ORGANIZAÇÃO

“Fora Bolsonaro” é urgente diante de pandemia e crise econômica, defendem movimentos

Para as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, queda do governo é o caminho contra ameaça fascista no Brasil

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

Ouça o áudio:

Mobilizações virtuais estão previstas para o dia 5 e 13 de junho - Foto: Miguel Schincariol/AFP

O afastamento de Jair Bolsonaro da presidência se torna cada dia mais urgente, defendem as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo.

As organizações discutiram a conjuntura política nacional e os caminhos para fortalecer a unidade em busca do impeachment, diante do avanço da pandemia do novo coronavírus e do aprofundamento da crise socioeconômica que atinge principalmente a população em condições mais vulneráveis em plenária online realizada na manhã desta quarta (27). 

Mais de 200 representantes de movimentos populares do campo e da cidade, sindicatos, centrais sindicais, movimentos feministas, LGBTs e da juventude participaram da reunião. 

:: Mais de 400 entidades apresentam pedido de impeachment contra Bolsonaro :: 

“Já há sinais de uma indignação crescente contra Bolsonaro. O Fora Bolsonaro está começando a pegar. Agora, não é só uma necessidade. Se transformou em indignação. É preciso trocar o governo pra salvar vidas, salvar empregos e nossas condições objetivas de sobrevivência”, defendeu João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). 

Durante sua fala, Stedile elencou as possibilidades de afastamento do presidente na atual conjuntura, entre elas uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) a partir de denúncias que acusam Bolsonaro de crime de responsabilidade, os mais de 30 pedidos de impeachment protocolados na Câmara dos Deputados, e, principalmente, a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Nesta terça (27), o ministro Luís Roberto Barroso, afirmou que deve pautar o processo em questão em breve. Segundo ele, o prazo máximo é de três semanas para que o tema seja alvo de julgamento na Corte.

Para o dirigente do MST, as imagens da reunião ministerial do dia 22 de abril, divulgadas na semana passada, “desnudam a natureza fascista do governo que estamos enfrentando.”

“O governo vive com um desgaste cada vez maior e se isola cada vez mais das forças organizadas na sociedade. A burguesia se afasta de Bolsonaro e quer criar uma alternativa própria, naquilo que está expresso no trio Moro, Maia e Doria”, avalia Stedile. 

:: "Com Bolsonaro, qual a confiança de que a PF vai investigar?", diz viúva de Marielle :: 

"A burguesia econômica, que tem interesse em acumular, se afastou da extrema direita mas não decidiu derrubá-lo. Ela só vai derrubá-lo, quando perceberem que tem unidade em um projeto de direita, excluindo as forças populares. Seja os partidos de esquerda ou os movimentos”, acrescentou, endossando o papel da mídia hegemônica na construção dessa narrativa e a proteção por parte dos militares.

“A força que sustenta o governo, agora, é a tutela militar. São 9 ministros e 2.800 oficiais ocupam o segundo e terceiro escalão. As forças armadas já controlam esse governo”, afirmou.

Na opinião de Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e da Frente Povo Sem Medo, o governo Bolsonaro demonstra, todos os dias, a ausência de qualquer estratégia para combater a covid-19, assim como seus danos socioeconômicos.

Ele citou, por exemplo, a ausência da testagem em massa de casos suspeitos de infecção, um monitoramento epidemiológico adequado, uma política para criação de hospitais de campanha em nível nacional, assim como a não disponibilização de um recurso emergencial digno para a população. 

:: Leia também: Em reunião, Bolsonaro confessa interferência na PF e intenção de "proteger a família" ::

Defendendo uma ampla frente em defesa do afastamento do político, Boulos ressaltou que uma atuação diferente em meio à pandemia por parte do governo seria completamente possível, por meio da execução de programas de proteção ao emprego, medidas de renda básica ampliadas e a ajuda a pequenos comerciantes como uma política de estado. 

“A ausência dessas políticas aprofunda o desespero da população e Bolsonaro joga com isso. A ausência dessas políticas faz com que a crise tome uma dimensão muito maior. É um cenário aberto, indefinido, mas preocupante”, declarou o dirigente.

Para Boulos, “Bolsonaro é um elemento de desorganização no combate ao coronavírus” e as graves consequências econômicas, decorrentes da ausência de políticas emergenciais durante a quarentena, levará o Brasil a um cenário ainda mais desolador.

“É possível, a depender de como as coisas se derem, que tenhamos um cenário de convulsão. E Bolsonaro aposta verdadeiramente nisso. Nós, da esquerda, temos muita dificuldade de canalizar uma revolta como essa para um sentido progressivo. Um cenário que pode ser aproveitado pelo discurso fascista de Bolsonaro para usar como pretexto para convencer setores das Forças Armadas, que de fato são os fiadores de seu governo, a embarcarem em alternativas de Estado de Sítio e Garantias de Lei e Ordem”, alertou a liderança sem-teto.

"A estratégia do Bolsonaro neste momento é a de usar o desespero das pessoas como combustível para seu projeto, que é um projeto fascista. Bolsonaro faz uma aposta calculada e consciente no caos". 

“Eles não”

Carmen Foro, integrante da Central Única dos Trabalhadores (CUT), participou da plenária online e afirmou que a campanha pelo Fora Bolsonaro deve crescer a partir dos próprios erros da gestão, mas é preciso que as forças de esquerda e do campo democrático tenham unidade de atuação nesse momento, em defesa do mesmo programa. 

De acordo com a sindicalista, o repúdio também deve ser dirigido aos ministros do governo, não só ao presidente.

“É importante que tenhamos claro que queremos o fim desse governo. Não é o fim só do Bolsonaro, é o fim do Mourão e de todo o governo, tendo em vista o que vimos naquela reunião de horrores. Está mais claro do que nunca que não podemos achar que alguém desse governo sirva ao povo brasileiro”, disse. 

:: Com 20 militares, Ministério da Saúde pode mudar narrativa da pandemia :: 

Foro reforçou ainda que os movimentos populares potencializem a organização nos municípios e estados, divulgando o máximo possível a Plataforma Emergencial para Enfrentamento da Pandemia do Coronavírus e da Crise Brasileira, que conta com mais de 60 propostas.

A necessidade do contínuo fortalecimento da iniciativa Vamos precisar de todo mundo, criada pelas frentes, e que protagoniza milhares de ações solidárias em todo país, também foi reforçado durante a plenária.

Para Boulos, a doação de alimentos, por exemplo, também é um momento de reconstruir a relação das organizações essenciais e de esquerda com o povo, dando capilaridade à disputa de consciência.

“Mais do que nunca, nesse momento de pandemia, o povo está jogado à sua própria sorte. Nas periferias e nos interiores. Ter ali um braço solidário dos movimentos sociais e de esquerda pode ser a diferença para muita gente entre ter o que comer ou não”. 

:: Brasil de Fato lança página que reúne iniciativas de solidariedade em meio à pandemia :: 

Estratégias

O uso massivo das redes sociais para engrossar e angariar apoiadores para a campanha Fora Bolsonaro foi defendido por Iago Montalvão, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE)

Segundo ele, as ações nas redes podem gerar um impacto real na política brasileira. A exemplo do adiamento do Enem, após ampla mobilização online.

“É uma vitória não só pontual entorno de uma questão da educação, de um processo seletivo, mas uma vitória política. Foi uma vitória da mobilização popular, da juventude, e que devemos levar como exemplo. Quando conseguimos unificar a pauta e ampliar o diálogo, temos capacidade de mobilizar milhões de pessoas e ter vitórias efetivas”, relatou.

Montalvão sublinhou que não deve ser criada uma contradição entre a mobilização virtual e presencial, ainda mais nesse momento de distanciamento social. 

:: Desafios do EaD: como as escolas estaduais estão funcionando durante quarentena ::

Ele também defendeu a ampliação do diálogo com a população durante as ações das redes de solidariedade, assim como a aproximação com influenciadores de opinião, lideranças políticas, artistas e outros setores importantes que podem ecoar a campanha pelas redes sociais.

“Quando fazemos a campanha pelas ações de solidariedade, estamos fazendo o diálogo direto com a população sobre o papel dos movimentos sociais, e, ao mesmo tempo, sobre a inabilidade e incapacidade que o governo tem de promover as políticas necessárias nesse momento para que as pessoas tenham o direito a se isolar", afirmou.

Agenda

Como encaminhamento da plenária, os movimentos reforçaram a articulação pela campanha a favor do impeachment de Bolsonaro a partir de um dia de agitação e propaganda voltado para ações simbólicas, como lambes e artes, mas principalmente ações de divulgação e comunicação nas redes sociais. A data da mobilização virtual é 5 de junho.

Para o dia 13 de junho, também está convocado um ato nacional virtual em defesa do Fora Bolsonaro, que adotará a cor preta, de luto, como simbologia e homenagem às vítimas da covid-19. 
 

Edição: Leandro Melito