Minas Gerais

Artigo | Mineração: campo minado de um sertão encantado

Arcebispo e deputada demonstram apoio à luta das famílias contra a mineração no Vale da Cancelas, interior mineiro

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG) |
Comunidade Geraizeira do Lamarão, em Grão Mogol, será uma das 11 comunidades tradicionais onde o minério de ferro será explorado - Laura Murta e Thiago Corbelino

“Casas entre bananeiras / Mulheres entre laranjeiras / Pomar amor cantar. / Um homem vai devagar. / Um cachorro vai devagar. / Um burro vai devagar. / Devagar... as janelas olham. / Eta vida besta, meu Deus.” (Carlos Drummond de Andrade)

Era assim... devagar,  tudo tão simples, tão previsível, tão bom. A vida sem pressa, um dia de cada vez, sem sobressalto, a vida nos gerais, no vale. Assim como diz o poema do Drummond, era a vida na Comunidade Geraizeira do Lamarão, no Vale das Cancelas, distrito de Grão Mogol, Norte de Minas Gerais.

Região na mira de chineses, da Mineradora Sul Americana de Metais S/A - SAM  que denomina a iniciativa que pouco ou quase nada se sabe do Projeto Bloco 8, que pretende explorar as jazidas de minério de ferro de pelo menos 11 comunidades tradicionais, como a do Lamarão, localizadas na área do empreendimento. Entre os poucos dados divulgados pela multinacional estão o investimento de US$ 2,1 bilhões e a produção estimada de 30 milhões de toneladas de pellet feed (base úmida) por ano.

Há um ano, o estado de Minas Gerais e o Brasil ganharam os noticiários internacionais com o rompimento da barragem de rejeitos do Córrego do Feijão, em Brumadinho, de propriedade da Vale. As notícias chegaram também na tranquila comunidade do Lamarão. Todos sabem: foram 272 mortos, 11 pessoas ainda estão desaparecidas, corpos soterrados num mar de lama que matou o Rio Paroapeba e seguiu um caminho de morte e destruição até o Vale do Rio São Francisco.

Apesar de toda a simplicidade, o geraizeiro João de Lubrina, morador do Lamarão, entende a gravidade do que é viver tão próximo a uma barragem. Seu João, em seus 70 anos de vida e muita sabedoria, entende e sofre como os moradores de Barão de Cocais, Macacos e tantas outras comunidades que vivem dormindo com um inimigo como uma barragem de rejeitos.

O que dizer, então, para esse sertanejo sobre a possibilidade de ver o lugar em que nasceu, se criou, criou filhos e netos, dar espaço para a segunda maior barragem de rejeito de minério de ferro do mundo? E mais, a água, bem tão valioso, tão escasso no semiárido mineiro, ser usada para empurrar o minério de ferro da região até o Porto de Ilhéus, no Sul da Bahia?

“Só de pensar nessas coisas, eu perco o sono e meu coração 'açulera'”, diz Dona Geralda, assim como o seu João, uma vida inteira no mesmo lugar, vivendo do mesmo jeito, feliz assim, sem pressa, sem ganância.

O que é o projeto

O Projeto Bloco 8 teve sua origem no antigo Projeto Vale do Rio Pardo, composto por uma área de mineração e uma usina de tratamento de minério. Em 2016, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) rejeitou o projeto por inviabilidade ambiental. O parecer técnico que embasou a decisão destacava os riscos às comunidades e ao meio ambiente.

O órgão responsável pelo licenciamento, na época, entendeu que o projeto resultaria na geração de volume muito grande de rejeitos, evidenciando a escolha tecnológica incompatível com as técnicas mais modernas de mineração, que buscam minimizar a dependência de barragens de rejeitos. Para a implantação do projeto, pelo menos 11 comunidades serão destruídas e os impactos serão sentidos ao longo da bacia do Rio Jequitinhonha e do Rio Pardo.

O parecer corrobora o que diz a sabedoria e a experiência dos geirazeiros, povos e comunidades tradicionais que são os guardiões das águas e da natureza. Como eles dizem, todas as águas são uma só água em permanente movimento e transformação. A água é uma entidade viva e os povos e comunidades tradicionais convivem em profunda unidade com tudo o que as atinge; todos os ataques e ameaças que a água sofre repercutem na existência dessas comunidades, em seus corpos e mentes.

Empreendimentos deletérios como a mineração colocam em risco o leito dos rios, suas nascentes, as matas ciliares, lençóis freáticos, fauna, flora, desequilibra, exaure e mata, homem, bicho e tudo ao seu redor. Interrompe o modo de vida, o jeito de ser e estar no mundo, de pessoas como João de Lubrina, Dona Geralda, Maria Idalina.

É para além do que entendemos como lugar geográfico, inclui as referências pessoais e o sistema de valores que direcionam as diferentes formas de perceber e constituir a paisagem e o espaço geográfico. Trata-se de espacialidades carregadas de laços afetivos com os quais desenvolvemos ao longo de nossas vidas na convivência com o lugar e com os outros. O conceito de lugar assume um caráter subjetivo, uma vez que cada indivíduo já traz uma experiência direta, com um profundo envolvimento para adquirir tal pertencimento.

Ecologia integral

Estamos falando do desejo e do direito de estar e permanecer aonde estão, nasceram e enterraram seus mortos. Foi para ouvir essas pessoas que o Arcebispo da Arquidiocese de Montes Claros, Dom João Justino, esteve, acompanhado pela deputada Leninha Souza (PT/MG), presidenta da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia, reunidos com as comunidades tradicionais do Vale das Cancelas, em reunião realizada na escola da comunidade do Lamarão, no dia 7 de março.

Dom João Justino mostrou-se comprometido com a luta das famílias e, sobretudo, recordou as orientações do Papa Francisco quanto à importância da ecologia integral e a urgente necessidade de lutarmos em defesa de nossa casa comum.

“Estamos vivendo um momento extremamente importante para a nossa reflexão, especialmente no momento em que, vivendo a quaresma, somos orientados pela Campanha da Fraternidade deste ano à tarefa de aplicarmos o tema: Viu, sentiu compaixão e cuidou dele. Fraternidade e vida: dom e compromisso. Eis o compromisso, com a vida, vida em plenitude”, afirmou o religioso.

A deputada Leninha destacou que segue em luta no Parlamento contra o projeto de morte da SAM. Ressaltando que, por ora, o processo de licenciamento está suspenso por liminar, mas a mineradora segue firme no encaminhamento de visitar prefeituras, parlamentares e outras entidades no intuito de buscar e, até mesmo, cooptar apoio para a retomada do processo.

“Não é esse o modelo de desenvolvimento em que acreditamos. Não podemos esquecer os dois crimes recentes em Minas Gerais, o da Samarco, em Mariana, e o da Vale, em Brumadinho. Não podemos ficar reféns de um modelo que mata homem e natureza. De um modelo de desenvolvimento que retira as populações tradicionais dos seus territórios”, disse a deputada.

O processo de especulação e privatização de nossa natureza é secular. O povo mineiro foi forjado, há 300 anos, a partir da exploração das minas de ouro. Sem que houvesse um pacto ou uma divisão de tarefas, coube aos Gerais alimentar as Minas e assim seguimos, servindo as Minas.

Minérios, recursos hídricos, fertilidade do solo e força física dos trabalhadores são exauridos em Minas Gerais e drenados para o mercado mundial, configurando a posição subordinada do Brasil e do estado de Minas na divisão internacional do trabalho.

O cenário da mineração nos últimos anos testemunha um rápido crescimento em termos produtivos. De acordo com os dados de 2011 do Instituto Brasileiro de Mineração, a partir do ano 2000, a procura maior por minerais, principalmente pelo elevado índice de crescimento mundial, incluindo países como a China, impulsionou o valor da Produção Mineral Brasileira (PMB). No período 2001/2011 o valor da PMB teve crescimento de 550%, saindo de US$ 7,7 bilhões para US$ 50 bilhões.

Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Joana Tavares e Vivian Fernandes