Entrevista

Lula acredita que ataque dos EUA ao Irã é estratégia política de Trump para eleições

Em entrevista ao Diário do Centro do Mundo, o ex-presidente criticou o apoio do Brasil aos EUA

Brasil de Fato | Belém (PA)

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Na primeira entrevista de 2020, o ex-presidente disse que o Brasil nunca precisou tanto do PT como agora / José Eduardo Bernardes/Brasil de Fato

Em entrevista concedida ao Diário do Centro do Mundo (DCM) na manhã desta quarta-feira (8), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que os Estados Unidos (EUA) sempre buscam um inimigo e que o conflito parece estar associado à “campanha eleitoral”, devido a baixa popularidade de presidente Donald Trump. Para ele, o Brasil pode ser um construtor de harmonia e não é a época adequada para o governo brasileiro “se meter em confusão”.

Em sua primeira entrevista do ano, Lula se dispôs a responder qualquer pergunta e o primeiro assunto abordado foi a guerra Irã x EUA. "Brasil não tem contencioso. Muito do contencioso do Brasil foi com a Guerra do Paraguai. O Brasil pode ser considerado um construtor de harmonia, construtor de paz. Porque é o comportamento de um país que tem fronteira com quase todos os países da América e boas relações com Europa e Estados Unidos. O Brasil sempre manteve uma política diplomática coerente e corajosa”, disse.

Para o ex-presidente, o ataque dos EUA ao Irã tem também relação com a baixa popularidade de Donald Trump e parece-lhe uma estratégia voltada para as eleições. “O Trump sabe que não está fácil a reeleição com a quantidade de coisas que ele faz e fala. O discurso ´América para os americanos´ tem uma base de sustentação que funciona. Eu acho que ele sabe que pode perder as eleições, então, sempre uma guerra ajuda. Eu acho que ele está provocando coisa que acho muito delicada. O Irã não é um país qualquer, eles têm uma tradição cultural milenar, é um país com mas de 80 milhões de habitantes. E qual era o papel de um país como o Brasil? Não se envolver nisso”, afirma. 

Quando questionado sobre o apoio incondicional dado pelo presidente Jair Bolsonaro aos EUA, Lula disse que Bolsonaro não esconde e nem faz questão de esconder a sua lealdade à Trump. “Bolsonaro não tem medido esforços para dizer que é um lambe-botas dos EUA”, criticou.

A postura do atual presidente também foi criticada por Lula. Ele disse que “um governo não vai para a frente tuitando que é preciso ter uma postura de estadista” e que Bolsonaro não a tem.

Na entrevista, Lula lembrou ainda dos mais de 500 dias em que ficou preso e falou que o atual Ministro da Justiça e Segurança Pública do Brasil, Sérgio Moro "sabe que não se comportou como juiz e o [procurador da República Deltan] Dallagnol sabe que envergonhou o Ministério Público. Eu não perdoo o Moro pelo que ele fez, ele não foi honesto”.

O presidente também comentou a possível candidatura de Luciano Hulk ao cargo de presidente da República e disse que isso mostra a fragilidade da atual conjuntura política, quando figuras não políticas são procuradas para ocupar cargos do Executivo.

Ao final, Lula falou da necessidade do PT para que um país mais digno seja restabelecido. “O Brasil nunca precisou tanto do  PT como agora. Para fazer a economia crescer, para os pobres voltarem à Universidade e para que o Brasil recupere o direito de andar de cabeça erguida. Sou um dos que vai lutar muito para o PT voltar para o governo”, disse reforçando a defesa à liberdade de imprensa.

Edição: Julia Chequer