São Paulo

No final de 2019, Doria tentou fechar centro de referência ao tratamento de AIDS

Medida do governo estadual paulista preocupa usuários e servidores e será submetida a audiência pública

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

,

Ouça o áudio:

“O CRT perderá a capacidade de dialogar com a gente de forma humanizada", explica usuária / Foto: Secretaria de Estado da Saúde

Em reunião com a Secretaria Estadual da Saúde (SP), no dia 20 de dezembro de 2019, servidores e usuários evitaram o desmembramento do Centro de Referência e Treinamento (CRT) DST/AIDS de São Paulo. Para eles, na prática, a medida significaria o fim das atividades da unidade.

O desmembramento do CRT-DST/AIDS foi comunicado aos trabalhadores do centro pela SES ainda em dezembro. Os servidores e usuários da unidade solicitaram, então, um encontro com o José Henrique Germann Ferreira, chefe da pasta, que não os recebeu. Somente quando a deputada estadual Érika Hilton (Bancada Ativista-PSOL) os acompanhou, é que o grupo foi recebido por Eduardo Alex Barbin, chefe de gabinete da secretaria, e por Ana Patrícia Carletto, assessora parlamentar do órgão.

Ficou definido que a questão será submetida a uma audiência pública a ser chamada por Hilton na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), para que usuários e servidores se manifestem sobre a medida. O retorno dos parlamentares do recesso está marcado para 1º de fevereiro. A partir desta data, a deputada deverá trabalhar na convocação do ato. 

“O CRT é referência nacional e internacional no tratamento e combate ao HIV-AIDS. Então, [na unidade] não faltam medicamento e os usuários têm um atendimento preciso, além de um núcleo de pesquisa e estudos com a participação dos usuários. O desmembramento desse serviço, além de enfraquecer o atendimento vai tirar o orçamento do controle do CRT”, explica Erika Hilton.

A travesti Pisci-Bruja, mestranda em antropologia social na Universidade de São Paulo (USP) e usuária da unidade, lamenta a medida tomada pelo governador João Dória. “O CRT perderá a capacidade de dialogar com a gente de forma humanizada, acabará perdendo essa expertise, esse trato mais humanizado e específico conosco que vivemos com HIV e AIDS. Quando você desmancha um centro especializado e migra para uma unidade assistencial de saúde ou migra para um serviço geral de saúde, os profissionais não sabem lidar com pessoas que vivem com HIV e acabam desumanizando a gente, trazendo termos que não se usam mais e tem medo de tocar na gente”.

Outro alerta emitido pela usuária é a possibilidade de faltar medicação específica, "o que acontece em vários locais, mas não no CRT. Por exemplo, pessoas que vivem com Hepatite C, que só encontram medicamento lá no CRT. Além da demissão de funcionários, que deve dificultar o acesso para consultas médicas. Pessoas trans que não se tratam lá e buscam um tratamento, não conseguem, porque já são poucos funcionários”, explica Pisci-Bruja.

Ainda em 2019, Hilton destinou R$ 300 mil ao orçamento do CRT-DST/AIDS, através de emendas parlamentares. A deputada ainda não sabe como o valor será recepcionado pela SES: “precisamos saber para onde esse recursos será destinado. O CRT vai perder autonomia sobre o orçamento e vai se tornar mais uma unidade de saúde, uma UBS”, finalizou.

Referência

Criado em 1983, o CRT-DST/AIDS, de acordo com o site do órgão, é responsável por “elaborar e implantar normas relativas às DST/AIDS, no âmbito do SUS/SP; elaborar propostas de prevenção; prestar assistência médico-hospitalar, ambulatorial e domiciliar a pacientes com DST/AIDS; propor e executar ações de vigilância epidemiológica e controle das DST/AIDS; desenvolver programas de formação, treinamento e aperfeiçoamento, como também desenvolver e apoiar pesquisa científica em seu campo de atuação e promover o intercâmbio técnico-científico com outras instituições nacionais e internacionais”.

Na unidade, que está no bairro da Vila Mariana, zona sul de São Paulo, trabalham 800 servidores, entre os três turnos. Os profissionais são de diversas áreas: médicos, sanitaristas, infectologistas, pediatras, neurologistas, enfermeiros, dentistas, biologistas, entre outros.

A Secretaria de Estado da Saúde foi procurada pela reportagem do Brasil de Fato em 23 de dezembro de 2019. Porém, até o fechamento desta matéria não enviaram uma resposta.

Edição: Julia Chequer