Vulnerabilidade

Risco de colapso dos hospitais é maior em áreas mais pobres, diz estudo da UFMG

Pesquisadores da universidade pública analisaram oferta de leitos e demanda extra causada pela covid-19 em Minas Gerais

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG) |
Foi concluída, nesta quarta (15), a construção do Hospital de Campanha no Expominas, na avenida Amazonas, uma das mais importantes da capital mineira - Pedro Gontijo / Imprensa MG

O colapso do sistema de saúde brasileiro é um assunto que vem ganhando atenção desde a pandemia da covid-19. Estimativas realizadas pelo professor Rafael Ribeiro, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais, sugerem um pico de contaminação da doença no estado entre dias 4 e 18 de maio. O boletim epidemiológico da Secretaria de Estado de Saúde (SES) de Minas Gerais, divulgado na terça (14), atesta 884 casos confirmados, 27 óbitos confirmados e mais sessenta (60) óbitos em investigação.

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Segundo o professor Unaí Tupinambás, do Departamento de Clínica Médica da UFMG e membro dos comitês de enfrentamento à covid-19 da Prefeitura de Belo Horizonte e da UFMG, qualquer sistema de saúde do mundo pode entrar em colapso e a situação dos SUS é preocupante.  “A Emenda Constitucional 95, o subfinanciamento, a crise política e econômica que a gente está vivendo, podem ter um impacto muito negativo. A gente precisa rediscutir a revogação dessa emenda, repactuar o financiamento do SUS e a contratação de pessoal. E reforçar, mais uma vez a importância do isolamento social, que nos permite ganhar tempo”, afirma.

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Com a Emenda Constitucional 95, aprovada por Michel Temer e mantida pelo governo de Jair Bolsonaro, o orçamento da saúde no país perdeu, só em 2019, cerca de R$ 20 bilhões.

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Gilvan Guedes, pesquisador do Cedeplar, aponta que tanto o pico da doença quanto o colapso do sistema de saúde são questões que dependem de três fatores importantes. O primeiro deles é a forma como a pandemia se dissemina regionalmente, o segundo se relaciona às políticas adotadas de restrição e mitigação - por exemplo, o isolamento social - e, por último, quando essas medidas de restrição começaram e por quanto tempo irão perdurar. Para ele, a possibilidade de colapso do sistema de saúde brasileiro será maior em locais onde há menos assistência, como Norte, Nordeste, partes do Centro-Oeste do país e Norte de Minas Gerais, áreas que são também mais frágeis economicamente.

“O que podemos dizer é que a pressão e possibilidade de colapso dos hospitais serão maiores nos locais de vazios assistenciais, em que o ajuste pelo lado da oferta, incluindo oferta de transporte adequado, seja mais lento. Também é importante lembrar que em locais com melhor estrutura a pandemia cresceu mais rápido, concentrando o maior número de casos. Estamos num comportamento de crescimento exponencial de casos. Como nesses locais mais bem preparados a demanda já é mais elevada, possíveis relaxamentos precoces de distanciamento podem gerar sim uma pressão além da capacidade de resposta local”, afirma.

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Leitos: oferta e demanda

Gilvan Guedes, junto com outros pesquisadores do Cedeplar e representantes do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) e da SES de Minas Gerais, divulgaram neste mês um estudo sobre a capacidade do sistema de saúde do Brasil frente à demanda extra gerada pela pandemia da covid-19, considerando a existência de leitos gerais, leitos UTI e equipamentos de ventilação assistida.

Segundo o estudo, as diferenças na capacidade de resposta à covid-19, sobretudo devido às desigualdades socioeconômicas, podem ser atenuadas caso haja o aumento da oferta de equipamentos de saúde em locais com menos assistência; uma melhor gestão de fluxo de pacientes, com provimento adequado de transportes que possam reduzir as distâncias percorridas; e o uso inteligente das políticas de restrição e mitigação do contágio.

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Em Minas Gerais, segundo Gilvan, locais que necessitam transportar pacientes por mais de 200 quilômetros poderão utilizar Suporte Aéreo Avançado de Vida (SAAV) ou UTI móvel. “Esses municípios representam 8,65% do total do estado e estão em sua maior parte localizados na macrorregião Nordeste. Esse tipo de ação é fundamental para amenizar as desigualdades regionais em termos de oferta e acesso a serviços de saúde durante a pandemia”, comenta.

Segundo a SES, no estado são 12.625 leitos e cerca de metade deles estão disponíveis para receber pacientes com suspeita de covid-19. Em relação aos leitos UTI, são 2141. “O objetivo é aumentar a capacidade em até mais 2000. Desses, 540 são leitos que já estão praticamente prontos, em processo de habilitação. Os demais leitos precisam de certos ajustes, como contratação de recursos humanos, ventiladores, respiradores”, diz a nota da Secretaria. Atualmente, há a disponibilidade de 55% de leitos UTI no estado.

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Situação em Belo Horizonte

Conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde, a capital conta com 10.546 leitos hospitalares, sendo 57% destinados ao SUS. São 3.218 leitos de enfermaria, sendo 1.945 na rede SUS e 1.273 na rede particular. Em relação aos leitos de UTI Adulto, são 1.070 leitos no total, sendo 600 na rede SUS e 470 na rede particular. A taxa de ocupação, segundo nota Secretaria, está em 80%. Até a terça (14), BH possui 397 casos confirmados e seis óbitos confirmados.

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Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Elis Almeida