CORONAVÍRUS

O inimigo invisível que assusta o mundo

O mais importante personagem de 2020 apareceu primeiro na Ásia, invadiu a Europa, avançou na Oceania, Américas e África

Brasil de Fato | Porto Alegre |
Ilustração criada pelo CDC revela a estrutura morfológica do coronavírus - Reprodução

Tudo começou na China, na cidade industrial de Wuhan. Lá, no dia 10 de janeiro, morreu um homem de 61 anos, frequentador do mercado de peixes. Os médicos descobrem que o causador da morte foi um novo microorganismo. Chama-se coronavírus (covid-19), nova variante de uma família de vírus que causam infecções respiratórias. Logo existem 41 infectados.

No dia 23, Wuhan está fechada. Ninguém sai e ninguém entra da cidade, com 11 milhões de habitantes. O mesmo acontece na província de Hubei, com população de 56 milhões. É quando ganha todas as manchetes o maior acontecimento do ano, que está deixando o Brasil e o mundo em sobressalto.

Isolamento deu certo

No mesmo mês, o inimigo invisível surge na Tailândia, França, Finlândia, Austrália e Estados Unidos. Em fevereiro, o presidente da China, Xi Jiping, classifica o surto como a mais grave emergência de saúde do país nos últimos 70 anos. No mesmo mês, o perigo surge pela primeira vez no Brasil. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aumenta para "muito elevado" o nível da ameaça. A França suspende concentrações acima de cinco mil pessoas, a Arábia Saudita cancela a peregrinação à cidade sagrada de Meca, a Itália veta o carnaval de Veneza.

Março mal começa e a Itália – país mais afetado da Europa – já tem 79 mortes. Então, fecha todas as escolas e universidades. No planeta, já são mais de três mil mortos e 93 mil contaminados, na maioria chineses. O isolamento forçado de Wuhan será essencial para travar o vírus. Uma pesquisa demonstrou que, até então, 86% das infecções não estavam sendo detectadas. Somente 14 em cada 100 pacientes estavam sob controle. Sem sintomas, os demais espalhavam o agente patogênico.

Toque de recolher

A Itália segue a China e proíbe a entrada e saída de 12 províncias. Dias depois, toda o país está de quarentena. E a OMS define a situação como pandemia, abarcando todos os continentes. Que acelera no resto do mundo e perde força na Ásia, resultado da guerra movida contra o inimigo pelos governos da China e Coréia do Sul.

Nova York decreta toque de recolher. E os habitantes da região de San Francisco, nos EUA, com quase sete milhões de moradores, recebem ordem para não saírem de casa como modo de impedir a disseminação da doença.

Enquanto isso, em Wuhan, o presidente chinês anunciava o controle da situação. A China caiu de 14 mil casos diários – no pico da infecção em fevereiro – para 21 em 17 de março. E desativou os 14 hospitais e centros médicos construídos para enfrentar a emergência.

China X EUA

Na cena mundial, a irrupção de coronavírus está provocando novos atritos entre China e Estados Unidos. O governo de Pequim, indignado com o uso da expressão “vírus chinês” por Donald Trump, respondeu ao presidente norte-americano levantando uma suspeição. Disse desconfiar que a origem da epidemia poderia ser a delegação do exército dos EUA que participou dos Jogos Mundiais Militares que aconteceram justamente em Wuhan em outubro de 2019.

Ao redor do planeta havia mais de 150 mil infectados e perto de seis mil vítimas fatais na metade de março. O restante do mês, mais abril, maio e junho serão de angústia e tensão. Nas Américas, a epidemia ainda está longe do pico, segundo reconhecem os pesquisadores. A grande preocupação está nas insuficiências respiratórias que exigem hospitalização imediata e uso contínuo de respiradores artificiais.

Solidariedade, o remédio que funciona contra a pandemia

No meio da disputa por máscaras e álcool gel, a luta contra o coronavírus oferece exemplos de solidariedade essenciais para enfrentar a pandemia. Um dos mais notórios veio de Cuba. No mar do Caribe, o navio de cruzeiro britânico MS Braemar, com cinco pessoas contaminadas a bordo, não tinha onde atracar. Então, por uma questão humanitária, quando muitos países fecham seus portos e fronteiras, o governo de Havana aceitou recebê-lo.

Em condomínios no Brasil e no exterior, pessoas mais jovens se ofereceram para ir ao supermercado e à farmácia comprar alimentos e medicação para os vizinhos idosos, maior grupo de risco. Outros, ainda mais prestativos, adquiriram máscaras, álcool gel e lenços umedecidos para distribuição na vizinhança. Também existem os cantores e cantoras de ocasião que vão às janelas cantar ou gritar palavras de incentivo à resistência contra o vírus, modo de reduzir o pessimismo reinante.

A China enviou médicos, medicamentos e equipamentos hospitalares para a Itália, Irã e Iraque. Remeteu mais de 700 equipamentos, entre eles respiradores, monitores e desfibriladores para as UTIs. "Hoje à noite, a Itália não está sozinha. Muitas pessoas no mundo estão nos apoiando", agradeceu o chanceler italiano, Luigi di Maio.

Quando muito se recomenda “não sair de casa”, como ficam as pessoas que não têm casa? Porto Alegre, por exemplo, praticamente dobrou sua população de rua entre 2016 e 2020. São mais de quatro mil pessoas. Mas os albergues podem receber só 10% deste contingente. Fica pior quando se sabe que o orçamento municipal para atendê-los encolheu em mais de R$ 30 milhões no ano passado. Quem tem casa e quer ser solidário deve, pelo menos, cobrar da prefeitura local – e do prefeito da sua cidade – respostas imediatas e convincentes para a situação.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Katia Marko e Marcelo Ferreira