salmazio