Fora

Teich diz que saída foi escolha própria, mas não explica motivos

Oncologista ignorou divergências com Bolsonaro e apenas agradeceu por ter tido a oportunidade de trabalhar com o SUS

Brasil de Fato | Brasília (DF) |

Ouça o áudio:

Nelson Teich não liberou a cloroquina como Bolsonaro queria - Evaristo Sá/AFP

O médico oncologista e Nelson Teich deixou o Ministério da Saúde nesta sexta-feira (15) com um pronunciamento breve, sem dizer o que motivou a saída. "A vida é feita de escolhas, e eu escolhi sair", introduziu enigmaticamente. 

Continua após publicidade

O agora ex-ministro agradeceu a equipe do ministério e a profissionais da saúde e afirmou ter deixado um plano estratégico pronto para ser colocado em prática, incluindo um programa de testagem. "Deixo um plano de trabalho pronto para auxiliar os secretários municipais, prefeitos e governadores a tentar entender o que está acontecendo e definir os próximos passos".

::Ampliação de serviços essenciais gera questionamentos sobre segurança do trabalho::

Embora pessoas ligadas ao Palácio do Planalto afirmem que o pedido de exoneração foi motivado por divergência com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sobre uso da cloroquina no tratamento contra a covid-19, Teich sequer não tocou no assunto. Apenas agradeceu pela oportunidade de ser ministro.

"Seria muito ruim na minha carreira não ter tido a oportunidade de atuar no ministério pelo SUS. Eu fui criado pelo sistema público. Não aceitei o convite pelo cargo, eu aceitei porque achava que podia ajudar o Brasil e ajudar as pessoas", finalizou, sem justificar o que deu errado.

Histórico

Teich assumiu o Ministério da Saúde em 17 de abril, após a demissão de Luiz Henrique Mandetta, com o discurso de que trabalharia para amenizar o isolamento social contra o novo coronavírus de forma "técnica e científica". Ele também defendeu que o governo trabalhasse em parceria com a iniciativa privada para vencer o surto da doença.

Em um primeiro momento, adotou discurso equilibrado, afirmando que a prioridade era a saúde da população. “O foco que temos aqui é nas pessoas. Por mais que se fale em saúde, em economia, não importa o que se fale, o final é sempre gente. É o que viemos fazer aqui, trazer uma vida melhor para a sociedade e para as pessoas do Brasil”, disse o médico.

Enquanto esteve no cargo, o oncologista pouco fez, concretamente. Em todo o tempo, ele se demonstrou acuado pelas posições publicamente expressas do presidente e não conseguiu efetivar nenhuma grande medida para a contenção da doença.

O primeiro ato como ministro foi nomear o general Eduardo Pazuello para ser seu braço direito no ministério. A justificativa foi a experiência do militar no comando de operações logísticas. A partir disso, houve uma militarização de cargos menores da pasta nos dias seguintes.

Durante as coletivas de imprensa diárias, o oncologista pregou o aumento das testagens e a valorização de estudos científicos para que as pessoas pudessem voltar às atividades normalmente – no entanto, com sérios problemas para comprar equipamentos e testes, não conseguiu implementar melhorias para diagnosticar a população.

Teich também tentou emplacar uma “matriz” para redução das restrições sociais em lugares com menos grau de contágio, em ação claramente direcionada a agradar Bolsonaro. Sem apoio de prefeitos e governadores, porém, outra vez ele falhou ao tentar pôr em prática suas ideias.

Ao passo em que o número de mortes diárias não parava de subir, o ministro mostrou-se surpreso, em 28 de abril, com o aumento da “curva” de contágio pelo coronavírus.

Quando Bolsonaro anunciou à imprensa que liberaria, por decreto, salões de beleza, barbearias e academias como atividades essenciais, em 11 de maio, Teich reagiu de forma confusa e surpresa. Na ocasião, disse constrangidamente que não sabia das medidas e que a decisão sobre tais cabia ao presidente e ao Ministério da Economia.

No entanto, assim como seu antecessor, Teich divergiu de Bolsonaro sobre o uso do medicamento cloroquina para o tratamento contra o novo coronavírus. Segundo pessoas ligadas ao Palácio do Planalto, foi isso que o derrubou.

Edição: Rodrigo Chagas