Em defesa das agroflorestas, universitários atuam com assentados do Sepé Tiaraju

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Agricultores do interior de São Paulo recebem estudantes e compartilham experiências agroecológicas - Foto: Assentamento Sepé Tiaraju
A agrofloresta é a capacidade de trazer a vida de volta

Localizado em Ribeirão Preto, o assentamento Sepé Tiaraju se consolida cada vez mais como um espaço de troca de saberes entre agricultores e universitários. O que o une o campo e cidade é a mesma paixão: as agroflorestas, um sistema de multicultivo onde diversas espécies são plantadas conjuntamente. 

Tudo começou há alguns anos, quando estudantes de instituições públicas de cidades próximas a Ribeirão começaram a colaborar com assentamentos locais e cooperativas com o apoio de projetos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Tomás Ramos cursa engenharia agrônoma na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP) e se orgulha de ter participado de um mutirão no Sepé Tiaraju em 2015, quando 35 agroflorestas foram plantadas e outras enriquecidas.


Estudantes universitários participam de vivência imersiva no Sepé Tiaraju, em Ribeirão Preto / Assentamento Sepé Tiaraju

Ele conta que, em 2017, fortaleceram-se iniciativas de vivências mais imersivas, onde os estudantes ficam por dias no assentamento auxiliando os agricultores e conhecendo a realidade da agricultura familiar. Em sintonia com o calendário acadêmico, a vivência acontece geralmente em julho e janeiro, período de férias, e já está em sua 9ª edição. 

De acordo com ele, a banana e mandioca são os carros chefes do assentamento, que conta com uma enorme variedade de plantas e frutas. 


“A grande ideia da vivência é estreitar laços com o Sepé Tiaraju, trazer outras pessoas para o assentamento, estudantes, pesquisadores, profissionais, para a realidade da reforma agrária, de quem está trabalhando com agroecologia e com agrofloresta. Trazer o diálogo tentando construir ações conjuntas, uma rede de apoio ao assentamento. Que todos consigamos dar os braços e caminhar juntos na luta da agrofloresta e da agroecologia”, detalha Ramos. 

O futuro engenheiro agrônomo complementa que além da troca de conhecimento, a vivência também é positiva por sua funcionalidade já que a presença dos estudantes aumenta a capacidade de mão de obra para cuidar do cultivo das agroflorestas. 

Durante os dias de convivência também são organizadas rodas de conversa e oficinas com os assentados sobre diversos temas na área da agroecologia.

“Eles [agricultores] estão construindo um caminho alternativo e nos ensinando diariamente que é possível fazer uma lógica alternativa, fugir da lógica capitalista de produção. Construir uma agrofloresta, construir alimentos com qualidade respeitando o produtor, o consumidor e abastecendo os grandes centros, colocando comida na mesa”, relata Tomás. 
 
O ambientalista Marcos Sorrentino ressalta a importância dos sistemas agroflorestais e da iniciativa do Sepé Tiaraju. Coordenador do Laboratório de Educação e Política Ambiental da Esalq e docente de diversos alunos que participam da iniciativa, ele explica que em uma agrofloresta existem formas distintas de associação que garantem a saúde da plantação e do solo por meio da diversidade.

A partir da produção agroecológica fruto desses sistemas, os seres humanos também são beneficiados por consumirem produtos sem agrotóxicos.

“O sistema agroflorestal é a expressão desse complexo de alimentos que levam ao questionamento dos sistemas tradicionais e a busca de sistema de produção mais adequada com outra perspectiva de natureza, de ser humano, de sociedade e tecnologia”, diz Sorrentino. 

Tendo como exemplo a produção do Assentamento Sepé Tiaraju, batizado em homenagem ao guerreiro indígena, o professor sênior analisa que a busca por outras alternativas ao modo de produção hegemônico deve crescer ainda mais.

“Só há futuro se houver agroecologia e agrofloresta. Se fugirmos dessa alternativa e persistimos no caminho da monocultura simplificadora da diversidade, não teremos futuro em médio e longo prazo”, reforça, acrescentando que o retorno econômico dos assentados com as agroflorestas é superior dos valores geralmente oferecidos pelas monoculturas.


No assentamento, troca de experiências entre o campo e a cidade são constantes / Assentamento Sepé Tiaraju

Nas lembranças de Tomás Ramos, que já visitou o assentamento diversas vezes, está a imagem da agrofloresta em grande contraste com os chamados “deserto verdes” da região. 

“São plantações da mesma altura, tudo padronizado para maquinário, pouquíssimos trabalhadores... não se vê vida. Chegando no Sepé Tiaraju, se vê vida pulsando ali. Bichos, cheiro, barulho. A agrofloresta é a capacidade de trazer a vida de volta”, diz Tomás.  

A afirmação é inspirada em um aprendizado que o estudante recebeu de um dos “mestres agroflorestores lá do Sepé”, como Tomás se refere ao agricultor Agnaldo Lima. 

Ele relembra que, em determinada vez, disseram que o sistema agroflorestal de Lima era confuso por cultivar árvores, gramas, milho, cipó, mandioca, e outras espécies, todas juntas. A resposta, simples e significativa, marcou o estudante. “Ele falou que aquilo era a bagunça que dá vida a terra. Agrofloresta é isso. Essa junção de vários elementos que tem que estar em sintonia e harmonia, ecologicamente convivendo, que dão vida à todo esse sistema do planeta”.  

Edição: Lucas Weber