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Como conversar com um bolsonarista?

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08 de Janeiro de 2020 às 16:09

Ouça o áudio:

"Em um mundo tomado pela escuridão e contaminado pela mentira, coloca-se tudo em dúvida inclusive a esfericidade da Terra" / Johannes W/Unsplash
É uma espécie de pronto socorro cognitivo, visando a redução de danos

Está na moda, quase como imposição à esquerda e aos democratas em geral, a necessidade de conversar com os bolsonaristas. Tentar afastá-los das más companhias, como as comadres Intolerância e Ignorância, e apresentá-los à senhora chamada Razão. É uma espécie de pronto socorro cognitivo, visando a redução de danos quanto ao desconhecimento da vida, do país e do mundo.

Não vai ser fácil. Em um mundo tomado pela escuridão e contaminado pela mentira, coloca-se tudo em dúvida inclusive a esfericidade da Terra. Caiu a noção de perícia. Para brandir uma opinião definitiva sobre qualquer coisa, de geometria algébrica à biologia molecular, passando pela eficácia do sistema 4-3-3 no futebol moderno, basta querer. Não requer prática nem habilidade, muito menos leitura. Por exemplo: aquele primo que, se você empurrar, cai de quatro e fica pastando, sente-se habilitado a contrariar Einstein. Diante de qualquer objeção, a resposta pula da ponta da língua:

– É minha opinião!

A frase é recorrente no vocabulário bolsominion. Conteste seu conhecimento e as três palavras saltarão magicamente como uma resposta universal, embora nada respondam. Há outras bem conhecidas: “E o Celso Daniel, hein?”, “Vai pra Cuba!”, “E na Venezuela?” e muitas mais não há porque, sabemos todos, o léxico é curto.

A sugestão é começar com um caso mais leve, abordando alguém que, de falastrão transmutou-se em quase mudo, sinal que a pílula amarga da realidade começou a fazer efeito. Mas, se confiar no seu taco, engrene uma prosa com um bolsonarista raiz. Ele é uma mutação mais nefasta do ‘coxinha’. Enquanto este tinha amores fugazes, tipo Aécio, Cunha, Temer, descartáveis na medida em que iam sendo destroçados pelas evidências, o núcleo duro do bozonarismo desenvolveu uma carapaça quase impenetrável aos argumentos, descolando-se do mundo real. Mas, se quer experimentar mesmo, comece cautelosamente usando a abordagem mais trivial, mais ou menos assim:

– Baita calorão, né? Nunca vi tanto calor…

– Entrou nessa do aquecimento do planeta, né? Só você não viu que é uma conspiração do marxismo global…

– Você acha é? Bem, é sua opinião…Mas, trocando de assunto, como foi a churrascada do réveillon?

– O que é que você quer dizer com isso? Nem gosto de carne, porra!

– Ah, não teve aquela picanha de sempre então… Mas, então você passou no posto, encheu o tanque e foi pra praia…

– Que praia o quê, cara? E eu sou cara de praia? Fiquei em casa comendo um omelete e tava muito bom…

– Legal, não sabia que você tinha virado ambientalista…

– Ambientalista é o cacete!

– Sim, mas como ovo prende o intestino, você está seguindo a receita do chefe de fazer cocô um dia sim, outro não para preservar a natureza. Patriótico da sua parte. Mas, cá entre nós, pelo que vejo e leio diariamente seu comandante não segue a receita que ele mesmo deu…

– Esquerdopata! Vai pra Cuba! Pra Venezuela! E o Celso Daniel, hein? Direitos humanos pra humanos direitos, caceta! Tem que matar, tem que ma…

Eu não avisei que não seria fácil?

Edição: Julia Chequer