ENTREVISTA

Conheça a história de atuação de Breiller: um jornalista esportivo

"O grande ponto para o jornalismo hoje é investir na diversidade"

Brasil de Fato | João Pessoa

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Foto: Arquivo Pessoal / O jornalista em uma de suas matérias sobre racismo no futebol

Dizer que o esporte em geral e o futebol em particular é a metáfora para explicar o Brasil é chover no molhado. Pegar exemplos do futebol para retratar o cotidiano é algo já corriqueiro na vida política brasileira. No jornalismo não é diferente. Não é novidade que matérias de escândalo no esporte estampem os grandes jornais ou que se olhe com atenção para o esporte enquanto parte da nossa cultura. Em meio a esses olhares o de Breiller Pires, 34 anos, é um absoluto destaque. Enquanto a grande imprensa mostrava os resultados de audiência da seleção feminina, Breiller, em seus comentários na TV pela ESPN ou em seus textos no El Pais, descrevia que elas também amavam e não tinham receio de esconder isso. Enquanto o jornalismo esportivo (termo que ele nem gosta muito) batia palmas para gestões eficientes no futebol ele foi um dos que abriu espaço para falar da gestão democrática do Bahia que vem dando um olhar especial as questões de combate ao racismo, machismo e homofobia. Enquanto muitos olham para o campo e bola ele ia além: falava de racismo, escolas de clubes, inclusão, abuso sexual no futebol. Nessa entrevista ele fala sobre sua trajetória, referências e esse olhar para o esporte como uma questão social.

BDF – fala um pouco da sua trajetória?

Breiller – Eu decidi fazer jornalismo já muito tarde. Na verdade eu nem imaginava na época cursa uma Universidade. Meus pais eram gráficos. Trabalharam por muito tempo em Belo Horizonte imprimindo catálogos, jornais. E eu desde pequeno acompanhava. Sempre gostei bastante do ambiente de até imaginava seguindo a profissão deles. Assim eu nem pensava em fazer um curso superior, até porque ninguém da minha família nunca tinha feito. E uma coisa que contribuiu naquela época foi que o Lula dizia ‘no meu governo o filho do pobre vai tá na Universidade’. Acho que aquilo foi um instalo. Depois disso a escolha do jornalismo foi meio que natural. Em sempre gostei de esporte, mas nunca fiz jornalismo pensando em entrar para o esporte, acho que qualquer jornalista precisa está preparado para cobrir qualquer tema. Eu acabei indo para o esporte por uma questão de afinidade com o tema e porque foram os primeiros trabalhos que apareceram.

BDF – e sua trajetória profissional?

Breiller – Eu fiz vários estágios na UFMG, mas o primeiro fora foi no Lance (jornal de esportes). Na época eles tinham uma redação em Belo Horizonte. Eu fiquei seis meses e depois trabalhei como voluntário no Pan de 2007 (jogos panamericanos realizados no Rio de Janeiro). Trabalhei na assessoria de imprensa produzindo os materiais oficiais dos jogos. Quando voltei comecei a trabalhar com marketing politico, com redes sociais para uma agencia. Depois por indicação de uma professora eu comecei a fazer ‘freela’ para Placar lá de Minas. Aí eu sugeria muita pauta e virei quase um setorista. Fiquei uns dois anos fazendo matérias de lá até que pintou uma oportunidade em São Paulo e eu não pensei duas vezes. Cheguei em 2010, fiquei cinco anos. Ainda na Placar pintou uma oportunidade de trabalhar na Espn e desde 2017 eu estou no El Pais. 



BDF – você já conseguia emplacar essas matérias de relevância social ainda quando estava em Minas?

Breiller – No lance não porque eu era um estagiário. Na placar, lá em Belo Horizonte eu tinha um universo mais limitado. Mas ali eu já costumava sugerir pautas que costumavam fugir um pouco dessa rotina. E o que eu fazia muito pra placar eram perfis de capa. Então como eles tinham capa por região, eu normalmente fazia a capa de minas com perfil de algum jogador que estava em evidência, algum treinador. Mas ali eu lembro de fazer uma matéria sobre a escola do Cruzeiro que foi um dos primeiros clubes a ter uma escola para os jogadores das categorias de base. Mas o fato é que desde a época da Faculdade que eu me interesso por não me restringir ao campo, o futebol vai muito além disso. E acho que muito por experiência pessoal. A minha família, boa parte dela, é do interior (na cidade de Tocantins) de Minas. E nós temos um time que completa cem anos no próximo ano (o time se chama guarajá futebol clube). Esse time disputa até o ‘ruralzão’ que reúne os times amadores da região. Então o que mais me encantava desde criança nem era o jogo em si, era mais o que estava em volta. O Comércio que se mobilizava, até hoje é um dos poucos programas culturais que existem na cidade. Então eu sempre achei o entorno encantador e por isso abordar esses temas muito embasado na experiência que eu tive. Pra mim foi um caminho natural. Acho que eu não me conformaria em me transformar em um jornalista esportivo, nem gosto muito desse rótulo porque é muito limitador. Acho que o jornalista precisa ter os olhos abertos a todas as áreas. 

BDF – e quais suas referências? 

Breiller – Provavelmente a publicação que eu mais li tenha sido mesmo a Placar. Ela sempre teve uma veia de investigação muito forte. Teve a máfia do apito, antes a máfia das loterias esportivas na época do Juca Kfouri. Então quando eu chegue lá eu pensei ‘poxa, eu quero fazer algo nessa linha’. Por isso o Juca é uma das minhas maiores referências, pela coragem de tocar nesses temas. Mas antes de fazer jornalismo mesmo quando comecei a pesquisar sobre a área uma das minhas referências era o Globo Rural, porque também tratava muito de temas sociais, da miséria no campo.

BDF – e qual sua primeira grande investigação?

Breiller – Eu lembro que a primeira grande matéria que fiz nesse sentido foi um dossiê sobre abuso sexuais em categorias de base (matéria publicada na revista placar). Abusos sexuais são muito comuns em categorias de base. E eu desde que jogava eu ouvia falar sobre isso. Mas o assunto era um tabu e as pessoas nunca quiseram falar, embora no meio todo mundo comente que isso é normal. Então eu pensei ‘bom, eu vou pelo menos colocar o dedo nessa ferida’. Foi uma investigação longa, no inicio ninguém queria falar. Recebi mais de 30 recusas, mas depois de mais de um ano e meio conseguimos publicar um dossiê que mostrava mais de 22 casos de abuso nas categorias de base no Brasil em um período de dois anos, teve uma repercussão grande. Foi tema de CPI. E isso conta. Você trabalhar em um lugar em que você compartilhe valores e em que esses valores, no caso da placar, era o jornalismo crítico, que busque confrontar o poder e não se aproveitar dele como nós vemos muito por aí. 



BDF – você acha que hoje a possibilidade de pautar esses temas, tendo o seu exemplo de ter uma origem social que não foi exatamente a mesma dos jornalistas que escreveram na placar antigamente, que certos temas são mais abordados hoje que naquela época?

Breiller –Totalmente. Até a Placar é uma revista com um viés muito crítico, mas se olhar por outro viés agente vai perceber que raras foram as vezes que ela tratou de racismo, destacou a figura feminina como protagonista no futebol. Nas matérias muitas vezes as mulheres eram erotizadas, a revista até recentemente reconheceu essa dívida com o futebol feminino. E a gente vai enxergar a origem disso, sem deixar de reconhecer todos os méritos da revista, mas quem são as pessoas que faziam a placar? Pessoas brancas, com a mesma origem social, com uma visão de mundo muito parecida, na maioria dos casos. Então acho que o grande ponto para o jornalismo hoje é investir em diversidade. Porque a partir do momento que você tem mais pontos de vista, diferentes origens na redação, mais se abre o leque para se investir em assuntos que antes eram negligenciados, para conversar e atingir públicos diferentes. As redações ainda são muito brancas, elitizadas. No caso do esporte, ainda dominada por um olhar masculino. Então a gente precisa urgentemente criar mecanismo para que o jornalismo seja mais inclusivo, até por uma questão de sobrevivência do jornalismo. Porque falamos em crise do modelo de negocio, mas há uma crise editorial também, as pessoas não se sentem representadas pela grande imprensa e muito tem a ver com isso, porque estão nas mãos de verdadeiras castas, de três ou quatro famílias.

Nos temos visto iniciativas muito interessantes de jornalismo independente, até o próprio Brasil de Fato, de tentar democratizar esse acesso a produção de noticias e vejo isso como fundamental. Pra mim fez toda diferença ter vindo de uma origem que foi diferente da maioria dos meus colegas, de ter estudado em escola pública, de ter vivido esse mundo do futebol no interior quando era criança. E acho que quanto mais negros nos tivermos na redação, mais pessoas de diferentes orientações sexuais, mais mulheres cobrindo o futebol, a gente tende a ter um jornalismo que represente melhor o que é a nossa realidade, não um jornalismo restrito a poucas pessoas, que mesmo que seja combativo, que faça o básico do que pede a profissão, não espelhe o que é a sociedade brasileira. Acho que o Roger (técnico do Bahia) foi muito feliz ao usar o futebol como uma reflexão sobre o racismo estrutural no Brasil e acho que isso se aplica ao jornalismo. Enquanto a gente tiver redações essencialmente brancas, com pessoas que representam uma elite social e uma elite politica no país, dificilmente a gente vai avançar nesse tipo de pauta e vai ter esses temas e até essa mistura de jornalismo, sociedade e cultura nas páginas de esporte.

 

Edição: Redação BdF