Coluna

Petróleo iraniano já motivou golpe de Estado orquestrado pelos EUA

Imagem de perfil do Colunista
14 de Janeiro de 2020 às 16:35
O Xá Reza Pahlevi e o presidente estadunidense Jimmy Carter celebram a chegada de 1978, em jantar servido no palácio Niavaran, no Irã / Governo dos Eua/Wikimedia Commons
Em 1953, o nacionalista Mossadegh foi deposto, levando Reza Pahlevi ao poder

É no mínimo curioso que os EUA se coloquem, atualmente, como os bastiões da luta contra um regime fundamentalista religioso no Irã quando eles próprios – em conluio com os britânicos – patrocinaram e orquestraram um golpe de Estado contra um governo laico e democrático do Irã da década de 1950.

Nos anos 1950, diversos países do Oriente Médio passaram a ser governados por presidentes desenvolvimentistas, que – seculares ou não – eram partidários da defesa dos interesses nacionais, o que envolvia o controle sobre o seu território e os recursos naturais. Dentre eles podemos citar Gamal Abdel Nasser, no Egito e Mohammed Mossadegh, no Irã.

Esse processo faz parte de um momento específico da geopolítica do petróleo, no qual as Nações Produtoras do “ouro negro” buscavam formas de avançar no que tange a apropriação dos ganhos nacionais pela exploração dos recursos petrolíferos. Os anos de exploração de óleo no Oriente Médio haviam deixado um rastro de pobreza, miséria, corrupção e despostismo.

Nesse período eram comuns concessões para a exploração petrolífera que se estendiam por 80 ou 90 anos. Além disso, o retorno fiscal para os países produtores era demasiadamente baixo, enriquecendo as grandes companhias petrolíferas internacionais – principalmente as constituintes do famoso Cartel das Sete Irmãs – e mantendo os países produtores na extrema pobreza, amargando no subdesenvolvimento.

Alguns países como México e Argentina inauguram um período de nacionalização da exploração petrolífera e de criação de empresas estatais comprometidas com o desenvolvimento local e a segurança energética. Nos anos 1950, o próprio Brasil foi cenário da construção de uma grande empresa estatal – a Petrobrás –, indo na contramão da dependência das empresas multinacionais.

Foi embalado por esse contexto de nacionalizações e sob a emergência de governos desenvolvimentistas e nacionalistas que Parlamento Iraniano, em 1º de maio de 1951, sob o governo do primeiro-ministro Mohammed Mossadegh nacionalizou o petróleo iraniano, rompendo o acordo escandaloso de concessão com a Anglo-Iranian Oil Company, uma companhia Britânica que explorava o petróleo iraniano desde 1908.

A primeira e conhecida arma de represália para a desestruturação do governo Iraniano foi o bloqueio comercial.

Proibidos de vender seu petróleo a maior parte dos países do mundo, o Irã começou a ter sérios problemas econômicos internos. Foi aproveitando essa desestabilização que os EUA, em conjunto com a Inglaterra, colocaram em prática a Operação Ajax, que consistia na orquestração da derrubada de Mossadegh “por quaisquer meios”, como atesta documentos da própria CIA revelados em 2000.

Em 1953 foi concretizado o golpe contra Mossadegh, levando ao poder o Xá Reza Pahlevi, que reestabeleceu dos interesses anglo-americanos no Irã, permitindo-lhes formar um consórcio para continuar explorando o petróleo iraniano no mesmo modelo predatório anterior. Foi contra esse governo fiel escudeiro dos interesses imperialistas que eclodiu a Revolução Iraniana, em 1979.

Assim, para quem acha que é possível relativizar a força e atuação do imperialismo estadunidense nos anos 2000, que fique o alerta.

A história atesta a força do braço imperialista na manutenção dos seus interesses econômicos na região, e não mede esforços para lançar mão de diversos instrumentos golpistas quando o que está em jogo é a luta pela afirmação da questão nacional e o controle dos recursos naturais de qualquer país da periferia capitalista.

Edição: Rodrigo Chagas