Coluna

Se você quiser paz, terá guerra; se quiser guerra, terá riqueza

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16 de Dezembro de 2019 às 11:04
“Por que o governo retira direitos de pessoas nativas e os concede a corporações multinacionais?” Mobilização no departamento de Cauca, 2013 / Equipe de Comunicação da Marcha Patriótica
A agitação social prevalece menos em uma sociedade militarizada

Há um quarto de século, Victoria Sandino Palmera se uniu às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (Farc-EP). Ela já havia sido militante do Partido Comunista e, quando a Farc-EP estava atuante nos anos 1990, ingressou no Polo Patriótico. Mas a repressão por parte do que ela chama de “oligarquia tradicional” a mandou de volta à floresta uma e outra vez. Victoria Sandino deixou claro que não se interessava por essa guerra. “Não pegamos em armas porque acreditávamos na violência”, me disse em 2015. “Pegamos em armas porque tentamos resolver a questão da terra por meios democráticos, o que gerou uma resposta violenta por parte do Estado. A violência nos foi imposta”.

O Centro Nacional de Memória Histórica, com sede em Bogotá (Colômbia), calcula que entre 1º de janeiro de 1958 e 31 de dezembro de 2012, pelo menos 220 mil pessoas foram mortas na guerra civil colombiana. O relatório observa que a raiz dessa guerra tem sido a “apropriação, uso e posse da terra”. O relatório afirma: “os setores cujo poder econômico e político se baseou na terra se opuseram fraudulentamente às reformas agrárias, bem como a qualquer esforço para democratizar a propriedade da terra ou devolver o que foi roubado. Tanto no passado quanto no presente, eles usaram artifícios legais e métodos violentos, que incluíram assassinato de líderes e perseguição a membros de organizações de pequenos agricultores”. Isso está de acordo com a declaração de Victoria Sandino de que a violência foi imposta.

Nosso dossiê n. 23 (dezembro) Paz, neoliberalismo e mudanças políticas na Colômbia foi preparado pelo Grupo de Pensamento Crítico da Colômbia do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.

Em 2016, as forças beligerantes da guerra civil da Colômbia assinaram o Acordo de Paz em Havana (Cuba), que prometia abrir um novo período no país. Victoria Sandino estava na equipe das Farc-EP que participou das negociações. Quando perguntei o que ela faria quando a paz chegasse, me disse que anseia por se reunir com sua própria família e que quer encontrar a filha de sua camarada Laura, morta em combate. “Quero contar a ela que sua mãe era uma mulher excepcional. Quero passar todo o amor que senti por Laura para a filha dela”, disse Sandino. Mas a elite – liderada pelo ex-presidente Álvaro Uribe – lutou contra o Acordo e conseguiu derrotá-lo em um referendo. Por que a extrema direita, liderada por Uribe, mantém tal ânimo contra um processo de paz e por que, portanto, está comprometida com a guerra?

Paz, neoliberalismo e mudanças políticas na Colômbia mostra que a elite – e seus aliados imperialistas – estão comprometidos com uma estrutura de acumulação que não apenas prefere a guerra à paz, mas que reforça as raízes do conflito. Essa estrutura inclui o monopólio de um pequeno setor sobre a economia, incluindo agricultura e mineração. A terra foi militarizada para garantir os lucros da elite colombiana. Essa é a principal razão da guerra e da oposição das elites à paz.

Em vez de um processo de paz, a elite colombiana preferiria uma saída como a do Sri Lanka – ou seja, o brutal ataque armado de 2008-09 do governo do Sri Lanka contra não apenas os Tigres de Liberação do Tamil Eelam (LTTE, sigla em inglês), mas também a população em grande parte tâmil no enclave de Jaffna. No final do ataque, o governo do Sri Lanka mantinha mais de 300 mil civis em campos de concentração (em 2014, a ONU instituiu um tribunal para investigar crimes de guerra no país, mas seu governo se recusou a cooperar com qualquer investigação; o relatório produzido pela ONU é chocante). É isso que Uribe e seus apoiadores preferem – não um processo de paz, mas guerra até o fim.

Marcha Nacional Indígena, maio de 2016, Departamento de Cauca (Foto: Equipe de Comunicação da Marcha Patriótica)

A guerra é o resultado lógico de um sistema baseado na desigualdade estrutural. Se a grande maioria das pessoas do mundo não puder viver dignamente, elas se revoltarão contra suas condições. Até os protestos mais modestos (uma marcha) por uma demanda razoável (reforma agrária) encontra o que Franz Fanon chamou de “antigo bloco de granito” e a violência assimétrica.

É muito mais caro administrar um Estado repressivo que criar um Estado com igualdade, mas para a elite – o antigo bloco de granito – o dinheiro gasto com a guerra é muito mais eficaz que o dinheiro gasto com a paz. Em Grundrisse (1857), Karl Marx escreveu: “o impacto da guerra é evidente, já que economicamente é exatamente como se a nação jogasse uma parte de seu capital no oceano”. Do ponto de vista da sociedade, a guerra e a repressão são ilógicas; do ponto de vista dos capitalistas, a guerra impede a revolução social e produz oportunidades de lucro. Um sinônimo de capitalismo é a “economia permanente de guerra”, cujo objetivo não é criar segurança, mas congelar perpetuamente as relações de classe. Esse é o argumento básico do nosso novo dossiê.

Há alguns dias, o Instituto de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri, singla em inglês) divulgou um relatório sobre a venda de armas e serviços militares, que, se consideradas as 100 maiores empresas do ramo, totalizou 420 bilhões de dólares em 2018, um aumento de 4,6% em relação a 2017. O banco de dados construído pelo Sipri inicia seus registros a partir de 2002. As vendas de armas e serviços militares aumentaram 47% entre 2002 e 2018. Pela primeira vez (desde 2002), os cinco principais vendedores de armas são dos Estados Unidos: Lockheed Martin, Boeing, Northrop Grumman, Raytheon e General Dynamics. Essas cinco empresas venderam, sozinhas, 148 bilhões de dólares em armas e serviços, 35% do total das vendas das 100 principais empresas. Todas as empresas americanas juntas venderam 59% do total das vendas globais, o equivalente a 246 bilhões de dólares. Os EUA são o maior fornecedor de armas para a Colômbia.

Os governos dos EUA e da Colômbia aprofundaram seus laços desde o Plano Colômbia (2001). O Comando Sul dos EUA trouxe as forças armadas colombianas para a estrutura de comando das forças armadas dos EUA. Tropas colombianas viajam rotineiramente às bases militares dos EUA para reuniões e treinamentos. Oficiais da Defesa colombiana costumam visitar o Comando Sul para aprofundar a cooperação (este ano, o major-general Luis Navarro Jiménez, do Exército da Colômbia, foi convidado do almirante da Marinha dos EUA, o almirante Craig Faller, em Doral, Flórida). Os pretextos para essa cooperação são sempre algo diferente da realidade – guerras às drogas e refugiados venezuelanos – enquanto, abaixo da superfície, a verdadeira razão é manter o status quo na Colômbia.

Beatriz Gonzalez, Senhor presidente, que honra estar com você nesse momento histórico, 1987 – uma comemoração do incidente de 1985 no Palácio de Justiça, quando militantes do M-19 invadiram a Suprema Corte. No ataque militar contra eles, metade dos juízes da Suprema Corte foi morta.

Há um aspecto no qual a oligarquia da Colômbia está correta: a agitação social prevalece menos em uma sociedade militarizada. Segundo o Centro de Pesquisa e Educação Popular, a agitação social aumentou na Colômbia desde o início do processo de paz, em 2012. Portanto, não é de se admirar que as ruas colombianas tenham sido invadidas por grandes manifestações desde 21 de novembro deste ano. As políticas neoliberais clássicas do presidente Iván Duque – incluindo cortes nos benefícios para aposentados e trabalhadores – provocaram inquietações em sindicatos, organizações estudantis e – na verdade – na maioria da sociedade. Duque e seu mentor, Uribe, pediram uma solução militarizada para os protestos colocando a polícia nas ruas (o que resultou na morte de um estudante, Dilan Cruz) e conduzindo ataques a meios de comunicação.

 

Em um show nas ruas, Bomba Estéreo se juntou a 250 artistas para cantar e apoiar os protestos; eles cantaram una patria dormida que ya despertó….nuestra historia puede ser distinta, puede ser mejor [uma pátria adormecida que já despertou… nossa história pode ser diferente, pode ser melhor].

Gabriela Ngirmang

Gabriela Ngirmang, do pequeno estado insular de Palau, sabe o que significa enfrentar o antigo bloco de granito; quando ela e seus companheiros pressionaram por uma constituição antinuclear, experimentaram uma forte oposição, incluindo do governo dos Estados Unidos. Em 1979, quando a Constituição foi votada, 92% de Palau votou a favor. Os EUA queriam uma parte considerável desta ilha do Pacífico por seu programa nuclear, inclusive para armazenar armas. A pressão de Washington forçou o povo de Palau a votar um plebiscito quinze vezes entre 1979 e 1994 (quando Palau estava sob custódia dos EUA) a manter a integridade de sua Constituição. O primeiro presidente de Palau – Haruo Remeliik – foi assassinado em 1985 e a casa de Ngirmang foi bombardeada. O lado antinuclear perdeu. Hoje, os EUA controlam os assuntos militares e diplomáticos de país. Os soldados dos EUA retornaram a Palau em abril de 2019 pela primeira vez em 37 anos.

Se você quiser paz, terá guerra; se quiser guerra, terá riqueza.

 

Edição: Julia Chequer