Memória

Cabanagem: 185 anos da tomada de Belém

Revolta é conhecida por ter mobilizado a população afroindígena, mas também envolveu a elite local

Brasil de Fato | Belém (PA)

,
Memorial da Cabanagem, obra de Oscar Niemeyer, foi entregue revitalizado para a população paraense. / Kleberson Santos

Nesta semana, são celebrados os 185 anos da tomada de Belém, importante marco histórico da Revolução Cabana. As revoltas tiveram início em 1823 e se estenderam até 1840.

Apesar de ser associada à participação popular – em especial, de indígenas, camponeses e ex-escravos – as revoltas também envolveram membros da elite, e têm seus antecedentes marcados pela resistência à Independência do Brasil, em 1822, e pela recusa ao reinado de Dom Pedro I por parte da Província de Belém do Grão-Pará – atuais estados do Pará, Maranhão e Tocantins. Dessas tensões surge a aliança entre o povo e as elites em um dos maiores movimentos vividos pelo povo paraense.

No dia 6 de janeiro de 1835, ocorreu a tomada da cidade de Belém e, no dia seguinte foi instituído o governo cabano, que duraria até 19 de fevereiro.

Para o historiador especializado em estudos culturais e história oral, Jaime Cuellar Velarde, não se deve pensar a Cabanagem como um movimento que emergiu do povo. Ele explica que a Província de Belém do Grão-Pará e Maranhão possuía mais ligações com Portugal, o que explica a não só a adesão tardia à independência, mas o fato de a elite fazer parte do movimento.

“A Cabanagem foi um movimento com múltiplos interesses, envolvendo diversos grupos sociais – desde ex-escravos até donos de seringais, fazendeiros, padres, jornalistas… Então, não se pode dizer que foi um movimento somente de pessoas que viviam às margens dos rios. Haviam outros interesses, principalmente políticos”, explica.

Assim, o movimento é, de certa forma, dual. De um lado, os afroindígenas e, do outro, a elite local, com comerciantes e fazendeiros, além de padres e jornalistas – todos unidos contra o governo regencial de Dom Pedro I. O professor diz ainda que a regência de Dom Pedro I penalizou mais as camadas menos favorecidas da sociedade da época e a elite, que aceitou a independência a muito contragosto, perdeu o espaço que tinha.

“A regência de Dom Pedro é um problema, porque ameaça os interesses políticos portugueses e é porque age com violência, atrocidade e desleixo. Esse desleixo administrativo acaba afetando a população mais pobre. Então, tanto os mais pobres quanto os mais ricos se veem unidos em um interesse comum: derrubar o governo central”, resume.

Dessa união surge a revolta mais marcante da história do Pará, onde cerca de 30 mil homens tombaram. Hoje, a Cabanagem – uma revolta sufocada que não conseguiu alcançar o seu objetivo – ganha uma série de novos significados, mas é sempre lembrada como símbolo de luta e resistência. Segundo o historiador, há também uma tentativa dos políticos em se apropriar da história do movimento. A própria Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa) carrega o nome de Palácio da Cabanagem.

Nos governos recentes de Jader Barbalho (MDB-PA), o ideário cabano se transformou em um mote de discurso político. A partir desse momento creio que perde credibilidade a ação política, porque ela se torna muito mais uma plataforma em busca de votos do que efetivamente uma política pública de valorização do social e do popular no Estado do Pará”, afirma.

Em 1840, a Cabanagem foi sufocada e chegou ao fim. Mas ela ainda é motivo de inspiração para muitos, como afirma Moisés, Coordenador Estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

“A inspiração da Cabanagem para a gente, do MST, nos faz pensar em uma releitura da sua memória coletiva, de um povo com sua identidade camponesa, diverso. Onde índio, negro, caboclo, deram o seu exemplo que só o povo em luta pode reestabelecer a sua dignidade, sua cultura. Impregnamos uma cultura inteira como valores de solidariedade na qual podemos viver sem ser explorados e sem sermos exploradores de outros seres humanos”, afirma.

Programação Cultural Preamar Cabano

Até o próximo domingo (12), haverá uma programação gratuita disponível para a população em homenagem ao movimento.

No Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, onde funciona o Museu de Arte Contemporânea do Estado do Pará, estão abertas quatro exposições com peças acervo do Estado.

Na Sala Ruy Meira está disponível a exposição Percursos na Arte Brasileira, com curadoria do Sistema Integrado de Museus e Memoriais. A exposição traça um panorama da arte brasileira, das primeiras décadas do século XX aos dias de hoje, no qual os artistas da geração moderna dialogam com a produção artística contemporânea paraense.

Na Sala Valdir Sarubbi, está aberta a exposição Dilemas 2019, com curadoria de John Fletcher. A proposta expositiva ressalta o potencial crítico da arte sobre a realidade atual, a partir de dilemas pessoais e coletivos, de modo a criar um roteiro capaz de nos fazer refletir e agir sobre as transformações disruptivas da atualidade.

A exposição Encontro das Águas – Luiz Braga e Miguel Chikaoka está aberta à visitação na Sala Gratuliano Bibas e tem curadoria do Sistema Integrado de Museus e Memoriais e texto de João de Jesus Paes Loureiro. A mostra apresenta um olhar sobre a Amazônia, por meio do encontro de dois representantes da fotografia paraense: Luiz Braga e Miguel Chikaoka.

A exposição Indizível recebe o público na Sala Laboratório das Artes e tem curadoria de Nando Lima. A mostra traz uma videoinstalação que propõe uma experiência imersiva no universo simbólico de Andara - a Amazônia distópica de Vicente Cecim.

Integrando a 38ª edição do Salão Arte Pará, no Museu do Estado, a exposição Deslendário Amazônico, de curadoria de Orlando Maneschy e curadoria adjunta de Keyla Sobral, celebra o pensamento do poeta João de Jesus Paes Loureiro em seus 80 anos.

Nesta quinta-feira (9), às 16h, será realizada, no Salão Histórico do Museu do Estado do Pará (MEP), a primeira ação do Projeto Obra Comentada. O professor de história Aldrin Figueiredo ministrará uma aula analisando o quadro “A Conquista do Amazonas”, de Antônio Parreiras. O objetivo do projeto é aproximar a sociedade do acervo exposto do Estado por meio de seminários, workshops, aulas e palestras.

Em seguida, às 17h, será realizado na Capela do MEP o projeto Música nos Museus, com o Trio Andaluz interpretando os clássicos do choro brasileiro e regional. Com o objetivo de incentivar o cuidado e a preservação do patrimônio histórico da cidade, o projeto “Diálogos com o Patrimônio”, organizado pelo Departamento de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (DPHAC), desenvolverá ações educativas ao longo da semana.

A programação iniciou com a exposição Patrimônio Público Paraense, que apresenta os bens tombados pelo Estado em painéis montados no Pátio Interno do Museu do Estado do Pará (MEP), aberto ao público até o dia 12 de janeiro, de 9h às 17h.

Na sexta-feira (10), às 9h, acontecerá uma visita monitorada à Igreja de Santo Alexandre, que levará o público a um passeio pelos vestígios da história colonial da cidade, deixados pela Companhia de Jesus, que hoje fazem parte do acervo da Igreja.

No Café do Museu de Arte Sacra, será realizada uma oficina de cartões-postais temáticos dos espaços que foram cenários decisivos para os desdobramentos da Cabanagem. No mesmo dia, na varanda do MEP, o público será convidado a construir coletivamente o painel Cabano, uma instalação artística desenvolvida por meio de técnicas de colagem, desenhos e escrita, utilizando recortes de material temático escaneado do acervo das Bibliotecas do DPHAC e do Sistema Integrado de Museus (SIM).

A programação segue às 15h com a palestra 7 de Janeiro de 1835: A Tomada da Cidade de Belém pelos Cabanos, na Capela do MEP. A ação irá propor um debate mediado pela professora Eliana Ramos Ferreira, da Universidade Federal do Pará (UFPA), sobre o início histórico da Cabanagem.

No sábado (11), às 18h, será realizada a abertura da exposição Uma Certa Belém, montada na Galeria Fidanza do Museu de Arte Sacra, com peças da Coleção Motoki. A coleção é formada pelo acervo doado pelo imigrante japonês Kenichiro Motoki ao Museu do Estado do Pará. Na exposição, o visitante conhecerá objetos artísticos e fragmentos de edificações do período da borracha, recolhidos pelo imigrante com espírito de colecionador.

Às 19h, o historiador Michel Pinho mediará a ação Belém Noturna, uma caminhada pela noite do centro histórico de Belém, apresentando seus labirintos de memórias e histórias que permeiam o local.

Nos dias 11 e 12, de 9h às 17h, também ocorrerão duas ações de educação patrimonial e cultural. No Espaço Cultural Casa das 11 Janelas, acontecerá uma oficina de montagem de maquetes do patrimônio histórico de Belém, aberta aos estudantes e ao público em geral, que conhecerão, por meio de um processo lúdico de montagem de maquetes de papel, a importância do patrimônio arquitetônico e histórico da capital paraense. E no hall de entrada do Museu de Arte Sacra haverá o projeto Troca-Troca de Leitura, promovido pela Biblioteca Antônio Landi.

No domingo, 12, dia do aniversário de Belém, às 8h30, a professora Maria Goretti e o Grupo de Pesquisa de Geografia do Turismo, da Faculdade de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Geografia (GGEOTUR) da Universidade Federal do Pará (UFPA), realizarão o roteiro Geo-Turístico”, que percorrerá o bairro Cidade Velha, compartilhando com o público informações sobre o Centro Histórico de Belém.

Na praça da República, no domingo, será realizado a programação especial: o teatro musical “Árvores que tocam”, no palco do Theatro da Paz, às 11h, com entrada franca. A obra do percussionista Thiago D'Albuquerque reúne percussão, canto e dança e é marcada pela mistura de instrumentos populares e eruditos, com a incursão de recursos tecnológicos.

Encerrando o Preamar Cabano, no Porto Futuro, às 18h, com o coral Vale Música fará uma apresentação e às 20h, a Amazônia Jazz Band apresentará se apresentará junto com os cantores paraense Lucinnha Bastos e Pinduca. Já às 22h, ocorre um espetáculo pirotécnico e, pra encerrar a noite, o carimbó chamegado de Dona Onete e banda.

Edição: Julia Chequer