VENENO

Opinião | Estudos apontam que crianças urinam agrotóxicos em Jalisco, no México

O governo estadual se apresenta como um “gigante agroalimentar”, mas não faz nenhuma menção à contaminação da população

Em 146 amostras de urina de crianças e adolescentes, 100% indicam a presença de resíduos de dois até seis agrotóxicos / Foto: Reprodução/Plumas Atomicas

Estudos de pesquisadores da Universidade de Guadalajara (UDG) e do Centro de Investigações e Estudos Superiores em Antropologia Social (Ciesas Ocidente) têm encontrado, repetidamente, resíduos de dois ou mais (até 12!) agrotóxicos altamente perigosos na urina de crianças e adolescentes de comunidades rurais do estado mexicano de Jalisco. A presença desses venenos agrícolas tem como consequências vários problemas de saúde, desde dores de cabeça, vômitos e náuseas, até problemas graves, como insuficiência renal e, potencialmente, câncer.

O governo de Jalisco se apresenta como um “gigante agroalimentar”, mas não faz nenhuma menção a esse fato. Com quase 12 milhões de hectares dedicados à agricultura, principalmente industrial, o estado é o lar regular de grandes corporações de agroquímicos e de sementes, que são abrigadas pelos governos local, estadual e federal. Esta relação, que nada tem a ver com a alimentação das pessoas, mas, sim, com o aumento dos lucros das empresas através da venda de veneno, tenta esconder uma grave realidade: a contaminação generalizada do solo, da água e do ar com agrotóxicos que esse modelo de produção tem causado, o que envenena os habitantes, especialmente os mais vulneráveis: as crianças.

No início de 2019, um estudo de Erick Sierra-Díaz, da UDG, Humberto González-Chávez, do Ciesas Ocidente, junto a outros pesquisadores, publicado na revista científica internacional Journal of Environmental Research and Public Health, mostrou que de 281 amostras de urina colhidas de crianças e adolescentes nas comunidades de Agua Caliente, perto do lago Chapala, e Ahuacán, perto do município de Autlán, todas tinham resíduos de dois ou mais pesticidas.

Seis agrotóxicos foram recorrentes em 70% dos casos: malathion, methoxuron, glifosato, dimethoate, uniconazole e acetochlor. Os pesquisadores explicam que em ambas as comunidades há exposição a cultivos industriais, mas, além disso, no caso da comunidade de Agua Caliente, a irrigação e o consumo de água contaminada com produtos químicos do Lago Chapala aumentaram o nível de certas toxinas. A maior prevalência foi de herbicidas, seguida de fungicidas e inseticidas. Em Ahuacán, todas as amostras continham resíduos de glifosato.

A equipe de pesquisadores da UDG e do Ciesas Ocidente continuou a colher amostras de urina de crianças em idade escolar e pré-escolar em outras áreas de Jalisco em 2019. Uma das selecionadas, devido à alta frequência de doenças que aí ocorrem, foi El Mentidero, perto do município de Autlán.

Ali, mães dos alunos do ensino médio pediram a inclusão dos testes de urina de seus filhos, explicando que, desde o início do ano letivo, os jovens se sentem doentes e sofrem constantes dores de cabeça, vômitos e náuseas. A escola secundária fica ao lado de um campo de plantio, onde pulverizam agrotóxicos, várias vezes por semana, mesmo quando os alunos estão em aulas ou no pátio. A equipe de pesquisadores recolheu 146 amostras de adolescentes, crianças em idade escolar e pré-escolar. Cem por cento das amostras indicam a presença de resíduos de dois até seis agrotóxicos. Os principais foram o glifosato e o 2-4 D, ambos inventados pela Monsanto e declarados cancerígenos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Devido aos estudos e à mobilização das mães para barrar o uso de agrotóxicos, ou ao menos para pedir que não sejam aplicados perto de instituições de ensino, as empresas que vendem venenos estão fazendo campanha para desacreditar esses estudos e poder continuar contaminando.

A associação civil Proccyt – na realidade uma fachada da indústria transnacional de agrotóxicos (seus membros são Syngenta, Bayer-Monsanto, Corteva, FMC, Basf e outros) – ofereceu ao governo de Jalisco e às autoridades da cidade de Autlán a realização de “oficinas de capacitação”, especialmente nas áreas onde foram realizados os estudos que demonstram a presença de agrotóxicos na urina das crianças. As autoridades aceitaram e até patrocinaram a sua estadia.

A repórter Mayra Vargas documentou como o “treinador” da Proccyt garantiu nessas oficinas que somente se tivessem dado Faena (o nome comercial do glifosato) para beber antes de colher a amostra das crianças era possível aparecer resíduos na urina. Os estudos mostram que o Proccyt mente. Além disso, há quase 43 mil processos contra a Bayer-Monsanto nos Estados Unidos por ter causado câncer com glifosato sem esclarecimentos dos riscos e de seu perigo. Três ações judiciais já deram razão e concederam milhões de dólares em compensação aos demandantes.

Mas, no México, as secretarias estadual e federal da Agricultura abriram espaço e pagaram despesas para que esta fachada grosseira dos negócios atacasse com mentiras os estudos científicos dos pesquisadores de universidades públicas mexicanas e, assim, enganar os agricultores e os moradores sobre a sua inocuidade, que não causaria danos.

Não precisamos adicionar veneno à nossa comida. Existem muitas alternativas boas e saudáveis na produção local, camponesa e agroecológica. São as mães que insistem em denunciar e pressionar pela mudança, são aquelas que não têm medo e não vão desistir, como têm feito em muitas outras questões. Elas defendem os seus filhos e filhas e o direito à saúde para todos. Elas devem ser apoiadas.

:::Assista aqui uma reportagem em vídeo sobre o caso:::

*Pesquisadora do Grupo ETC.

Edição: La Jornada | Tradução: Pilar Troya