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A defesa da Frente Ampla é uma tática “abraço de urso”

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Eleição de Rodrigo Maia como presidente da Câmara dos Deputados foi apresentada como um desdobramento da tática da Frente Ampla
Eleição de Rodrigo Maia como presidente da Câmara dos Deputados foi apresentada como um desdobramento da tática da Frente Ampla - José Cruz / Abr
Unidade de ação é articulação pontual defensiva diante de um perigo imediato

Cria corvos e eles te arrancarão os olhos

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Sabedoria popular espanhola

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Quando os ursos se sentem ameaçados por algo, eles se levantam sobre as patas traseiras, avançam rapidamente e abrem os braços na direção da presa. O ataque é fatal. Denomina-se “abraço de urso” uma tática que, na forma, faz um chamado à unidade, em condições que são implausíveis, incabíveis ou inaceitáveis, para responsabilizar os outros pela divisão.

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O “abraço de urso” é uma bravata, uma chantagem, uma intimidação. Em nome da bandeira da unidade contra um inimigo comum se avança um ultimato. Parece doce, mas é amargo. Explora-se o justo sentimento de unidade contra um inimigo comum implacável. O “abraço de urso” é uma dissimulação ensaiada, um artifício, uma cilada, uma armadilha.

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A tática da Frente Ampla está sendo defendida como a melhor resposta da oposição, em alternativa à tática da Frente Única de Esquerda. São dois caminhos estratégicos e táticos incompatíveis. Um caminho é a aliança entre os partidos de esquerda, para resistir a Bolsonaro, para tentar impedir Bolsonaro de governar, para tentar construir as condições para derrubá-lo. Mas, também, para lutar por um governo de esquerda, com um programa de esquerda. Nesta via, a questão difícil será a construção deste programa, não o partido ou liderança que a encabeça.

 A defesa da Frente Única de Esquerda não exclui a defesa da unidade de ação mais ampla possível contra os ataques, investidas, agressões do governo de extrema direita no poder e as ameaças dos neofascistas. Unidade na ação não é uma Frente em torno de um programa e um projeto de governo para disputar eleições. Unidade de ação é uma articulação pontual defensiva diante de um perigo imediato.

A Frente Ampla consiste, essencialmente, em reduzir a tática da oposição a uma tática eleitoral, ou seja, uma tática quietista. O quietismo é “deixar como está para ver como é que fica”, ou não provocar, ficar quieto. Ou esperar o calendário eleitoral, portanto, respeitar o mandato de quatro anos, apostando no “desgaste de material” de quem está à frente do governo.

É uma tática estritamente eleitoral porque não há qualquer perspectiva de que haja algum setor do centro que esteja disposto a se apoiar na mobilização de massas contra as ações do governo. A linha do centro é se apoiar na maioria dirigida por Maia no Congresso, e no STF para limitar, institucionalmente, os excessos bonapartistas de Bolsonaro. Algo que é mais do que insuficiente diante de um governo de extrema direita. A história ensina dramaticamente que, sem mobilização social, os neofascistas não serão derrotados.

A Frente Ampla é uma aliança que se apresenta como um projeto político de poder com dissidentes da classe dominante, para atrair setores da classe média, através da aproximação com o centro contra a extrema-direita, respeitando um programa mínimo com uma ala burguesa.

Teve inúmeras variações históricas.A mais importante, na história contemporânea do Brasil, foi a linha do PCB e PCdB de defesa da submissão da esquerda à direção liberal do MDB entre 1979 e1984, quando a onda de greves colocou a possibilidade de fundação do PT e da CUT. Essa orientação foi derrotada.

A campanha das Diretas Já em 1984 foi a concretização da tática da unidade na ação. O PT, muito corretamente, não entregou os seus votos no colégio Eleitoral à chapa Tancredo Neves/José Sarney. Ao contrário, foi o eixo da oposição ao governo Sarney. Foi, essencialmente, em função deste posicionamento estratégico e tático que Lula chegou ao segundo turno em 1989. O PT não teria sido fundado, ou seria um partido marginal, se tivesse abraçado a tática da Frente Ampla na fase final da luta contra a ditadura.  

A tática da Frente Ampla em 2020 é ainda mais perigosa que a defesa da submersão no MDB em 1979. Se a esquerda renunciar a ser uma oposição para valer nas ruas antes de 2022, e abrir mão da defesa de um programa de esquerda para 2022, facilitará o caminho para uma reeleição de Bolsonaro.

Seria um suicídio, uma derrota sem luta que é a pior das derrotas, por muitas razões. A primeira é que é que Lula e o PT mantém-se como as principais referências da oposição, e uma tática de Frente Ampla seria um harakiri - ritual suicida japonês reservado à classe guerreira surgido no século XII e disseminado principalmente entre samurais.

Só é possível, se o PT renunciar ao papel de liderança da oposição. Na verdade, o PT teria que renunciar ao direito de apresentar Lula como candidato em 2022 para tentar, por uma via de negociação pelo alto, uma anulação das condenações que o ameaçam e impedem de ser candidato. Teria, portanto, que na prática abandonar a campanha Lula Livre.

 A segunda é que confiar que uma ala da burguesia seria aliada na luta contra Bolsonaro é mais que ingenuidade, é uma miopia política delirante. Prevalece uma enorme unidade da classe dominante no apoio aos planos de Paulo Guedes. Não é previsível que haja alguma ala da burguesia disposta a uma frente eleitoral com a esquerda contra Bolsonaro.

Não é por outra razão que os governadores do PT no Nordeste estão encaminhando reformas de previdência em seus Estados, completando a destruição de direitos iniciada em 2019. Rui Costa já deixou claro que postula a indicação como candidato a presidência em 2022 e é um entusiasmado defensor da tática da Frente Ampla. É a esquerda que faz o diálogo com o centro aplicando a política da direita.

Tampouco é simples definir o que é o centro político que estaria em disputa em 2020. Para alguns, o centro em disputa vai até Ciro Gomes/PDT e Paulo Câmara/PSB. Mas para outros é um espaço mais amplo. A tática de eleição de Rodrigo Maia como presidente da Câmara dos Deputados, por exemplo, foi apresentada como um desdobramento da tática da Frente Ampla.

O PCdB e uma parcela da bancada do PT apoiou Maia. Maia foi ou não um dos pontos de apoio para o governo Bolsonaro em 2019? A mesma tática explica a aprovação do pacote anticrime com votos da esquerda parlamentar. apresentado por Moro, com a alegação de “redução de danos”.

Como em 1979/83 o desafio da esquerda é ter a flexibilidade tática para a unidade na ação contra Bolsonaro através de “geometrias variáveis” e a firmeza estratégica de construção de uma Frente Única de Esquerda para a resistência e para as eleições. A tática da Frente Ampla é um abraço de urso. Esse é caminho que facilita a reeleição de Bolsonaro.

Edição: Leandro Melito