Luta por terra

Vigília contra despejos no Paraná completa uma semana: "Renovou a mística", diz líder

Famílias se unem contra ameaça de expulsão pelo governo do Paraná em Cascavel, no oeste do estado

Brasil de Fato | Maringá (PR)

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Famílias se unem contra ameaças feitas pelo governo paranaense / Foto: Reprodução/Facebook

Há uma semana, cerca de 300 camponeses sem-terra fazem um ato contra ameaças de despejos solicitados pelo governo do Paraná em Cascavel, na região oeste do estado. Segundo lideranças populares da região, a Justiça autorizou, a pedido do governador Ratinho Júnior (PSD), a reintegração de posse do complexo de fazendas Cajati, onde vivem mais de 200 famílias acampadas há cerca de duas décadas. Elas pedem a suspensão imediata da decisão.

Em mobilização contra a iminente expulsão, os integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) fazem vigílias diárias, sempre das 10h às 15h, à beira da rodovia BR-277, altura do km 557, em trecho próximo às comunidades ameaçadas – Resistência Camponesa, Dorcelina Folador e 1º de Agosto.

De acordo com Ângela Lisboa Gonçalves, coordenadora do acampamento Resistência Camponesa, a primeira semana de manifestações teve adesão acima do esperado e renovou o ânimo dos moradores.

“A gente esperava menos pessoas que participassem dela [a vigília]. A gente ficou surpresa com o número de apoiadores que a gente teve. As pessoas vêm visitar a gente, mandam apoio pelas redes sociais. As famílias, parece, se uniram mais. Renovou a mística”, afirma.

Ângela reforça que, além da suspensão dos despejos, as comunidades também pedem que o governo abra diálogo para que as famílias sejam assentadas no complexo.

“O que a gente espera é que as áreas do Resistência Camponesa, 1º de Agosto e Dorcelina não sejam despejadas. Mas, também, mesmo se a gente receber a notícia de que não vai ter despejo, a gente também quer que o governo dialogue a respeito da área”, explica.

Roseli Campos de Souza, que planta e colhe há 17 anos nas terras do complexo Cajati, pode ser uma das vítimas da reintegração. Do que produz no local, ela deu sustento a oito filhos. Para ela, a efetivação da expulsão seria uma tragédia.

“Para mim, no momento, está sendo muito difícil. Porque não tem onde colocar as crianças. Aqui a gente já tem tudo – tem a batata, tem a mandioca, tem o feijão, tem a vaca, tem o leite, tem o queijo, tem o porco, tem a galinha. Se a gente sair daqui, para onde a gente vai, se a gente é agricultora desde criança?”, questiona.

A camponesa ressalta que as famílias produzem alimentos e abastecem muitas pessoas que vivem nas cidades. “A roça é tudo pra mim. A roça é meu sonho, é um sonho que eu tenho de infância. Queria pedir para o governador que deixasse nós aqui”, implora Roseli.

Apoios

Os camponeses têm recebido apoios presenciais, por exemplo, de políticos, educadores e sindicalistas da região, e também virtuais, como do cantor e compositor pernambucano Otto.

“Parem de atormentar, parem de torturar, parem de querer o despejo de famílias que estão ali lutando pelo seu sustento, produzindo o orgânico, produzindo as coisas boas e saudáveis”, declarou o artista, em vídeo.

Situação no estado

Ratinho Júnior já autorizou o despejo de mais de 500 famílias, em nove ações de reintegração de posse, de maio a dezembro de 2019, de acordo com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em nenhum dos casos houve diálogo com as famílias, dizem os sem-terra.

Atualmente, o estado abriga aproximadamente 7 mil famílias em 80 ocupações, todas em áreas declaradas improdutivas, confiscadas do tráfico de drogas, denunciadas por trabalho escravo ou de grandes sonegadores de impostos.

Edição: Vivian Fernandes