Coluna

Quantos milhões você ganhou pelos centavos que deu aos trabalhadores?

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06 de Janeiro de 2020 às 14:38
Gao Liang, The People Who Got Land [O povo que conseguiu a terra], Junho de 1948 /
Me libertem de um presente de opressão e me levem a um futuro de libertação

Conforme entramos em um novo ano, protestos ao redor do planeta continuam inabaláveis; níveis crescentes de descontentamento se manifestam tanto em direções progressistas como reacionárias. O caráter político da raiva pode percorrer todo o espectro de opiniões e esperanças, mas as frustrações subjacentes são semelhantes. Há raiva por causa da crise de décadas do capitalismo e das consequências da austeridade. Parte dessa raiva é direcionada para a esperança de um mundo sem desigualdade e sem catástrofes; outra parte se aprofunda em um ódio tóxico por outras pessoas.

A raiva tóxica golpeia imigrantes e minorias, torna o ódio uma úlcera, uma falsa esperança contra a austeridade. Já a esperança genuína pode ser vista na reivindicação de um novo sistema para organizar melhor nossos bens comuns de modo a acabar com a fome e a despossessão, e para gerenciar as grandes catástrofes do capitalismo e das mudanças climáticas.

Não surpreende que os jovens estejam nas ruas com cartazes que clamam por um mundo novo, pois são eles os que percebem que suas vidas estão em risco, que a realidade do sistema de classes, com suas propriedades e privilégios, estão fechando as portas para suas aspirações (um relatório da ONU sobre o Chile mostra que a desigualdade socioeconômica é a principal queixa dos manifestantes). Este não é um levante da juventude sem caráter de classe; esses jovens sabem que não terão acesso à moradia, trabalho, alegria e realização.

André Fougeron, Civilisation atlantique [Civilização antlântica], 1953

O núcleo racional da esperança genuína aponta seus dedos para uma desigualdade social obscena. A cada ano, o serviço de notícias Bloomberg produz um Índice  de Bilionários. O deste ano, publicado nos últimos dias de 2019, mostra que os 500 maiores bilionários do mundo aumentaram sua riqueza em 1,2 trilhão de dólares; sua riqueza agora é de 5,9 trilhões de dólares, um aumento de 25%. O maior número - 172 - desses 500 bilionários vive nos Estados Unidos. Eles acrescentaram 500 bilhões dólares à sua fortuna; isso inclui Mark Zuckerberg (Facebook), que somou 27,3 bilhões dólares e Bill Gates (Microsoft), que ganhou 22,7 bilhões dólares. Oito das dez pessoas mais ricas do planeta têm nacionalidade estadunidense (de Jeff Bezos a Julia Koch).

Tais relatórios não explicam muita coisa, mas nos oferecem uma janela para o "Richistão" - o país dos muito ricos. Uma análise mais profunda desses números, porém, fornece uma compreensão da essência da desigualdade social. A família Walton, dona da gigante mundial do varejo Walmart, está bem representada na lista de bilionários da Bloomberg. Essa família se apropria de 70 mil dólares por minuto, o que equivale a 100 milhões de dólares por dia. Uma comparação entre a parcela dos ganhos do Walmart que é destinada à família Walton e a parcela direcionada aos trabalhadores da rede de varejo é exemplar. O próprio Relatório Econômico, Social e de Governança do Walmart (2019) admite que o salário médio dos trabalhadores do Walmart nos Estados Unidos é de US 14,26 dólares/hora. Se um funcionário médio do Walmart (há 2,2 milhões deles no mundo) trabalhasse 40 horas por semana durante 52 semanas, ganharia 29.660 dólares por ano - o que a família Walton faz em 25 segundos. Um trabalhador chinês que produz bens para a cadeia de valor global do Walmart ganha - em média - 300 dólares/mês ou 3.600 dólares/ano - o que a família faz em três segundos. A riqueza dos Walton é uma consequência direta do trabalho social dos milhões de trabalhadores que fabricam os produtos que o Walmart vende e dos milhões de trabalhadores que vendem esses produtos. Mas eles ganham uma fração do vasto lucro de 510 bilhões de dólares ganhos pelo Walmart em 2019.

No ano passado, em janeiro, milhares de trabalhadores têxteis de Bangladesh – a maioria mulheres – iniciaram greves nas fábricas que produzem roupas vendidas em lojas como Walmart e H&M. Em retaliação, 7.500 trabalhadores foram demitidos pelos proprietários, enquanto milhares enfrentaram processos criminais, o que a Human Rights Watch chamou de acusações “amplas e vagas”. A maioria desses trabalhadores ganha não mais de 3 mil taka por mês (30 dólares), um décimo dos salários de um trabalhador chinês. Quando esses trabalhadores - com baixíssimo salários - pedem aumentos modestos, enfrentam toda a ira dos proprietários das pequenas fábricas que produzem para o Walmart e do Estado de Bangladesh. Em 8 de janeiro de 2019, Sumon Mia (22 anos) e Nahid, dois trabalhadores da Anlima Textiles participaram dos protestos durante o intervalo para o almoço. Nahid disse mais tarde: “A polícia começou a atirar e os trabalhadores começaram a fugir. Então Sumon e eu começamos a correr e de repente Sumon foi atingido no peito e ele caiu. Eu fugi. Mais tarde, encontrei o corpo de Sumon na estrada”.

 À lista da Bloomberg devemos incluir o outro lado da riqueza, a lisa dos trabalhadores em Bangladesh cujo trabalho social é confiscado para produzir a riqueza para a família Walton. Nessa lista deveriam encontrar um lugar para o nome Sumon Mia.

Andrew Biraj, Rahela Andrew Biraj, Rahela Akhter, um trabalhador de vestuário de Bangladesh, resiste à polícia, Dhaka, junho de 2010. Biraj é estudante de Shahidul Alam, cujo novo livro, The Tide Will Turn [A maré vai virar], saiu pela Steidl Books

Um relatório do Banco Mundial de 2019 mostrou que 8 milhões de pessoas em Bangladesh superaram a linha da pobreza. O ponto principal desse relatório - a diminuição da pobreza - oculta seus achados reais. Um em cada quatro bangladeshianos permanece abaixo da linha da pobreza e 13% da população vive abaixo da linha da pobreza extrema (o Instituto de Estudos em Desenvolvimento de Bangladesh tem uma excelente análise da situação da pobreza e da classe trabalhadora). Os números são - como Sanjay Reddy e seus colegas mostram em relação aos índices de pobreza - duvidosos, uma vez que os dados do governo nos quais eles se baseiam não são confiáveis ​​ou consistentes. O relatório do Banco Mundial mostra que 90% da redução ocorreu em áreas rurais, onde as remessas de dinheiro de trabalhadores urbanos às famílias que ficaram no campo proporcionam um grande impulso. Os trabalhadores do ramo de vestuário enviam grande parte de seus salários para suas famílias, enquanto eles próprios vivem na pobreza; o número de pessoas que vivem em extrema pobreza nas áreas urbanas - diz o Banco Mundial - permaneceu “quase inalterado”. Dos 8 milhões que saíram da pobreza, 54% deles estão “vulneráveis”, ou seja, propensos a retornar à pobreza. Dependem de remessas de seus parentes que trabalham no setor de vestuário ou no exterior.

Os protestos dos trabalhadores em Bangladesh por um salário digno fazem parte dessa onda de protestos anti-austeridade. As manifestações não apenas condenam os cortes nos gastos do governo e o aumento dos preços dos itens básicos (transporte público), mas também reivindicam direitos aos trabalhadores. Essas lutas que inflamaram o Chile e o Equador, o Irã e a Índia, o Haiti e o Líbano, o Zimbábue e o Malawi, não são apenas contra corrupção ou contra o aumento dos preços dos combustíveis; são contra todo o arcabouço de austeridade e a dura taxa de exploração que torna miserável a maior parte da humanidade.

O poeta revolucionário de Bangladesh, Nazrul Islam (1899-1976), cantou com indignação sobre esse roubo:


 


Beton Diacho? Chup rou joto mithyabadir dal! (Pagou os salários? Calem-se bando de mentirosos!)

Koto pai diye kulider tui koto crore peli bol! (Quantos milhões você ganhou pelos centavos que deu aos trabalhadores!)


 


Seu poema começa com um trabalhador sendo espancado por um chefe. Nazrul Islam, que nunca deixou que essas atrocidades o entorpecessem, escreve com grande sentimento: “Meus olhos se enchem de lágrimas; os fracos serão espancados assim em todo o mundo?”. Ele espera que essa condição não seja eterna, que a exploração da humanidade não seja permanente. Essas esperanças - escritas em sua poesia há um século - permanecem vivas hoje, quando os jovens, de forma honesta e nada ingênua, lutam para construir um novo mundo.

Mas como seria esse mundo? Simplesmente ser contra a exploração e contra a opressão não é suficiente. É necessário um projeto de vitalidade para um futuro socialista, que é precisamente o que nós do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social estamos tentando desenvolver.

Há trinta anos, o diretor, ator e escritor comunista Safdar Hashmi foi brutalmente morto perto de Déli, enquanto a trupe da qual ele fazia parte - Jana Natya Manch - fazia uma peça. A obra - Halla Bol [Levante o inferno] - foi feita em prol de Ramanand Jha, o candidato comunista às eleições municipais de Ghaziabad. Safdar foi espancado até a morte por bandidos do Partido do Congresso (a LeftWord Books, de Déli, acabou de publicar um maravilhoso livro de Sudhanva Deshpande sobre a vida de Safdar e seu significado para todos nós).

Safdar era brilhante, uma pessoa de talento, carinhoso e comprometido com seu partido - o Partido Comunista da Índia (Marxista) - e com a luta. Um de seus poemas está em sintonia com o espírito desta carta semanal:


 


Aaj agar ye desh salamat (Hoje, se este país está seguro,)

Hai toh mere hi bal se. (É por causa da minha força.)

Aaj agar mai mar jaaoon toh (Se eu morrer hoje,)

Griha yudh hoga kal se (A guerra civil começará amanhã.)

Aao o Bharat desh ke veero. (Venham, corajosos da Índia,)

Aao mujko azad karo (Venham me libertar!)


 


Me libertem de um presente de opressão e me levem a um futuro de libertação. seu poema poderia estar escrito nos muros de Santiago (Chile) ou Porto Príncipe (Haiti) ou de Lilongwe (Malawi); poderia ser cantado em árabe, swahili, em tailandês ou farsi – e seu significado ecoaria. Venham me libertar.

 

 

 

 

 

 

 

Edição: Julia Chequer