ARTE E LUTA

CRÍTICA | Espetáculo Espera - Você Não Perde Por Esperar

Montagem do grupo Os Cogitadores ocorre durante todo este mês de dezembro

Brasil de Fato | João Pessoa - PB

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Card / Divulgação

Era início de semana, depois de um domingo sonolento, recuperando-me da noite de sábado, levantei e tomei um banho como quem passa uma segunda mão de tinta na parede velha para preencher as partes desbotadas. Mal podia esperar para que chegasse ao final do dia, quando iria ao NAC (Núcleo de Artes Contemporâneas), assistir à um espetáculo. Mas tal espetáculo não se assiste como mero espectador. Diferente do que se espera de uma peça de teatro tradicional, Espera é uma vivência real, cheia de sensações físicas e emocionais, químicas e espirituais, nas quais tudo é permitido, exceto à conservação daquilo que já se era, a transformação é inevitável.

Entre as cenas, políticas, poéticas, sexuais, pessoais, familiares e midiáticas, metafóricas e diretas, é difícil conectar todas as partes, mas tudo ficou mais nítido ao final quando o diretor me contou que a ideia inicial do roteiro, que passou a ser uma construção coletiva com atualizações cotidianas, era investigar a morte. Em suas palavras – “a gente sabe que a gente nasce e morre e nesse meio a gente tem um período de espera, então o que a gente faz com esse período de espera?” – É uma provocação constante, chocante, que te faz querer, chorar, rir, cogitar, ver onde está, ir, voltar, sentir tudo aquilo que está à sua volta, pois percebe que o tempo não retornará. Te faz querer lutar pelo direito de aproveitar o período entre o nascimento e a morte de maneira digna, humana, sem lunáticos megalomaníacos e fascistas no poder, sem as mortes antecipadas de quem já nasce correndo risco de vida, sem medo de andar nas ruas por ser quem é, sem o racismo, sem o machismo, sem a LGBTQ+fobia, sem o conservadorismo elitista e sem ficar sentado esperando que o mundo mude por conta própria. Se pensar em desistir – espera! É hora de resistir.

Na próxima segunda-feira (23), não perca a oportunidade de ter essa vivência espetacular, às 20h no NAC, a meia é 15 e a inteira 30. Você não perde por esperar.

Em entrevista concedida ao Brasil de Fato, o elenco comentou:

Alice Maria, atriz: “o espetáculo fala sobre amor, política, sexualidade, sobre as coisas que precisam ser faladas e ouvidas, nuas e cruas assim, mostradas de uma forma diferente.”

Mariana Soares, atriz: “Eu espero que a gente fale cada vez menos sobre o que a gente traz no espetáculo e espero continuar resistindo por muito tempo.”

Alison Bernardes, diretor e ator: “os Cogitadores têm muito essa pegada, do teatro marginal, de bater de frente. E é a nossa arma no momento que a gente tá vivendo agora, nessa luta contra o Bolsonaro.”

Marcelo de Sousa, ator: “o Espera mexe muito com as emoções de cada pessoa, a partir de coisas amplas, falando de política, falando filosoficamente da vida e da morte e também falando sobre nós mesmos em algum momento.” 

Matheus Leonel, ator: “a gente sempre sai um pouco pensativo e reflexivo, porque cada apresentação que a gente faz é uma experiência diferente, são pessoas diferentes, é um espaço diferente, tudo acaba sendo diferente.”

Rodrigo Alves, poeta e ator: “o espetáculo Espera pra mim, que ainda sou um filhote nessa vida, representa tudo que estou vivendo hoje em dia, só que isso em forma de uma história, repassando e transmitindo emoções verdadeiras.”

Geyson Luiz, ator: “o espetáculo era muito direto politicamente e a gente queria humaniza-lo, deixá-lo mais próximo de nós, então a gente colocou poemas, colocou textos nossos também, pessoais, nosso cotidiano, pra retratar a nossa realidade, nosso dia a dia entre esse contexto politico que estamos tendo no nosso país.”

Ficha Técnica e Apoio: Barracuda Head Shop (Apoio), Turbanteira (Apoio), Denis Toscano (Produção Cutural), Sávio Augustinho (Arte Gráfica), Priscilla Cler (Orientação Vocal), Carine Fiuza (Captação de Vídeo), Luna Alexandre (Figurino), Raniêr Santos (Maquiagem), Thalles Libânio (Técnica), Cia de Teatro Perfil, Valdir (Núcleo de Artes Contemporâneas), Teatro Lima Penante, Cia Forrobodo de Teatro, Pablo Riveira (Os Cogitadores), Edna Diniz (Os Cogitadores)

Poemas: Rodrigo Alves, Eduardo Galeano, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo.

Edição: Redação BdF