IMPACTO

Único transporte que liga Ilha de Paquetá ao Rio, barcas mudam horários e itinerários

Viagens para o Rio levavam 50 minutos e agora terão duração de 1h50min; população reage e teme por serviços básicos

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Apesar do grande fluxo de pessoas nas barcas, Grupo CRR alega que adequou oferta à demanda para reduzir os impactos da "crise financeira" / Arquivo/Agência Brasil

A concessionária CCR Barcas entrou com uma petição na Justiça do Rio de Janeiro para autorizar de imediato a implementação dos novos horários e itinerários de funcionamento do transporte na região metropolitana da cidade. A medida é uma tentativa de anular a contraproposta elaborada por moradores da Ilha de Paquetá, bairro do município do Rio, que seria apresentada para negociação. As barcas são o único meio de transporte que ligam a ilha ao restante da cidade. 

Os moradores da ilha contestam as mudanças que a concessionária pretende fazer a partir dos próximos dias e que vai alterar o trajeto e o tempo de viagem até a Praça XV, no centro do Rio. Um levantamento realizado junto às escolas, creches, hospitais, comércios mostra o impacto que a proposta da CCR Barcas pode causar à ilha. 

Com a mudança apresentada pela CCR, sete das 20 viagens diárias feitas entre Paquetá e Praça XV, que tinham duração de 50 minutos, passam para 1 hora e 50 minutos e terão parada em Cocotá, bairro da zona norte da cidade. Antes eram feitas 33 viagens diárias nos dois sentidos, sem parada. Desde que anunciou a alteração, no final de dezembro, a concessionária vem sendo duramente criticada pela falta de transparência na nova proposta de funcionamento. A Defensoria Pública do Estado do Rio (DP-RJ), a Assembleia Legislativa (Alerj) e a Agência Reguladora de Serviços Concedidos de Transportes Aquaviários, Ferroviários e Metroviários e de Rodovias do Estado (Agetransp) também reagiram entrando com uma petição na Justiça para não autorizar a mudança.

O primeiro prejuízo para a população poderá ser o impacto nos serviços básicos como saúde e educação, já que pessoas que trabalham na ilha e moram em outros bairros da cidade estão considerando pedir transferência para trabalhar em localidades mais acessíveis.

“Muitas pessoas que trabalham em Paquetá avisaram que não querem continuar em seus postos de trabalho se os horários mudarem. Também recebemos relatos desesperados de moradores, idosos e pacientes em tratamento complexo fora da ilha, que terão suas rotinas muito prejudicadas. Entre eles estão pessoas com câncer e outras com dificuldade de locomoção”, disse o ouvidor-geral da Defensoria, Guilherme Pimentel.

Na última segunda-feira (6), a Associação de Moradores de Paquetá (Morena) se reuniu com outras associações para avaliar ações que impeçam a mudança. Além do prejuízo para estudantes, professores, profissionais de saúde e diversos trabalhadores, a população também teme pelo encarecimento de produtos que chegam à ilha e a segurança do transporte, já que a superlotação das barcas seria mais uma consequência da medida da CCR.

Economia

A página da Associação dos Moradores de Paquetá, no Facebook, está colhendo depoimentos para mostrar todos os problemas decorrentes da decisão da CCR Barcas. Para o diretor da Casa de Artes Paquetá, José Laborador, ao ignorar a opinião dos moradores a concessionária está colocando em demolição um trabalho de anos para a melhoria do turismo da ilha.

“Essa atitude unilateral é impensável sob vários aspectos, afeta toda a comunidade, seus moradores, mas o mais traiçoeiro é desmontar toda uma cadeia econômica que sustenta diversas famílias. A proposta deles para fim de semana, os dias de mais movimentação turística, é cruel. É feita de uma forma que não se considerou todo o processo de revitalização que a ilha vem vivendo, um projeto de ilha em que a comunidade é protagonista do processo. Uma atitude dessa desmorona o trabalho que vem sendo feito há muitos anos”, afirmou Laborador.

Apesar do grande fluxo de pessoas entre Rio e Paquetá, sobretudo nos fins de semana, o Grupo CCR afirma, em comunicado, que a mudança tem relação com uma adequação da oferta à demanda, “reduzindo os impactos da crise financeira” para a empresa. A medida será contestada, já que a concessionária não apresentou documentos que comprovem a necessidade real da mudança.

Novas tarifas

Na linha Arariboia a Praça XV, o intervalo máximo entre viagens passará de 10 minutos para 15 minutos nos horários de pico — das 6h30 às 10h10 e das 16h30 às 20h10. As demais partidas foram mantidas. 

Haverá ainda mudança de tarifas. A Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes (Agetransp) anunciou no dia 21 de dezembro que, em uma sessão regulatória, homologou os reajustes para as barcas. O reajuste será aplicado a partir do dia 12 de fevereiro. Nas linhas sociais, em todos os itinerários, a tarifa passa dos R$ 6,30 para R$ 6,50. Já no destino Praça XV a Charitas o preço sobe, na mesma data, de R$ 17,60 para R$ 18,20.

*Reportagem atualizada em 08/01, às 11h15.

Edição: Mariana Pitasse