Agroecologia desafia agronegócio em Sergipe com colheita de 150 toneladas de arroz

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Com apenas 17 hectares de terra, famílias comemoram rendimento do arroz agroecológico superior à média estadual obtida pelo agronegócio - MPA/SE
transição para o plantio agroecológico é uma ponta de esperança para os camponeses da região

A região sergipana do Baixo São Francisco é tradicionalmente uma área produtora de arroz nos moldes convencionais, com uso intensivo dos agrotóxicos e fertilizantes químicos. O local representa mais de 80% de toda a produção estadual. 

Entretanto, no meio do agronegócio da rizicultura, camponesas e camponeses do MPA, o Movimento dos Pequenos Agricultores aceitaram um desafio ao sistema. Um grupo de 13 famílias semeou 17 hectares e colheu 150 toneladas, obtendo uma média de rendimento do arroz agroecológico superior à média estadual do produto obtido pelo agronegócio. 

Essa transição, do plantio convencional para o agroecológico, é uma ponta de esperança para os camponeses e para o meio ambiente na região, já que garantem um alimento livre de transgênicos e agrotóxicos, respeitando a biodiversidade local. 

As famílias envolvidas no projeto comemoraram os resultados do plantio durante a festa da “Colheita do Arroz”, na comunidade Betume, em Ilha das Flores. O evento teve início no último dia 14 e reuniu mais de 500 pessoas, com a presença de rizicultores, sindicatos, movimentos sociais e agentes públicos municipais e do estado. 


Arroz agulhinha agroecológico produzido no Baixo São Francisco / MPA BRASIL

Em entrevista ao Brasil de Fato, a agricultora Elielma Barros, integrante da direção do MPA em Sergipe, contou que o projeto começou há quatro anos e foi um desafio para todos. Um deles, segundo ela, foi concorrer com os  empresários que financiam a rizicultura na região, que usam o modelo tecnológico baseado no agronegócio, gerando uma dependência por parte do agricultor local. Elielma ressalta que as 150 toneladas de arroz agroecológico, produzidas entre 2019 e 2020, fazem um contraponto à forma como os produtores convencionais produzem e distribuem o arroz.

“Foi um desafio. Existe um uso muito grande de agrotóxicos aqui na região, e além disso a rizicultura convencional tem pouca autonomia, porque é levado para outras regiões e vendida por atravessadores. O arroz que fica na região não é suficiente para o consumo, porque a estrutura comercial daqui não possibilita a venda pelos próprios agricultores. E com esse cenário o movimento dos pequenos agricultores começa a dizer que é possível, a partir da agroecologia, produzir alimento saudável na região” explica.

Para Barros, a Festa da Colheita vai além da comemoração dos resultados, mas serve como uma forma de mostrar ao Poder Público o potencial dos agricultores familiares. “[Nosso objetivo] é pautar os governos estadual e municipal sobre a necessidade de de investimentos. Já é uma decisão política do movimento [MPA] fortalecer o trabalho da agroecologia, mas para isso precisamos de políticas públicas de apoio que possam fortalecer a agroecologia na região”, destaca. 


Intercâmbio entre MPA-SE e Cáritas resultou no projeto Dom Távora / MPA BRASIL

Os agricultores mencionados por Elielma Barros são das comunidades de Soldeiro, em Neópolis; Ponta de Areia, em Pacatuba; e Serrão e Bongue, em Ilha das Flores, todas na região do Baixo São Francisco. 

A dirigente do MPA lembra que, além de árduo, o projeto levou tempo para se tornar viável. As experiências de cultivo começaram em 2016 com a parceria entre o MPA, a Cáritas Diocesana de Propriá e o Projeto Dom Távora/Seagri/Fida, união que permitiu o financiamento de parte da produção. 

Tendência 

O projeto do MPA com o arroz em Sergipe é um exemplo que deve servir para produtores de todo o país. A opinião é de Marcos Sorrentino, professor Sênior da Universidade de São Paulo,  que atua no acompanhamento de trabalhos de agroecologia na ESALQ, a Escola de Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, que funciona na USP de Piracicaba, no interior paulista.  

Entrevistado pelo Brasil de Fato, ele destacou a agroecologia familiar como uma tendência que vem ganhando cada vez mais força no Brasil, principalmente com o apoio de assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

 “Ainda com muitas dificuldades, típicas do sistema econômico, que dá preferência à monocultura, concentradora de renda e capital, cada vez mais a gente vê pequenos agricultores e assentamentos de reforma agrária buscando se implantar como assentamentos agroecológicos. Os assentamentos no sul da Bahia, por exemplo, vão nessa direção, assim como outros no Brasil que também podem ser listados”, avalia. 

De acordo com Sorrentino, o modelo tradicional do agronegócio falhou. “A ilusão que foi vendida, para as sociedades humanas de que se resolveria os problemas de fome do mundo e de que seria uma alimentação saudável e segura não se realizou”, afirma. O professor explica que isso gerou “uma frustração com a monocultura fomentada pelo modo hegemônico de produção, que agora leva as pessoas a buscarem alternativas”, ressalta. 

Diante dessa lógica, o especialista em agroecologia entende que o caso sergipano de alternativa ao modelo insustentável do agronegócio aponta para um caminho sem volta. O modelo de produção agroecológica desenvolvida pelas 13 famílias camponesas do baixo São Francisco - que resultou na colheita de 150 toneladas de arroz - além de ter uma produtividade maior que o convencional, reduziu o uso de agrotóxicos em mais de 90% na lavoura. 

Segundo o MPA-SE, os outros 10% não se referem a venenos, mas a defensivos orgânicos, como o extrato da castanha com álcool e óleo de nim

*Do BDF Pernambuco, com reportagem de Vanessa Gonzaga e colaboração de Douglas Matos.

 

Edição: Douglas Matos