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Existir é uma obra de arte

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AmarElo, de Emicida, é um disco que convence em sua afirmação mais desafiadora, que fica como mantra e compromisso: “Este ano eu não morro"
AmarElo, de Emicida, é um disco que convence em sua afirmação mais desafiadora, que fica como mantra e compromisso: “Este ano eu não morro" - Foto: Mídia Ninja
O ano que se apressa em terminar confirma: a cultura cura

A cultura cura. O ano que se apressa em terminar vai ficar marcado pela confirmação dessa verdade. Em meio a tantos ataques soprados aos quatro ventos contra a ciência, a arte e o saber, o Brasil foi varrido por ventos de beleza, inteligência e coragem. A cultura brasileira honrou sua história colocando a vida em primeiro plano. Não se trata de resistir, o que já e uma tarefa e tanto, mas de existir, de fazer a vida boa e digna o maior de todos os valores.

Foram tantos os bons exemplos que qualquer síntese vai deixar de lado contribuições fundamentais. Mas vale a pena arriscar alguns momentos iluminados dessa travessia. Na literatura, no cinema, na dança, no teatro, na música o país soube brilhar com a força dupla da crítica e da criação. Arte que abre os olhos e embala a alma. Que tem sua força retirada da dura realidade e sua porção de sonhos dedicada à utopia da beleza. Um olho processa, o outro projeta.

Na literatura, Chico Buarque, mantendo a alternância entre a música popular e os livros, lançou Essa gente. É um romance para nosso tempo, que deixa entrever em sua trama os momentos de completa ausência de cordialidade de nossas relações sociais: preconceito, violência, humilhação dirigida a “essa gente”. Um livro duro, amargo, enigmático. Tecido com a lógica dos pesadelos: tudo que não é real parece ser verdadeiro demais.

O romancista, que este ano ganhou a mais importante distinção literária da língua portuguesa, o Prêmio Camões, vai compondo seu painel da sociedade brasileira. A música que parece se revelar em sua literatura só não é mais expressiva que a grande narrativa composta por suas canções. Essa gente não ocupa o lugar da denúncia social e política, como um instrumento feito para iluminar tempos sombrios. Ele é exemplo dos caminhos que só a arte pode trilhar.

Não é, em outra medida, a mesma estratégia de Bacurau? O filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles parece também ter um pacto estreito com o presente. Ele traça o roteiro de uma sociedade excludente, violenta, moldada para satisfazer o desejo de poucos. No entanto, é preciso lembrar que o cinema é arte que se constrói no tempo, com certa demora em cumprir todas as etapas, e que o filme, nesse sentido, já antecipava uma realidade que se apontava no horizonte.

Assim como chega ao presente pela via do passado, Bacurau anuncia a distopia do futuro como algo muito mais próximo do que se imaginava. Tudo na vida real que se seguiu ao filme, parece confirmar sua astúcia. O comportamento em relação ao aquecimento global como forma de garantir a permanência de padrões inviáveis de consumo; o apoio aos processos antidemocráticos fundados numa primazia espúria do colonialismo; a retórica renovada do inimigo natural; a necropolítica como tática da extrema direita em todo o mundo.  

Das telas para o palco, o Grupo Corpo, como o espetáculo GIL, realizou uma das grandes expectativas do cenário da dança: o dia em que o Corpo sambou. Em sua longa trajetória, a companhia mineira desenvolveu uma gramática própria de movimentos, que tangenciava o gestual brasileiro, mas sem “cair no samba”. O espetáculo que leva o nome do compositor baiano realiza esse encontro feliz, mesmo que em uma breve passagem, ainda que cheia de frescor e felicidade dada pelo reconhecimento.

Gilberto Gil compôs uma trilha muito rica, com referências em sua própria obra e com abertura para novas linguagens, como sempre fez em sua carreira. O grupo de dança mergulhou nas indicações singulares da música e ainda encontrou um caminho de continuidade com o trabalho iniciado com Gira, que traz a força da contribuição da cultura, da religiosidade e da movimentação a nossos corpos e espíritos habitados carnalmente pela diáspora.

A grande referência do teatro este ano foi Fernanda Montenegro. Ao completar 90 anos e lançar sua autobiografia Prólogo, ato, epílogo, em colaboração com Marta Góes, a atriz escolheu o momento para reafirmar a dignidade de seu trabalho em todas as frentes. À Fernanda, tudo era permitido depois de mais de 60 anos de trabalho: celebrar o talento, estrear novo espetáculo, destacar seu reconhecimento internacional, relembrar a rica trajetória artística e humana. Festejar merecidamente os muitos atos de sua existência.

No entanto, mulher do palco e das personagens, Fernanda Montenegro escolheu permanecer Fernanda Montenegro: homenagear a cultura, o teatro, a arte e a confiança no melhor da pessoa humana. Defendeu corajosamente a liberdade de expressão e exaltou o ofício do ator em sua jornada responsável e produtiva do dia a dia. Levou ao palco leitura de Nelson Rodrigues (há gesto mais potente que destacar a força libertária do reacionário Nelson?) e convocou o diálogo para além do teatro. Inaugurou novo ato em sua digna biografia.

Na música, Emicida com seu disco AmarElo chega com um conjunto de rap-canções que renova a cena musical, estética e, em certo sentido, política da cultura brasileira. A faixa-título, que sampleia Belchior e tem a participação de Majur e Pabblo Vittar, aponta o potencial da arte e a ampliação de alianças necessárias. Sem se desfazer de suas raízes contestadoras do hip hop brasileiro, o artista parte em direção a uma vida realizada com inteireza aqui e agora. Viver, além de sobreviver. Re-existir, muito mais do que resistir. Tem que ser foda para falar de amor nesses tempos de ódio.

Com participações plurais de artistas do samba, MPB, funk, carimbó, rock, soul, pop, da música cubana, do rap português e da bossa nova, o rapper não perde a indignação, mas convoca a delicadeza. Tem até a literatura simbolista de Alphonsus de Guimaraens, lida por Fernanda Montenegro, e sermão do pastor Henrique Vieira, na medida para curar o preconceito com os evangélicos. A depressão não é fraqueza, mas doença que cobra cuidados e exige um arsenal poderoso para ser enfrentada. Inclusive a música.

Há uma certeza de que a expressão do povo brasileiro emana dessa arte única e complexa, que funde singeleza e sofisticação. Que faz pensar com versos cortantes, mas que segue embalada pelos ritmos e pulsos do corpo, sem medo da alegria e em busca permanente da beleza. AmarElo é um disco emocionante que convence em sua afirmação mais desafiadora, que fica como um mantra e um compromisso: “Este ano eu não morro”.

Edição: Elis Almeida