8 DE MARÇO

Tânia Farias: "O sistema nos impõe um projeto de não felicidade, de não corpo"

Em entrevista, a atriz tratou da importância da arte na descolonização dos corpos e das mentes contra o conservadorismo

Brasil de Fato | Porto Alegre |
Tânia Farias integra a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, principal grupo de teatro de Porto Alegre, há mais de duas décadas - Fabiana Reinholz

Uma artista em desconstrução, essa é uma definição bem aplicada quando se trata da atriz/atuadora Tânia Farias, 45 anos, que há mais de duas décadas integra a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, principal grupo de teatro de Porto Alegre e de toda a região Sul. Seja dando vida a Kassandra, Medéia, Sophia, Ofélia, Sasportas ou Violeta Parra, ela desmonta, despe, se entrega, em um corpo que dança, canta.

Nascida na periferia de Porto Alegre, de uma família pobre, ainda criança ensinava outras crianças, e nas horas do conto, inconscientemente atuava. Estava ali já marcada a sua sina, ser atuadora e professora. Abraçando a atuação e o ativismo, a filha mais nova entre onze irmãos, leva para os palcos, ruas, histórias que mesclam suas experiências, e de todas as mulheres, das violações e agressões sofridas.

“Por que essa coisa permissiva em relação ao corpo da mulher o tempo inteiro? Isso está na nossa existência, toda hora eu tenho que dizer: Olha eu não sou uma vítima especial, eu não sou a maior vítima da paróquia, não, eu só sou mais uma, porque enquanto estamos aqui conversando, tem mulher sendo violentada, não é brincadeira, não é da boca para fora... Isso acontece toda hora com mulheres, e somos mortas, é algo corriqueiro no nosso país”, desabafa.

Durante uma hora, Tânia conversou com as jornalistas do Brasil de Fato RS, sobre o processo de construção, a importância da existência da Terreira da Tribo, um espaço como ela descreve de arte, descolonização corporal e mental, e que convida a construção de um outro pensamento, livre e libertário, e que no atual momento corre risco de ter suas atividades encerradas. Para driblar e manter suas atividades convidam a comunidade para se somar na luta pela sua existência.

Nesse especial sobre o Dia Internacional da Mulher, entre sorrisos, suspiros e lágrimas, Tânia faz uma análise do atual momento. “É um projeto de não felicidade, por isso um projeto de não corpo. A única forma de dominar esse corpo é dizer não, não é seu, não é bom, é pecado, não é festa. Quando eu digo que é um projeto de não corpo, um projeto de eliminação do corpo, um projeto de ausência de liberdade para esse corpo. Assim nós somos dominados, e nós estamos tão ordeiros, com tudo que já aconteceu, com todos os avanços”.

Brasil de Fato RS: Estamos fazendo uma série de entrevistas com mulheres de diversas áreas, e pensamos em abordar contigo essa questão da desconstrução da artista...

Tânia Farias: Tenho um trabalho solo chamado Desmontagem, onde pego quatro personagens da minha trajetória na Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, cujo o fio entre eles é a questão de gênero, que acompanha a história da Tribo. Tem algumas personagens bem emblemáticas do Ói Nóis que vou desmontando. Não é um espetáculo de teatro, mas vou mostrando fragmentos das personagens, desmembrando e contando de onde vem esse detalhe de criação, essa posição do corpo. Daqui a pouco estou relacionando com a história do grupo, do país, da cidade, da minha vida pessoal. O fio condutor das personagens que fez com que fossem escolhidas para a desmontagem é, na verdade, o foco central dessa discussão, de uma mulher artista que vai se despedir diante das pessoas para tratar as questões que tem a ver com o universo de ser mulher.


Tânia em Desmontagem / Foto: Ói Nóis Aqui Traveiz

Os personagens são: Sophia, de um texto do escritor chileno Ariel Dorfman, espetáculo que fizemos na ilha do presídio. Sophia é uma mulher latino-americana que teve os dois filhos, o pai, e o marido desaparecidos pela ditadura.

Kassandra, personagem baseada na novela da Christa Wolf. Na verdade, é a Kassandra mítica, que sabia o que ia acontecer no futuro. A Christa fez um grande estudo sobre a Kassandra e depois sobre a Medeia, que vai dar origem a outro espetáculo do Ói Nois. Ela pega essa questão de ver o que vai acontecer e que está ligado a uma sabedoria que a mulher também tem, e que, durante muito tempo foi algo do tipo: não, o que a mulher tem a dizer não interessa, de desautorizar sistematicamente o que a mulher tem a dizer. Daí vem um homem e diz a mesma coisa que a mulher, e ele tem razão. Ela traz um pouco isso, e o fato de Kassandra ter denunciado a guerra de Tróia o tempo inteiro. Ela sabia que era mentirosa a estratégia, que a beleza não era o motivo da guerra de Tróia.

Sasportas, que na verdade seria um negro, da Missão, texto Heiner Müller, que é a ideia de que revolucionários franceses vão fomentar uma revolta de escravos na Jamaica. Nós, na Tribo, na hora de fazer, não tínhamos atores negros, nem atrizes negras, e resolvemos colocar as mulheres para fazer esse corpo e essa personagem. Fundimos as duas questões. Eu fazia o Sasportas. Partimos da questão da mulher como o negro do mundo.

A última, Ofélia, também baseado no texto de Heiner Müller. Para Heiner, Ofélia é a voz da margem, das ilhas de desordem, de que se alguma revolução ainda está possível de acontecer é quando as margens entenderem que elas não têm nada a perder, e que não viria do intelectual e do artista da classe média, que tem tantos apartamentos, empregos a perder, sempre terá alguma forma se proteger. Mas que quando a periferia entendesse que não há mais nada o que perder, porque já perdeu todas as coisas, nós faríamos de verdade a revolução. Estaria na voz da mulher essa ideia, mulher como periferia do mundo que é a personagem que termina a desmontagem e que está completamente relacionada a minha experiência de violência sexual, termina com essa personagem, com esse relato de um estupro coletivo que um pouco antes de fazer essa personagem eu tinha vivenciado.

A desmontagem acaba sendo o meu primeiro trabalho solo na Tribo, que é de uma mulher, e que é de alguma maneira falar das questões que nos afetam cotidianamente. Faço desde 2013, e tenho feito cada vez mais, tenho viajado com ela e tem sido importante fazê-la.

BdFRS: Dentro dessa questão de entremear a tua vida pessoal, quem é Tânia Farias? De onde vem? Como se deu a relação com o teatro, com o Ói Nóis.

Tânia: Sou de uma família pobre, da periferia aqui de Porto Alegre, a minha mãe teve 11 filhos, eu sou a décima primeira, a mais nova. Somos seis homens e cinco mulheres. Por enquanto sou a única que enveredou para as artes, para o teatro. Muito cedo eu me percebi gostando muito dessa brincadeira de representar, de ter que lidar com as tarefas domésticas que ficavam para as meninas e não para os meninos. Eu acabava inventando brincadeiras, que depois descobri que eram exercícios teatrais aquilo que eu ficava fazendo com as pessoas.

E me entendi professora muito cedo, uma coisa que sempre me deu prazer. Conforme eu ia aprendendo, eu queria ensinar, ajudar o outro a compreender aquilo que eu tinha compreendido. Quando eu estava na quinta série primária comecei a dar aula. Minha professora da 4ª série, que era uma mulher incrível, me estimulou muita a dar aula na escola, aula do conto como ela chamava. Escolhia o livro que quisesse na biblioteca e contava as histórias para as crianças, eu que também era uma criança, contando para outras crianças como eu. Eu fazia essa atividade para as turmas de repetentes, tinha turmas que tinha pessoas mais velhas e maiores que eu. Era uma escola no pé do Morro da Cruz, uma escola bem pobre. Fui para o morro quanto tinha um ano e meio.

Quando eu encontro o teatro, no final do primeiro grau, início do segundo, percebi que essas coisas tinham muito a ver comigo, isso de compartilhar aquilo que descobria, que tinha a ver com a atividade de professora e o exercício do teatro, porque desde que eu fiz as primeiras oficinas eu não consegui mais parar de fazer. Minha atitude era toda caminhar para essa direção, sem pensar no que estava deixando para trás, fui indo atrás dessa formação, e por ser também uma pessoa pobre eu só fiz teatro porque encontrei o Ói Nóis, que sempre desenvolveu oficinas abertas e gratuitas. Ainda era na José do Patrocínio.

Muito da minha politização veio da relação com o Ói Nóis, da relação com esse lugar, que é um espaço de teatro de formação muito forte, mas também de uma formação cidadã. Essa ideia que o Ói Nóis traz para o atuador, para a atuadora, é meu lugar de formação, essa ideia do artista e ativista político abraçados, porque isso seria a síntese do atuador, da atuadora. Fui me politizando nesse contato e também fui compreendendo que tinham questões específicas que eu podia tratar no teatro. E o Ói Nóis é um grupo sempre muito atento, tanto que se pegarmos a questão de gênero, inúmeras vezes a mulher esteve no primeiro plano.


Ói Nóis Aqui Traveiz faz teatro de resistência nas ruas / Foto: Pedro Isaias Lucas

Eu gosto de dizer que eu sou uma pessoa que teve muita sorte, porque mesmo, fora as minhas experiências, essas experiências que muitas de nós tivemos, de violência sexual, de relações abusivas, eu convivi e convivo com pessoas que estão do lado certo da história. Fui companheira do Paulo Flores durante 20 anos, é o homem mais feminista que conheço, um grande revolucionário, uma pessoa inspiradora. Não só não cerceou a liberdade para as mulheres aqui, como ao contrário, estimulou que descobríssemos, faça o que você quer, diga o que você precisa. E nos sentimos, portanto, muito livres para fazer tudo, já que é um trabalho autogestionário. Isso é um convite para a autonomia. “Se eu quero dizer isso preciso construir os meios”. Então sempre tivemos liberdade para isso. Por isso que falo que sou muito privilegiada nesse aspecto, mesmo que eu tenha tido uma trajetória com pedras a saltar, tive contato com pessoas valorosas.

BdFRS: Gostaria que nos contasse mais do teu envolvimento com o trabalho da Terreira da Tribo...

Tânia: Pessoalmente pude me desenvolver em várias áreas ligadas ao teatro. A Tânia é atriz, produtora, cenógrafa, figurinista. Ela é do conselho editorial do Cavalo Louco, uma das revistas de teatro mais importantes do país, com uma publicação semestral que, claro, como tudo nesse país, está absolutamente ameaçada. Não sabemos mais quantos números serão possíveis fazer, assim como não sabemos mais se conseguimos manter a Terreira da Tribo aberta, e isso é uma coisa grave, séria. Que não é grave e séria só para o Ói Nóis, uma vez que entendemos que um espaço como a Terreira é fundamental para uma cidade, ainda mais em um momento como agora. São como pulmões mesmo, um lugar para respirar, para imaginar.

Eu gosto de dizer que se a gente conseguir não deixar de imaginar, eles não vencem, porque enquanto a gente puder imaginar outro mundo possível, eles não vencerão. Precisamos desses lugares que nos convidam a fazer o exercício de imaginação social. Dizer não, chegamos aqui, que merda que chegamos aqui, que demos tantos passos atrás, mas a roda gira e continuamos imaginando para construirmos um outro mundo possível, solidário, mais justo e igualitário como queremos.


"Se a gente conseguir não deixar de imaginar, eles não vencem" / Foto: Fabiana Reinholz

Por isso digo que é fundamental que espaços como o Terreira estejam abertos. É um compromisso da cidade, porque a cidade são as pessoas, então é um compromisso nosso como cidadãs e cidadãos da cidade, de manter um espaço como esse aberto, um espaço de arte, de descolonização corporal e mental, um espaço que nos convida a construção de um outro pensamento, fora desse pensamento hegemônico e único, que é um pensamento livre e libertário.

Temos alguns projetos fundamentais que acontecem aqui, que eu também estou envolvida. Além da Cavalo Louco, tem a Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo, uma instância de formação, que oferece diversas oficinas abertas gratuitas na cidade há vários anos, há pelo menos 15 anos nesse lugar. A Terreira completa 35 anos, faz 25 que estou no Ói Nóis. Ela completa 35 anos como uma escola de teatro, que oferece oficinas para formação de atores, oficina de um ano e meio de duração.

Tem a oficina de teatro livre, que começa e termina a cada encontro, para pessoas com mais de 15 anos. A oficina de teatro de rua que agora está começando uma turma nova em março, que terá a duração de seis meses e que vai gerar uma série de experiências para teatro de rua até o trabalho final, que é uma pequena encenação com essas pessoas para elas experimentarem esse lugar da rua, além de fazer um estudo sobre teatro de rua no Brasil ao longo de seis meses. Nesse momento até o final de abril está acontecendo a oficina de teatro ritual. Todas essas oficinas são oferecidas abertas e gratuitamente.

Além de ser o ventre gerador de todos os espetáculos da Tribo, temos um acervo da memória do teatro gaúcho que mantemos com muita dificuldade. E uma biblioteca, um espaço aberto acessível para todas as pessoas com uma quantidade considerável de livros sobre teatro e outros assuntos.

Desenvolvemos um projeto pedagógico, que também faço parte e oriento que é o teatro como instrumento de discussão social. Um projeto que oferece oficinas abertas e gratuitas nas periferias, e que procura fomentar a criação de grupos culturais nesses lugares. Acontece desde 1988, e formou vários grupos de teatro, assim como homens e mulheres que entenderam que são cidadãos e que têm, além de deveres, muitos direitos que lhes são negados. Elas puderam se empoderar, instrumentalizaram-se como cidadãos e puderam fazer trabalhos fundamentais nas suas próprias comunidades. Além de sair dali e descobrir um caminho seu, que talvez não fosse o mesmo se esse teatro, como instrumento de discussão, não tivesse atravessado as suas trajetórias, assim como atravessou a minha, e transformou completamente a minha visão de mundo e a perspectiva de ser e de poder ser junto com os outros, essa ideia do coletivo que acredito que é tão revolucionário.

Ele está sendo desenvolvido na Restinga, no Humaitá, em Canoas, no Sarandi e aqui no São Geraldo. São oficinas permanentes que acontecem uma ou duas vezes por semana, nessas comunidades junto a centros comunitários, ou espaços geridos pela comunidade.

BdFRS: Como vocês estão bancando tudo isso?

Tânia: Vivemos um momento muito difícil e de incertezas absurdas. Existindo com os recursos que o grupo conseguiu juntar ao longo dos últimos anos, fazendo aquelas estratégias todas, aprova um projeto, coloca uma parte da grana ali. O trabalho no Ói Nóis também é bastante militante. Temos momentos com recursos para as pessoas, têm momentos que não. As pessoas têm outras atividades para sobreviver e para fazer o teatro que querem. Há momentos que conseguimos ter salários, outros não. Nos últimos anos conseguimos guardar um pequeno provimento, com a ausência de editais e possibilidades de angariar fontes de sustento para desenvolver os projetos do grupo, vimos esses recursos acabando e corremos o risco de fechar a Terreira. É verdadeiro dizer que a Terreira está com os dias contados se não conseguirmos reverter essa situação.

Começamos uma campanha de financiamento recorrente pela benfeitoria.com. Quem quiser apoiar a Terreira mensalmente, pode ser com qualquer valor. Agora vamos lançar a campanha dos R$ 10, tipo você pode doar uma cerveja por mês. E se muitas pessoas doassem R$ 10 talvez conseguíssemos nos manter, porque atualmente pagamos dois espaços, a Terreira e um galpão que guarda uma parte do acervo da Tribo, que é uma parte do teatro brasileiro.

Vimos resistindo para guardar esses 42 anos de cenários, de figurinos, de elementos. É um custo muito grande para nós, temos feito essa campanha para ajudar no pagamento do aluguel. A arrecadação ainda é muito pequena, precisamos dar um up, precisa que mais pessoas saibam, queiram estar juntas, queiram ser atuadoras associadas, que também possam divulgar a campanha e ajudar a conseguir novos apoiadores. Nesse momento estamos assim, sem perspectivas de recursos e tendo o nosso pouco fundo financeiro acabando.

O Ói Nóis é mais um desses que estão correndo risco de acabar nesse Brasil bolsonarista, de perseguição a todas as minorias/maiorias, e a nós artistas que voltamos anos atrás, que, agora, somos tratados como antes eram tratados os que não deveriam ser tratados, com preconceito, como era tratada a prostituição. Durante muito tempo os artistas tiveram o mesmo status do/a trabalhador/a sexual. E agora voltamos para essa condição, voltamos ao lugar de proscritos, do que o que nós fazemos não é bem-vindo, somos meros “mamadores de teta”, não sei de onde sai essa loucura.


"O Ói Nóis é mais um desses que estão correndo risco de acabar nesse Brasil bolsonarista" / Foto: Fabiana Reinholz

Se tem uma coisa que a maior parte dos artistas desse país não acessou foi a Lei Rouanet, que sempre foi uma lei que atingiu muito mais as grandes produções, os artistas ligados à TV e outras coisas. Poucas vezes nós tivemos acesso, como, por exemplo, editais da Petrobras que por ser uma empresa com grande percentual estatal, tinha uma ação política de responsabilidade diante da produção dos artistas, era uma das poucas que mantinham editais públicos abertos, geridos de forma republicana e que qualquer artista poderia, mesmo sem apelo comercial, ser contemplado. O Ói Nóis durante um curto tempo aprovou alguns projetos, e que foram fundamentais para a existência e para o aprofundamento do seu trabalho. Vemos que hoje não vamos ter mais nada disso, porque ser artista não é uma coisa bem vista pelos poderes. E estamos há muito tempo nesse lugar, do estado e município que não tem ação propositiva nenhuma na nossa área, e tantas outras fundamentais. Há um desmanche total e os artistas estão dentro como vários outros segmentos.

BdFRS: E como ficou a questão do terreno lá da João Alfredo, na Cidade Baixa?

Tânia: Aquilo é fruto de uma batalha tão grande de tantos anos que é muito difícil crer que estamos correndo risco de liquidar a possibilidade de construir ali a Terreira. Conquistamos aquele terreno, com muito tempo de luta, não é uma coisa que “ah resolveram dar”. É mérito do trabalho do grupo. Mas é claro que não se constrói com nada, tínhamos conseguido, via emendas parlamentares, o recurso que construiria quase todo o espaço. Todo o processo de falta de vontade política fez com que aquele primeiro projeto tivesse mil problemas que não foram supervisionados pela administração pública naquele momento, portanto não foi possível construir. E depois, quando a prefeitura refaz o projeto, fica muito mais caro, e naquele momento a prefeitura teoricamente assume a responsabilidade por garantir os recursos que faltavam. Quando há o golpe em 2016, o recurso que se tinha conquistado via emendas parlamentares não vai continuar sendo usado, porque, ainda na época do golpe, do desgoverno Temer, tivemos os recursos cortados. O convênio entre prefeitura e ministério desfeito. Seria preciso que a prefeitura de Porto Alegre assumisse, e ela não assumiu no ponto de vista financeiro e até agora nada aconteceu.

Vivemos um grande impasse, o terreno foi cedido por comodato para a Terreira. Só que no momento que começa o convênio, teoricamente, deixaria de ser. Temos a intimação do DMLU para que nós façamos a limpeza do terreno. Eu limparia o terreno, me deem condições de estar no terreno e a prefeitura não terá mais que se preocupar com ele. Garantam minimamente alguma coisa para que possamos dizer, vamos ser parceiros, garantam algo e estaremos lá. Seria fundamental a Terreira voltar para a Cidade Baixa, e fundamental esse reconhecimento de que a Terreira é um patrimônio cultural da cidade, que faz arte pública e que precisa de um espaço público para acontecer. Espero que isso aconteça, devemos afirmar que isso é uma coisa necessária e que deve acontecer, se não nesse governo, no próximo que vai assumir, é um compromisso com a cidade, mais do que um compromisso conosco.

BdFRS: E curioso que o Ói Nóis nasce ainda na ditadura (1978), e vemos atualmente mais uma vez a ameaça à democracia, com um presidente convocando ato contra o Congresso, um governo antissistêmico às avessas...

Tânia: Quem dera fosse um antissistêmico que questionasse o sistema tal qual ele é, o status quo, essa coisa que vem nos asfixiando há tantos anos, séculos. Só que não é disso que se trata. Ele é a favor de um sistema autoritário e conservador.

Nesse momento temos que defender a democracia diante desse governo, porque ele é antidemocrático. E isso independe de nossos projetos pessoais de sociedade, temos agora que defender o Estado, defender a democracia, porque é isso que nós tivemos e é isso que está acabando agora. Não chegaremos a nenhum outro lugar se não mantivermos isso.

Estamos vivendo um processo de desmanche, de cerceamento da liberdade, de autorização da violência. Está autorizada a violência contra a mulher, contra as populações negras, contra os LGBTs, contra os descendentes originários. Há uma autorização a todas as minorias que são a maioria desse país. Vimos um processo de criminalização dos movimentos sociais, ser movimento social criminoso, ser artista é criminoso, ser pobre é ser criminoso. É grave o que estamos vivendo. Não dá mais para existir alheio a isso, então nossa ação é todos os dias estar em luta. A cada duas horas perdemos uma mulher.


"Independe de nossos projetos pessoais de sociedade, temos agora que defender o Estado, defender a democracia" / Foto: Fabiana Reinholz

BdFRS: Justamente isso que íamos te perguntar, e nós mulheres nisso. Temos o ministério da Damares com uma visão baseada nos “bons costumes”, e que pesquisas apontam como a ministra mais popular do governo Bolsonaro.

Tânia: O que dizer? Temos um retrocesso de direitos e de conquistas, um avanço da violência, a nossa liberdade de ir e vir está cada dia menor. Precisamos fazer alguma coisa em relação a isso. Nossa geração sempre viveu com essa coisa, não devia estar lá, era tarde, aí com essa roupa, que não sei o quê, não foi sempre assim? Pois agora está todo mundo autorizado a nos dizer essa porra: “mas onde tu estavas?”. Essa amiga que foi assassinada no Paraná, a Maria Glória (Magó), bailarina, a primeira coisa que se referiram, “mas também estava sozinha na cachoeira”, ela estava sozinha, sim. Por que nós não podemos ir nas cachoeiras? Não podemos sair à noite? Mas também se somos violentadas a uma da tarde é porque demos algum motivo, porque sempre a culpa vai ser nossa. Porque se já era terrível, agora está 10 vezes mais terrível!

O que mais me abala é a nossa quietude, estamos muito quietos, calados, manados. Agora, mais do que nunca não poderíamos ser manados, mais do nunca precisávamos da potência que temos. Somos muito potentes, e se eu não acreditasse nisso não faria teatro. A coisa que mais me emociona, e gosto de dizer isso, quando estou em uma sala de trabalho, e estamos lá movendo esse corpo potente, descolonizando esse corpo, fazendo ele se sentir livre, liberto, forte, se tivéssemos consciência dessa força eles não venceriam nunca. Quando eu penso nesse lugar eu vejo que privilégio é estar ali. Eu me emociono, eu dou aula e me emociono, fico em lágrimas, é lindo demais, é uma potência, uma força, isso não é nada, isso é muito, se tivéssemos essa consciência e essa liberdade que não temos, é um corpo cerceado, um corpo agrilhoado, é uma sexualidade decepada, todas essas coisas fazem parte de um único projeto, que sejamos cordeiros, que nunca nos sintamos felizes.

É na verdade um projeto de não felicidade, por isso um projeto de não corpo. A única forma de dominar esse corpo é dizer não, não é seu, não é bom, é pecado, não é festa. Quando eu digo que é um projeto de não corpo, é um projeto de eliminação do corpo, um projeto de ausência de liberdade para esse corpo. Assim nós somos dominados, e nós estamos tão ordeiros, com tudo que já aconteceu, com todos os avanços. Temos que entender e falar, não! Nós avançamos demais, não vai se voltar para o armário, não vai se voltar para a cozinha, para a senzala, não vai se voltar para lugar nenhum. Mas precisamos entender de verdade isso, entender com tudo que somos. Conseguimos entender intelectualmente, mas a nossa atitude ainda é estar sentado na frente do computador achando que vamos fazer a revolução pelas redes sociais.

Nosso corpo não está para jogo, e tem que estar, tem que estar livre. Não é à toa que uma Damares é popular, porque ela está dizendo assim, está bom, quantas pessoas estão nessa condição? Muitas. Então precisa dizer que está tudo bem com elas, é um discurso conformador, então está tudo bem comigo, é assim que tem que ser, eu nunca sou muito. Por isso assustamos, mas assusta porque é feliz, porque é livre, porque diz não, não. Sempre vamos ser taxadas como loucas, nós mulheres somos sempre as loucas, desequilibradas, desorientadas, as bruxas que têm que ser queimadas. Precisamos não calar mais a boca, precisamos dançar. A metáfora para mim é a dança, não parar de dançar significa não, meu corpo não vai encaixotar de novo, eu já entendi que eu posso sentir prazer, que eu posso ser livre, dançar, ir e vir.

Eu penso que o aumento da violência é estratégico, quanto mais medo se sente mais parado se fica. É uma loucura, precisamos nos sentir acolhidos, estar sempre juntos para entender que não estamos mais sozinhos, porque eles nos querem deprimidos.


"Eu penso que o aumento da violência é estratégico, quanto mais medo se sente mais parado se fica" / Foto: Fabiana Reinholz

BdFRS: E esse processo de tu levares essas temáticas, da violência contra as mulheres, a tua própria experiência que mencionastes, como se dá esse trabalho de levar aos palcos e tentar abrir as mentes, tem como explicar?

Tânia: Não sei se explica, mas a sensação que eu tenho é clara. Por exemplo, quando eu faço a demontagem, quando eu conto os meus segredos, não sei quantas mulheres assistiram, mas sei quantas apresentações, desde 2013, talvez tenha feito mais de 200 e somente em seis as mulheres não me contaram seus segredos de violação. Elas se sentiram autorizadas e à vontade para me contar os seus segredos. Existe algo que acontece aí que é uma coisa meio inexplicável, de fazer entender a força que isso tem sobre a minha existência, não estou mais sozinha, não estamos. Quando conseguimos nos olhar, olhar para outro e dizer, tem muita coisa que tu vive e que eu vivo todo dia, se reconhecendo uma na outra, ao invés de ficarmos nos matando, competindo, se agredindo. Temos que saber que existe um lugar que é nosso, que é diferente.

Quando eu faço a desmontagem eu sempre falo, não sei se já contei aqui, mas ser mulher não é igual a ser homem, porque é importante que se entenda, não é mesmo. Estamos dizendo coisas coerentes, lógicas, óbvias às vezes, e ficamos sendo desautorizadas, vem um homem e para do teu lado e diz a mesma coisa que tu disse, e aquele cara que não queria te ouvir, sai dizendo claro, é isso aí, vou lá fazer. Isso acontece conosco toda hora, temos que ouvir piadinhas sobre nosso corpo, como se as pessoas estivessem autorizadas a dizer que estão afim de fazer o que quiser com a nossa bunda, peito, como se isso fosse uma coisa agradável para nós, como se aumentasse nossa autoestima, quando na verdade nos tira a sensação de liberdade. Por que essa coisa permissiva em relação ao corpo da mulher o tempo inteiro? Isso está na nossa existência, toda hora eu tenho que dizer: Olha eu não sou uma vítima especial, eu não sou a maior vítima da paróquia, não, eu só sou mais uma, porque enquanto estamos aqui conversando, tem uma mulher sendo violentada, não é brincadeira, não é da boca para fora, não são homens que estão sendo, não estou dizendo que homens não sejam, acontece, mas isso acontece toda hora com mulheres, e somos mortas, é algo corriqueiro no nosso país.

Então quando nos encontramos, quando nos damos conta, quando nos politizamos em relação a isso, existe sim uma força aqui que tu és embuída. Eu ando diferente na rua desde que eu comecei a entender isso, desde que eu comecei a fazer a desmontagem eu sou outra pessoa, cada vez que conto esse segredo eu não sou a mesma.

E o processo da desmontagem foi um processo de desmonte meu, de muitas coisas que eu trazia. Mesmo que a gente diga, não, eu não sou culpada, não, demoramos muito tempo para entender isso. E não é mentira, não é falácia que sentimos uma culpa do cacete. E que a culpa também é estratégica e é um instrumento de dominação, e que gera medo, portanto paralisia. Deixamos de estar bem conosco, nos sentimos responsáveis por tudo, as vítimas são as responsáveis e passam carregando essa culpa. E essa culpa é a bola de ferro atada no pé, nos torna prisioneiras, a culpa, o medo.

E não é fácil deixar de sentir isso, não é fácil associar com outras mulheres, não é fácil compreender que nosso lugar é outro. É um processo de construção bem doloroso e complexo, difícil de explicar em palavras, mas tu começas a conhecer muitas outras vozes, começa a ler outras mulheres, começa a entender que é importante tu falar. A desmontagem tem a ver com esse entendimento, tem uma história que é minha, que eu mesma preciso contar, porque ao contar eu estímulo outras companheiras a contar sua história, cada um precisa contar a sua história, porque esse recontar por outras, por outras vozes acaba sendo um modificar, um colocar o foco onde não é, quem sabe onde aperta o calo é quem tem o calo.

É um processo difícil, mas traz tantas coisas fundamentais que depois da pedreira que foi, eu vou fazer, construir isso, sem horário para ensaiar, fazer de madrugada porque tem muitas outras coisas que são prioridade, e quando estou fazendo isso consigo perceber que está dialogando, é um processo de desvelamento e análise da realidade que tu mesma vive, é um processo libertário, é um outro lugar onde tu vai te colocar.

É um processo terapêutico, mas não só nesse sentido de cura, é de cura com certeza, do corpo, do feminino, mas ele é de politização, eu não vou mais abrir mão desse lugar que eu tenho para ocupar no mundo. Tenho que dizer, eu penso, eu produzo pensamento o tempo inteiro, então eu posso falar.

E mesmo a história do teatro, que é uma história contada pelos homens, pelos diretores, pelos dramaturgos, e as atrizes que fazem parte da história do teatro, sabemos que foram mulheres maravilhosas, que foram atrizes incríveis, mas não sabemos o que pensavam, e elas pensavam, e eu penso. E entendi que eu precisava falar, e eu precisava falar na primeira pessoa, contar minhas histórias. E falando em primeira pessoa eu também falava do Ói Nóis, falava sobre o meu coletivo, de onde eu vim e também das outras mulheres.

A desmontagem é o que eu quis falar sobre os meus processos com esses fragmentos de personagens, que são das peças que têm autores e autoras, com concepção e atuação minha. Percebo que é desfazer o papel que nos impuseram, protagonizar a minha vida na sociedade, podemos ser protagônicas. Isso tem um peso muito positivo nas nossas existências, porque queremos que entendamos e façamos, não precisa ser sombra de ninguém.

BdFRS: E de certa forma o que tu estás dizendo é meio como, tu desmontastes o teu destino que era o destino da menina que nasceu na periferia e que construiu uma outra vida...

Tânia: Essa ideia da desconstrução é bem importante para nós mulheres, porque nascemos com um papel estabelecido para cumprirmos no mundo, na sociedade, já temos um papel que é ser mãe, responsável pela harmonia do lar, do lugar onde vivem as pessoas da sua família e ponto. E se você conseguir fazer alguma coisa além disso, que bom, mas se não conseguir você já cumpriu seu papel, ninguém espera mais do que isso. Ao longo de anos e anos se ouviu e viu isso, as nossas mães, quais foram as realizações profissionais que elas tiveram, elas podem não querer ter, eu concordo, cada um tem que querer, e ser o que quer. Mas não ser o que quer porque não te é permitido é que eu acho a grande sacanagem, que nos impeçam de definir o rumo das coisas. Somos muitas, somos metade do mundo, como é que nós não vamos decidir as coisas, temos que decidir as coisas.

Fui me forjando feminista, mas fui entendendo que há um feminismo que não me interessa, e há um feminismo que me representa. Não acho que vivo em uma bolha, e que vou viver sem os homens. Na minha bolha só tenho mulheres e vai ser tudo ótimo, nós não somos machistas, nós podemos ser bem machistas e sabemos bem disso. Está na criação toda que temos e como funcionam as coisas o tempo inteiro. Podemos nos resignar com esse lugar e reproduzir simplesmente o machismo que recebemos. Mas eu não acho isso, eu quero que a gente transforme, que a gente mude essa realidade, esses valores, essa cultura. Eu quero que a gente mude, não quero eliminar o companheiro, eu quero trazê-lo para o lugar certo.

Eu faço trabalho em um coletivo misto, tem homens, mulheres, mulheres trans. A sociedade que exercitamos internamente, libertária, horizontal, autogestionária, tem todas as pessoas, e a ideia que a sociedade acontece assim. Não quero me sentir em uma bolha querendo eliminar o homem, eu quero transformar esse homem. Eu fico pensando que, com tudo que aconteceu comigo, esse processo de desmontar para construir de novo, eu sou a mulher de teatro que eu queria ser, eu sofri violência, tive relação abusiva com uma mulher, por incrível que pareça, e nada dessas coisas me impediram de ser a mulher que eu queria ser.

Porque eu tive sorte, porque eu tive força, porque eu consegui não me acostumar com a culpa, não me acostumar com a paralisia, com o medo. Que pena, talvez seja um lugar de privilégio meu, por isso que eu tenho obrigação de fazer esse trabalho, porque tem tantas mulheres que não conseguem fazer isso, dar essa volta e gostar de si e do que fazem. Eu posso dizer que gosto muito, gosto muito do que me tornei, não que eu acho que seja boa suficiente, como ser humano temos que estar sempre como aprendiz, na minha profissão, no meu ser amiga, no meu ser amante, no meu ser professora, no meu ser. Eu tenho todos os dias que querer evoluir. Não que eu seja ótima, sou uma loucura, sou explosiva, energética demais, apaixonada demais. Mas quando eu digo que sou a mulher que eu queria ser é no sentido de eu faço coisas que me dizem respeito, não faço coisas que não me interessa, tudo que eu faço me interessa muito. Que pena que a maioria das pessoas não possam fazer coisas que lhes interessam para viver, isso me faz sentir o tempo inteiro no meu lugar de privilégio e querer construir coisas melhores para as pessoas todas.

BdFRS: Tem um trabalho também com música junto com Mário Falcão em que interpreta a Violeta Parra. Queríamos que tu nos falasse um pouco disso também e de outras mulheres que são referências na tua vida.

Tânia: Na verdade tem a identificação, porque somos latino-americanos, esse entendimento que a gente precisa estar mais e mais perto dessa sabedoria, dessa ancestralidade que está na América Latina, e que o Brasil português às vezes se sente distante dos países da América Latina. Sempre desejei e amei os cantantes latino americanos, e a Violeta Parra, assim como Victor Jara, Mercedes Sosa, Athaualpa, enfim, fizeram parte do meu imaginário.

E teve um momento que queria ter um bebê, e eu sabia que fazia peças que exigiam uma intensidade física e espiritual mesmo, fazer essas grandes personagens trágicas, três horas e meia numa peça, que quando acaba parece que tu morreu e aí tu ressuscita muito viva, porque o teatro te faz tocar na morte e voltar com força para construir o mundo. Eu queria fazer uma coisa mais tranquila. Mas imagina né, a Violeta Parra, essa mulher maravilhosa pra caramba, com uma história trágica pra caramba. Só que eu achava que perto das coisas loucas que eu fazia no teatro, Kassandra, Medéia, Sophia, Paulina, todas mulheres guerreiras que foram vilipendiadas, violentadas, que tiveram que lutar horrores, eu pensava que era uma maneira de descansar, de ter o bebê.

Depois descobri que não era fácil para mim ter um bebê, que meu corpo não me permitia assim com essa facilidade. Fiquei com essa coisa da Violeta Parra, o Luciano Alabarse me emprestou 11 discos da Violeta e eu gravei todos, e fomentei essa ideia de fazer o trabalho sobre ela. E então eu conquistei este companheiro, porque ficava naquele ponto, preciso de um músico e daí o Mário apareceu e falei do projeto com ele, e ele disse vamos fazer.

A Violeta é dessas personagens que fazem parte do meu imaginário. E eu sempre gostei muito de cantar e no teatro fui desenvolvendo mais isso porque canto em vários espetáculos, toco instrumentos. Pude experimentar com a Violeta isso de cantar. O Mário fez arranjos lindos, alguns bem brasileiros, é interessante brincar também um pouco com esse material. Comecei a povoar o nosso trabalho com alguns poemas. Por enquanto são músicas e poemas. Tenho consciência de que é um trabalho de música de uma atriz. Sinto que tem uma teatralidade que acaba sendo uma presença cênica que traz isso no trabalho. Mas ainda não sei se esse é o formato. Eu gostaria muito de brincar mais com teatro na Violeta, contar mais coisas sobre a vida dela. Tenho projeto de uma boneca geminada que queria muito fazer, uma conversa entre a Violeta menina, antes de voltar para Santiago, e a Violeta que foi para Santiago, a Violeta mulher, que está na peleia, com consciência. Queria que elas se falassem. Isso é um plano.

Busquei alguns poemas, do Nicanor Parra, Pablo Neruda e a Gioconda Belli, uma poetisa nicaraguense. Comecei a ler muitas poetisas pensando que eu podia então, se eu não ia fazer teatro, trazer mulheres. No final das contas eu peguei dois poemas que falam sobre a Violeta, um desse grande poeta que é o Pablo Neruda que é o primeiro que aparece, falando sobre ela e convidando a cantar, e o último poema é do Nicanor que escreveu para ela, e tem o Portadores de Sonhos, da Gioconda Belli que faz uma ação no meio, que para mim é um poema que diz tanto, aquela coisa do Paco Urondo “é que a poesia dói nesses canalhas”. Falar de sonhos, de amor, de fazer amor, de lançar sementes, acho que isso hoje é tão fundamental de se falar porque o projeto é tão violento e brutal, que quando a gente ataca com poesia, com arte, com corpos libertos, pega em um lugar que eles não tem noção. Nossa revolução precisa ser por aí. Foi muito legal trazer a Gioconda, e esse poema especificamente. Tem um poema que ela fala que se orgulha de ser mulher e de ter deixado para trás a avó, a mãe, tudo que elas esperavam dela, não porque deixava essas mulheres que ela ama, mas deixou para trás esse papel que elas desempenharam e que ela então agora consegue abrir mão dele, meu papel é o que eu quiser, vou fazer a revolução, vou escrever, ser uma mulher livre, amar tanto os homens quanto queira. E acho que a Violetta vem desse desejo de cantar e aí acaba que pessoalmente é um momento de liberdade meu, dá uma sensação que tu pode tudo.

BdFRS: Nesse 8 de Março, que mulheres que tu querias referenciar?

Tânia: (lágrimas brotam) Tem tantas mulheres que merecem ser referenciadas. Acho que a primeira mulher que eu conheci, que é a minha mãe, Terezinha, a minha irmã Nelia. E acho, tem tanta mulher que morre todo dia, tantas e tantas que eu não queria falar, a Judith Batler, uma feminista, eu queria falar de mulheres, que às vezes na sua infinita beleza e força nos inspiram.

(Respiro profundo) Mas a minha mãe que teve 11 filhos, uma mulher muito forte. Acho que muitas das coisas que eu faço e falo hoje tem a ver com ver a dificuldade que ela teve e até onde ela conseguiu ir, e essa sensação que eu podia dar alguns passos além dos que ela deu, mas só podia porque ela batalhou muito para dar aqueles até onde ela foi. Porque a gente não é nada, não surge do nada. Estamos aqui hoje podendo falar porque teve um monte de mulher que se fodeu para poder votar, para não termos uma carga excessiva de trabalho, que lutou pela abolição da escravatura, tem um monte de mulher que estão em nós hoje. Nós somos muito mais velhas do que esse corpo aparenta e elas estão com a gente. Quando eu falo invocando os mortos tem a ver com isso, não sou isso que está aqui, tem uma falange que garante a minha existência agora. Tem toda a batalha no dia a dia, mas quantas mulheres fizeram coisas para que a gente pudesse estar aqui hoje.

Por isso também tem esse compromisso de fazer coisas para que as mulheres que vem depois de nós também possam dar passos à frente como estamos dando das companhias que vieram antes.


"Nós somos muito mais velhas do que esse corpo aparenta e elas estão com a gente" / Foto: Fabiana Reinholz

Nesse momento tem essa jovem, Magó, eu ajudei a organizar o ato em Porto Alegre contra o feminicídio em cima do assassinato brutal dela. Eu sei que ela não é única, a cada duas mulheres uma Magó é assassinada, uma mulher negra mais facilmente ainda. Hoje eu queria referenciar ela, porque talvez a morte dela tenha cumprido uma coisa. Quando eu faço os espetáculos que me levam muito profundamente e eu experimento, às vezes um sofrimento tão profundo, eu toco na morte, porque depois que eu toco nela volto muito mais viva, com força. Quando acaba um espetáculo desses dá a sensação que podia construir um mundo todo de novo e nem levaria sete dias. A Magó foi um pouco isso, ela tem mobilizado muitas mulheres em todo o país para falarem, não só dela, mas para falar da violência nossa de cada dia, e para fazer a gente pensar, a cada duas horas morre uma companheira, uma irmã, uma igual, podia ser eu, podia ser tu. Eu vi muitas pessoas que não paravam para pensar sobre isso, agora estão pensando por que aconteceu essa tragédia horrível e porque algumas pessoas disseram não, vamos dizer nenhuma a menos, parem de nos matar. Então é para ela, nesse 8 de Março será o primeiro que ela, em 25 anos, não estará.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Katia Marko e Rodrigo Chagas