Nem a magia do circo é capaz de fazer seus artistas se sustentarem em meio à pandemia

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Circos itinerantes contam com a solidariedade popular - Foto: Paulo Pinto
Você ver alguém fazendo algo que você não imaginava que era capaz

Mesmo que você nunca tenha ido, provavelmente quando criança fez parte do seu imaginário a cena deslumbrante de entrar em um picadeiro. Antes de existir o cinema e seus poderosos efeitos especiais computadorizados, o circo já proporciona momentos que jovens e adultos duvidavam se aquilo tudo era real mesmo.  

Há uma diversidade de linguagens e expressões que acompanham as artes circenses. Das ruas aos locais fechados, das apresentações individuais às trupes, a arte do circo atravessa milênios carregando histórias e emoções. No Brasil, podemos destacar seu papel como atividade capaz de democratizar o acesso à arte e cultura quando lembramos que alguns municípios ainda carecem de estruturas como teatro, biblioteca ou cinema.   

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Mas o que significa o isolamento social para um circo itinerante? A pandemia do novo coronavírus está sendo um desafio de sobrevivência para artistas que vivem rodando o país na missão de compartilhar a arte. Dependentes das bilheterias, os circos itinerante estão resistindo através da solidariedade popular, ao mesmo tempo que cobram medidas emergenciais ao poder público.  

Em Pernambuco, por exemplo, o Circo Alves montou a lona, mas não vendeu nenhum ingresso. As quinze pessoas da família Alves se preparavam para sessões em Caruaru, no agreste pernambucano, quando as medidas de isolamento foram adotadas para evitar a contaminação pelo covid-19. Tita Alves é a proprietária do circo e contextualiza a realidade que está sendo encarada pela paralisação da vida itinerante.  

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“Somos itinerantes 365 dias por ano. Nós respiramos circo, vivemos o circo, engravidamos no circo, parimos no circo, passamos o nosso resguardo no circo, criamos os nosso filhos no circo. Isso é a nossa vida. O circo itinerante em si, para nós, não é uma profissão, é uma tradição. Tem que ter muito sangue no olho e saber muita coisa para viver do circo itinerante. Nós respiramos ele, vivemos dele”, ressalta. 


A dedicação dos artistas vai para além de uma perspectiva de emprego / Foto: Paulo Pinto

Tati Alves assume perplexidade ao ver o circo imóvel, uma tradição tão antiga da história da sociedade, presente em muitos países pelo mundo. O circo também é resistência. Essa arte  sobreviveu aos avanços tecnológicos a exemplo do surgimento da TV, do cinema e da internet. Além da prioridade na condição humana das pessoas que fazem o circo itinerante, o momento de pandemia acende alertas sobre a tradição circense no país. O artista e pesquisador Williams Sant’Anna defende a importância da arte presencial do circo. 

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“O circo consegue levar alegria, entretenimento e é o lugar do sonho, o lugar de imaginar o ser humano quebrando limites. Você ver alguém fazendo algo que você não imaginava que era capaz. Ou alguém te transportando para um universo que você esquece as agruras do dia, relaxar, se divertir, sonhar e dar vazão à sua subjetividade. Então, perder o circo - ou estar longe do circo nesse momento - é perder a possibilidade de deixar-se sonhar a partir da arte do outro”, analisa.

Por todo o país estão sendo realizadas campanhas para ajudar a sobrevivência dos circos itinerantes. Além de identificar alguma trupe perto de casa, cada pessoa pode pesquisar pela internet contatos e campanhas abertas. 

 

Edição: Lucas Weber