Coluna

Nem morrer de vírus, nem morrer de fome: aonde vamos?

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Jair Bolsonaro durante pronunciamento à nação na terça-feira (24) - Foto: Isac Nóbrega/PR
Bolsonaro responde aos interesses de classe em que se apoia

Nem morrer de vírus, nem morrer de fome. Há um outro caminho. A imensa maioria do povo está estarrecida diante da crueldade das opções que estão sendo apresentadas pelas duas alas da classe dominante.

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Tanto Bolsonaro quanto Doria, Maia ou Toffoli, Witzel ou Zema estão de acordo em descarregar sobre os trabalhadores os custos da crise, o desamparo dos informais, a redução salarial de quem tem contrato ou do funcionalismo, e manter o teto de gastos da PEC 95.

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Mas a crise mudou de patamar a partir desta semana. Parece incrível, mas, em menos de um ano e meio de mandato de Bolsonaro, a complicada e conflitiva sociedade brasileira está em uma situação de dualidade de poderes entre o governo Federal e os governadores. Bolsonaro girou e desautorizou o seu próprio ministro da Saúde. Ninguém sabe se Mandetta se centraliza pela linha do Planalto, ou se vai para a demissão.

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A conjuntura deslocou de forma tão esdrúxula que Dória se posiciona em oposição a Bolsonaro diante da pandemia. O amplo campo político reacionário que se estruturava em torno da defesa da governabilidade e garantiu a aprovação da reforma da previdência, simplesmente, explodiu. Não esquecer que Bolsonaro tem um projeto bonapartista e já pediu estudos sobre a implantação de estado de sítio.

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Bolsonaro fez um discurso criminoso, mas não está sozinho. É um neofascista irresponsável, mas há um método neste discurso perturbado, delirante, surreal. Bolsonaro segue Trump. Uma fração nacional imperialista norte-americana que se lançou em uma aventura para preservar a qualquer preço o lugar dos EUA no sistema mundial. O editorial de hoje do Wall Street Journal tinha dado a linha, alertando que a depressão seria pior que a pandemia.

Bolsonaro responde aos interesses de classe em que se apoia. Entre salvar vidas, evitando um calamidade nos hospitais e salvar negócios, fez uma escolha. São mais de trinta milhões aqueles com mais de 60 anos.

Se a taxa de letalidade for equivalente ao que se conhece, internacionalmente, serão muitos milhares de vidas ameaçadas, talvez mais. Bolsonaro dobrou a aposta, quando Boris Johnson recuou na Inglaterra. Decidiu defender a estratégia de que o contágio em massa é o mal menor, para responder à pressão de uma fração da burguesia apavorada com a inevitável recessão.

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Há um consenso científico entre especialistas de todas as áreas envolvidas de que a estratégia de distanciamento social, a quarentena, é a única resposta que pode atenuar o cataclismo nos hospitais.

Não há saída que não seja desacelerar o contágio e ganhar tempo. A ciência admite que sabemos ainda muito pouco sobre a biologia do vírus. A ciência é humilde, mas é a nossa maior esperança de que se poderá descobrir medicamento ou vacina. A ciência pede aos governantes do mundo algo simples, mas precioso: tempo. Bolsonaro é um primitivo, um maníaco. Tem que ser detido.

Mas há duas linhas em confronto aberto diante da pandemia. As duas linhas dividem a classe dominante brasileira em duas frações. As duas alas têm presença no poder de Estado. Estamos em situação de poder dual.

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Vinha prevalecendo a linha defendida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que prioriza a contenção do contágio a qualquer preço para salvar milhões de vidas. Esta linha foi acolhida com atraso pelos governos da Itália, Alemanha e Estado Espanhol. Boris Johnson tinha defendido uma linha oposta, mas se viu obrigado a recuar.

A linha é humanitária: implantação gradual do distanciamento social, enquanto se procurava garantir um mínimo de capacidade nos hospitais. A próxima etapa seria garantir a disponibilidade de um estoque para testes em massa. O argumento que sustenta esta linha é que seria incontornável uma suspensão da atividade econômica como um mal menor diante de um cataclismo.

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Mas Trump estava contra. E Bolsonaro girou para um alinhamento com Trump. A linha defendida por Bolsonaro é aceitar o contágio em massa, e uma taxa de letalidade elevadíssima, mas concentrada entre os idosos, como um mal menor diante da depressão.

A subestimação do impacto desta necropolítica poderá ser devastador para o futuro do governo. Esta linha obedece aos interesses do nacional imperialismo norte-americano acossado pelo crescimento da China.

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Aparentemente, a linha defendida por Bolsonaro é minoritária na classe dominante, mas mantém ainda muita influência na classe média e audiência popular. A boa novidade é que maioria da classe trabalhadora está se deslocando para a oposição. Ela é a portadora da esperança.

 

 

Edição: Leandro Melito