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Com reflexão sobre ancestralidade e identidade, peça reúne família Pitanga no palco

Como se eu não fosse brasileiro e também não sou africano. Qual é a minha identidade?

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O ator Antonio Pitanga comemora 80 anos de vida em cima do palco, ao lado dos filhos Rocco e Camila (em voz vídeo) - Divulgação
Como se eu não fosse brasileiro e também não sou africano. Qual é a minha identidade?

A identidade é o todo inteiriço do ser humano. É o que representa a individualidade e a história de cada pessoa. Esse é o tema da peça Embarque Imediato, de Aldri Anunciação. Mas a obra não para aí, ela se aprofunda o debate sobre a identidade brasileira. O protagonista é Antonio Pitanga, homem negro que sente uma crise de se compreender como alguém que é da onde nasceu ou da onde foi trazido. 

“Como se eu não fosse brasileiro e também não sou africano. Qual é a minha identidade? Se eu não me reconheço como braço construtor desse país, parte integrante. De repente eu sou mais imigrante do que o imigrante, do que o alemão, austríaco, francês, português, holandês. Eu sou brasileiro.” 

Pitanga é braço construtor, brasileiro. Mas isso lhe negam. Também tem descendência africana, mas isso também lhe negaram quando Ruy Barbosa queimou documentos sobre a escravização de negros africanos, queimando assim suas origens. É nessa busca pelas origens e identidade que pai, filho e filha, Antonio, Rocco e Camila Pitanga, contracenam na peça teatral Embarque Imediato, numa narrativa que confunde o que é real com o que é encenação. 

“São três atores em cena, negros, e um pouco desse tema, desse projeto, dessa peça é um pouco da minha vida. Eu fui para a África, fiquei dois anos, e estou falando ao vivo para os meus filhos e para a plateia um pouco da minha caminhada. Eu não fui visitar a África, eu fui buscar informação de que África eu tinha vindo. Não basta eu só dizer de que eu sou afrodescendente. Eu quero saber de qual país desse continente de mais de 54 países”.

A peça acontece em uma sala de aeroporto internacional, em um cenário minimalista. A trama propõe uma oposição de sentimentos entre os atores. O personagem de Rocco está em um desespero por sinais que o tirem dali, enquanto o de Antonio numa calmaria anciã. De um lado, o jovem a caminho da Europa, em busca de seu doutorado, numa caminhada ocidentalizada e moderna. Do outro, a paciência de quem sabe que “alguma coisa segue seu curso”. 

 

 

Ambos foram deixados ali por perderem o passaporte ou o RG. Na espera pelos documentos, discutem a identidade que luta para se firmar.

“Estamos indo ou estamos levando? O cidadão mais jovem está sendo levado e provocado pelo cidadão mais velho para ele entender quem ele é. E a partir daí profetizar o próprio caminho”. Ele está indo para a Europa buscar outras fontes e completamente desligado da sua raiz, da sua terra, do seu planeta terra.”

Na contramão, Antonio traz às luzes baixas do teatro, a história: quem matou Martin Luther King, quem tirou a vida de Malcolm X, quem afundou os navios negreiros no mar? Num lapso, Rocco vem e a atualiza a história com Marielle, mostrando que o passado é estático, mas se repete.

“E aí dá para ele entender e chega nos dias de hoje. Quem matou Mestre Moa, porque matou, ou matou Marielle. Quer dizer, atualiza e interage com a plateia que não fica só no passado”. 

A peça tem texto de Aldri Anunciação e encenação de Marcio Meirelles. Ao fundo, a voz de Camila Pitanga, num tom fantasmagórico, representando o aeroporto, impondo ordens e limites. No passado que se repete, Antonio afirma que a peça é “importantíssima e muito atual politicamente. Hoje, um país virar de cabeça para baixo na questão racial. Um presidente que não gosta de negro, não gosta de mulher de LGBT, de índio. Aqui é uma tese, um debate. A gente tem que se manter vivo e a nossa contribuição é através do que a gente escolheu: teatro”. 

Sobre o atual governo brasileiro, o patriarca, um dos formadores do Cinema Novo, afirma que é mais um vento que está ventando, “e pode ventar todos os ventos do mundo que estaremos aqui de pé”. Com 80 anos, ele entende o seu país, assim como seu personagem entende a história, e ambos estão vivos. “Ninguém chega a 80 anos por um acaso, e é negro. É como a arte da guerra, você trabalha com a guerra do outro. Meu foco está na frente. Como dizia Guarnieri, liberdade é pegar o sol com a mão".   

Em consonância com o pai, Rocco afirma que há uma tentativa, hoje, de censurar o pensar fora do que é o padronizado. É o Brazil matando o Brasil, sua identidade e suas histórias, numa analogia à própria peça. 

“Eu acho que continuo Antonio e vou morrer Antonio. Eu fico muito emocionada quando eu vejo caras pretas aqui na plateia bebendo na fonte da história”.

 

Edição: Lucas Pará