Perspectiva

Bolsonaro minimiza pandemia como governantes do século passado, diz epidemiologista

Entenda as aproximações entre as medidas tomadas hoje e há um século pelos governos durante epidemias históricas

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ) |
Jornal de 1918 com gripe espanhola
Jornal de 1918 chamava a atenção para situação precária da saúde pública no contexto da gripe espanhola - Reprodução

Há 102 anos, a gripe espanhola, considerada a maior pandemia do século XX, matou entre 20 e 50 milhões de pessoas, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A doença recebeu esse nome por conta do grande número de casos relatados no país, mas logo ela se espalhou por diversos países. No Rio de Janeiro, ela chegou em 1918, provocando sintoma inicial de uma gripe comum, mas logo evoluiu para uma pneumonia grave.

Dados compilados no livro A Virologia no Estado do Rio de Janeiro: uma visão global, dos pesquisadores Hermann Schatzmayr, do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Maulori Cabral, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apontam que oito meses foram suficientes para metade da população mundial entrar em contato com o microrganismo.

Em casos mais graves, o infectado ficava com a pele em tom azulado devido à baixa oxigenação. O óbito vinha em seguida por insuficiência respiratória aguda.

A quarentena, alternativa mais eficaz contra a atual pandemia do coronavírus, também foi utilizada em 1918 na cidade do Rio, então capital federal, quando escolas e repartições públicas foram fechadas.

Nas ruas, corpos eram abandonados e só recolhidos dias depois. No mês de outubro, a doença já havia atingido metade dos 700 mil habitantes do Rio e cerca de 15 mil pessoas morreram somente na capital. Em janeiro de 1919, morreu o presidente reeleito Rodrigues Alves, que nem chegou a tomar posse do cargo.

O cenário da quarentena similar ao atual aparece em uma reportagem de 20 de janeiro de 1918, no extinto jornal Correio da Manhã. Em um trecho recuperado pela pesquisadora da Fiocruz e historiadora Nara Azevedo, no artigo La Dançarina: a gripe espanhola e o cotidiano na cidade do Rio de Janeiro, o autor fala de bares fechados e do comércio sem nenhum freguês.

Era fúnebre o aspecto da cidade ontem à noite. Todo o comércio fechado, o movimento nulo, absolutamente nulo. Um ou outro bar e botequim ainda servia a freguesia, mas de longe em longe, porque, em sua quase totalidade, essas casas, que tanta vida davam à cidade, não funcionavam. O café não se encontrava, nos que com pessoal reduzido procuravam atender os fregueses.

Além da evolução rápida dos sintomas e da quarentena que manteve a cidade em silêncio, a minimização do problema pelo governo federal é mais uma coincidência no contexto das duas pandemias. Em entrevista ao Brasil de Fato, o médico sanitarista e diretor do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC/UFRJ), Antonio José Leal Costa, ressaltou, porém, que o conhecimento científico era bem menos avançado 100 anos atrás.

“Indevidamente, adotou-se o discurso de minimização do problema, tratando a gripe espanhola como doença benigna, postura desvinculada da realidade que se instalou no estado. A negação por parte de diferentes esferas do governo federal, em especial pelo atual presidente [Jair Bolsonaro], dos conhecimentos e evidências científicas que embasam tal decisão é uma diferença que não podemos esquecer. E de consequências potencialmente graves. Em 1918 sequer se sabia da existência dos vírus”, compara.

Saúde pública

Embora o Brasil possua o Sistema Único de Saúde (SUS), maior rede pública do mundo, a aprovação em 2016 pelo Congresso Nacional e pelo então presidente Michel Temer (MDB) da Emenda Constitucional (EC) 95, conhecida como Teto de Gastos, fez o país retroceder alguns anos em políticas públicas.

Ainda assim, foram as ações de vigilância epidemiológica do SUS que possibilitaram a detecção oportuna da entrada do novo coronavírus no país, defende o professor da UFRJ.

“O subfinanciamento era uma realidade em 1918, como é também agora, especialmente se contarmos a partir de 2014 e, mais especificamente, a partir de 2016. Em 1918, a rede pública de saúde do estado estava esfacelada. Atualmente, ouvimos todos os dias relatos a respeito dos problemas do SUS. Mas a existência do SUS é uma diferença tão marcante, que impossibilita qualquer comparação”, argumenta Leal Costa.

Para o médico sanitarista, o período recente de chegada da covid-19 ao Brasil não permite fazer aproximações com os efeitos da gripe espanhola, mas ele pondera que os dados de 1918 e os prognósticos de agora “convergem para um expressivo número de casos de óbitos, certamente superiores aos de 1918, considerando o tamanho distinto das populações envolvidas”.

Em 1920, a população brasileira era de 30 milhões contra os 209 milhões atuais, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Mais pobres

A via de introdução do agente causador foi importada nas duas pandemias. Em 1918, a principal hipótese é que o vírus tenha chegado ao Brasil por Recife (PE), trazido por marinheiros que prestavam serviço militar no Senegal e aportaram em setembro.

No mês seguinte, Niterói (RJ), então capital do estado do Rio, já contabilizava os primeiros casos e as mortes começaram a aparecer dias depois.

Naquela época, apesar da ampla disseminação, a gripe espanhola acometeu de forma mais violenta as áreas da cidade com infraestrutura sanitária deficiente, caso dos subúrbios e cortiços, e dos portadores de problemas de saúde.

O professor da UFRJ afirma que a história volta a se repetir no contexto atual, com a aglomeração de casas nas periferias, condições inadequadas de ventilação, restrição de acesso à água e ao sistema de saúde.

A expectativa é que a transmissão do vírus sars-cov2, assim como o excesso de mortalidade por covid-19 acometa, principalmente, as parcelas da população menos favorecidas em termos sociais e econômicos. São contextos de extrema vulnerabilidade, determinados pela forma como se organiza a nossa sociedade, marcada pela extrema concentração de renda, exclusão social e desigualdades de acesso a bens e serviços essenciais, prevalentes em nosso país desde a sua origem.

Outras epidemias

A Biblioteca Virtual em Saúde da Fiocruz destaca diversas doenças e epidemias que assolaram o Rio de Janeiro desde o tempo dos vice-reis em função de uma “cidade insalubre”. A febre amarela, que foi do final de 1849 a setembro de 1850, contagiou 90 mil dos 166 mil habitantes totais da cidade. Mais de 4 mil pessoas morreram e, no auge da epidemia, ela fez 80 vítimas por dia.

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No final da década de 1860, ela reapareceu na cidade e nos períodos mais críticos, os anos de 1873 e 1876, causou a morte de 3.659 e 3.476 pessoas, respectivamente.

Além dela, outras doenças como varíola e peste bubônica faziam parte da vida da capital. Esse cenário se manteve até a campanha de erradicação comandada pelo sanitarista Oswaldo Cruz, no início do século XX. A ação, que gerou reações como a Revolta da Vacina em 1904, fazia parte de reformas urbanísticas mais amplas que estavam sendo realizadas no Rio.

Além destas, o diretor do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ lembra de epidemias mais próximas da atualidade, como a de meningite meningocócica, que atingiu centros urbanos de todo o país nos anos 1970, a pandemia de HIV/Aids e a primeira epidemia de dengue, ambas na década seguinte, seguidas por várias outras mais recentes, como a do H1N1, zika e chigungunya.

Algumas outras doenças transmissíveis e presentes, como malária, varíola, poliomielite, difteria, coqueluche, tétano, sarampo, rubéola, sífilis, tuberculose e hanseníase tiveram a amplitude controlada ou foram erradicadas por intervenções como imunização com vacinas, saneamento e controle vetorial. “Mas o sarampo, eliminado até pouco tempo, ressurgiu em todo o Brasil recentemente”, pontua Antonio José Leal Costa.

Testagem

Além da negação da ciência e de dados técnicos por uma ala do governo federal, uma das principais críticas que recaem sobre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) situa-se no âmbito dos diagnósticos da covid-19.

A falta de testagem não apenas tem provocado a lotação de hospitais com vítimas com sintomas já bastante avançados, como pode resultar em subnotificação e consequente descontrole dos dados sobre a pandemia.

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Na década de 1990, o Brasil se tornou um dos países pioneiros no controle eficaz de novas infecções por HIV/Aids. A fórmula, que vigora até hoje, consiste em testagem rápida e gratuita e, em caso de exame com resultado positivo, acompanhamento do paciente e medicação fornecida pelo SUS capaz de bloquear novas infecções, além de ampliar a expectativa de vida dos infectados.

“Apesar da ampla incerteza a respeito de vários problemas que nos dizem respeito enquanto seres humanos, hoje dispomos de muito mais conhecimento científico, que nos possibilita antecipar cenários, formular estratégias de intervenção e avaliar estas estratégias. O desafio maior é transformar todo o investimento e esforço envidados para a pesquisa científica e o conhecimento produzido em bem-estar e qualidade de vida para todas as populações, indistintamente, eliminando os cenários de desigualdades em saúde”, avalia o médico sanitarista.

Fonte: BdF Rio de Janeiro

Edição: Mariana Pitasse e Leandro Melito