Coluna

E 2020?

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02 de Janeiro de 2020 às 21:05
Quero a chuva como se fosse uma bênção do ano novo que vai nascer. / Divulgação
2020 não será um ano fácil. Será um ano duro, muito duro. Preparemo-nos!

O primeiro aviso chegou via variadas fontes: quando você for assinalar alguma data em 2020, nunca escreva só o dia, 12, do mês tal, julho, 07, do ano, 20, como fazia com o 19, recém findo, ou 13, ou qualquer ano. Colocando só o 20, não colocando 2020 completo, alguém poderá acrescentar um 12, ou 09, ou 21.  Para não correr riscos e o documento ser anulado, é preciso, pois, escrever sempre o ano completo, com todos os números: 2020.

Segundo aviso: 2020 é ano bissexto. Fevereiro terá 29 dias, o ano, 366. É bom, é ruim? O certo é que vai haver uma montanha de feriadões em 2020. Os candidatos às eleições de outubro agradecem.

Terceiro aviso: Final de 2019, revirei por dois dias, um fim de semana inteiro, alto a baixo, meu apê, as tralhas todas, toneladas de caixas e bolsas, estantes de livros, papéis e mais papéis espalhados por todo canto, atrás de um documento, um tal de DUT – Documento de Transferência -, para poder comprar um carro novo, antes que o meu Gol 2007 ficasse sem roda na estrada, segundo vaticínio do mano Marino. No terceiro dia, já desesperançado, fui revirar duas últimas caixas. Lá estava o bendito! Resultado final: além do DUT, descobri coisas do arco da velha, fotos com Lula e Frei Betto, cuja existência eu não lembrava, fotos com Nita Freire, esposa de Paulo Freire, com Gilberto Carvalho, fotos com a equipe da RECID, Rede de Educação Cidadã, reunida com Lula nos idos de 2004 no Palácio do Planalto. Todas e todos então jovens e sorridentes.

Quarto aviso: Escrevi uma mensagem, postada no Facebook no final da tarde do dia 31 de dezembro, com ampla repercussão, muitos comentários e elogios: “Esperando a chuva. Ansiosamente. Só de calção, estou na varanda, como nos tempos de menino em Santa Emília. Quando a chuva vinha, a gente se atirava a correr do lado de fora da casa, saboreando os pingos, o corpo molhado, a vida! Nestes tempos de calor infernal – hoje 40 graus, em alguns lugares do Rio Grande do Sul mais de 40 –, os dias insuportáveis, assim como foi 2019, ‘o pior ano de nossas vidas’. A chuva refresca a alma, torna leve o coração, parece que 2019 vai se despedir em alto estilo, pra gente poder enfrentar 2020 de peito aberto. Os primeiros pingos caem, ainda são poucos, troveja, mas parece que ainda não vai ter chuva forte agora. Vai ser mais à noite, na hora da virada. Não interessa se vai interromper ou impedir fogos, complicar festas maiores. Mais importante é que o milho, as frutas, as verduras, a grama, as árvores possam brilhar no sol.

Quero a chuva como se fosse uma bênção do ano novo que vai nascer. E quero meu corpo encharcado, molhado, alegre, pleno de felicidade, como se fosse um renascer, como se fosse a luz que brilha para um Brasil que precisa muito, muito, muito de riso, de dignidade, de solidariedade, de diálogo, de nos sentirmos juntos, abraçados como uma família, uma comunidade, sem guerras, sem violência, sem medo, sem machismo, sem racismo, sem misoginia, sem homofobia, sem intolerância, sem fake news e deep news. Amigas/os, companheiras/os, hermanas/hermanos. Será que a chuva virá? Será que a esperança está no horizonte? Começa a chover mais forte. Vou sentir os pingos, a força da água, o brilho da vida. Vou viver. Vou rejuvenescer. Que venha 2020! Estou pronto. Leve, livre, forte. E molhado!”

No final das contas, choveu muito pouco, quase nada no dia 31 de dezembro, ainda que eu tenha sentido o gosto da chuva molhando os dedos, os cabelos, a pele, o corpo todo. Dia primeiro de janeiro de 2020, assim como dia 2, o calorão foi o mesmo dos últimos dias, semanas, meses, muito sol e nada de chuva caindo do céu. Algum prenúncio?

Quinto aviso: Bolsonaro continuará firme e forte em 2020. Assim como Eduardo Leite, apesar de todas as greves e mobilizações no Rio Grande do Sul, e Marchezan Jr. em Porto Alegre. As eleições municipais em outubro não serão um passeio para o campo popular e democrático.

Sexto e trágico aviso, via twitter do professor e economista Márcio Pochmann: “Alegria dos ricaços não terminou em 2019, quando os 500 mais ricos do mundo tiveram aumento de 25%, acumulando U$ 1,2 trilhão ao patrimônio de 2018, o que equivaleu a 60% do PIB brasileiro. Para 2020, devem seguir ainda mais felizes, enquanto a política seguir subordinada à economia.”

Ou seja, os sinais dos tempos estão dados. Agora, no mais, é contigo, é comigo, é conosco. 2020 não será um ano fácil. Será um ano duro, muito duro, como disse alguém na última reunião do Núcleo de Reflexão Política da Lomba do Pinheiro. Preparemo-nos!

Edição: Katia Marko