o caso chinês

Cooperação e multilateralismo ajudam China a se recuperar, avalia cientista político

Em entrevista ao Brasil de Fato, professor da UFPE Marcos Costa Lima avalia como a China vem se recuperando da pandemia

Brasil de Fato | Recife (PE) |
China foi primeiro epicentro do coronavírus no mundo - Anthony Wallace/AFP

Uma política internacional baseada na cooperação e no multilateralismo. Essa tem sido a principal característica da política internacional adotada pela República Popular da China no combate à pandemia de covid-19 dentro e fora do país. A avaliação é de Marcos Costa Lima, cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Marcos foi o entrevistado dessa terça-feira (26) do programa "Aqui pra Nós", exibido no canal do Brasil de Fato Pernambuco no YouTube.

Marcos é docente do departamento de Ciência Política e coordenador do Instituto de Estudos da Ásia da UFPE. Ao Brasil de Fato, ele explicou como vem se dando a retomada do crescimento econômico da China, que vem superando a pandemia de coronavírus, e como andam as relações do país com o Brasil, a exemplo do comércio feito por meio do Consórcio Nordeste.

O programa "Aqui pra Nós" vai ao ar todas as terças-feiras, às 19h30, no canal do Brasil de Fato Pernambuco no YouTube.

Confira os destaques da conversa.

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Cientista político e professor da UFPE, Marcos Costa Lima (dir.) participou de bate-papo sobre a China, promovido pelo BdF Pernambuco / Reprodução/YouTube

 

História

Para o professor, a crise econômica não é apenas causada pela pandemia, mas tem um aspecto humano, especialmente em relação ao desenvolvimento capitalista e a extração de recursos naturais que são explorados desde a revolução industrial. “O processo chinês vem do século V antes de Cristo. São sociedades antigas, que têm uma outra cultura e que, no século 19, a China sofre muito com as guerras, a invasão europeia”, pontua.

O pesquisador aponta que a tomada de poder por Mao Tsé-Tung abre um capítulo importante na história do país. “Quando a revolução se instaura e é vitoriosa, o maoísmo começa a operar. Há muitos aspectos importantes, como na área da saúde. O exército, conforme se espalhava pelo território, ia distribuindo terra para os camponeses. Mao faz iniciativas voltadas à educação popular, que é quando cai o número de analfabetos e aí a população vai tendo mais saúde e mais expectativa de vida. Claro que nessa história há equívocos, mas com o tempo isso vai sendo superado. No geral, o país avançou em desenvolvimento, infraestrutura, na industrialização. A questão é que o que se observa é que as pessoas acham que a China só se desenvolveu nesse modelo de abertura para o capital, mas é uma posição equivocada”, considera.

Solidariedade internacional e Consórcio Nordeste

No Brasil, o principal fornecedor de equipamentos de proteção individual (EPIs) e respiradores para a região Nordeste é a China. O Consórcio Nordeste vem desde março abrindo frentes como o Comitê Científico e fazendo compras em massa de produtos essenciais para o combate à covid-19. Para além das transações econômicas, é possível analisar essa ação dos governos do Nordeste se aproximando da China como uma movimentação política. 

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Para o professor, o Consórcio Nordeste pode ser atrativo, tendo em vista a desarticulação da política internacional brasileira. “O Brasil entrou numa quadra política insana. Essa rede de governadores é uma resposta à falta de políticas públicas do governo federal para o Nordeste. O exemplo do que os movimentos populares estão fazendo em Pernambuco para dar assistência aos mais pobres deveria ser responsabilidade do governo federal. Por isso, a solidariedade é uma palavra de ordem para todo o povo brasileiro. Além disso, a China ajudou Cuba, Venezuela, Itália, França e vários outros lugares, enviando profissionais para ajudar no combate à covid-19”.

Nova moeda

No fim do mês de março, a China anunciou uma nova moeda. O renminbi ou yuan digital é uma criptomoeda que tem como lastro a moeda corrente chinesa e será controlada pelo Banco Central chinês. A moeda está entrando em cena para competir com o sistema internacional de pagamentos em dólar. 

O renminbi ou yuan digital não é apenas uma medida de evitar a circulação de dinheiro físico, um possível vetor do coronavírus, mas pode reduzir o impacto econômico de sanções ou ameaças de exclusão, tanto ao país quanto às empresas e pode se tornar uma alternativa ao dólar, como aponta Marcos.

“90% dos chineses hoje realizam pagamentos por meios eletrônicos, tudo controlado pelo Estado. A China já vem há alguns anos se protegendo do poderio norte-americano sobre as organizações como a Organização Mundial do Comércio (OMC). Essa moeda pode facilitar as trocas chinesas como compra e venda de petróleo e aço sem passar pelo dólar. É possível isso acontecer e a China já está praticando essa moeda em cinco cidades que tem muito comércio internacional. Ela espera até 2022 otimizar essa moeda nas Olimpíadas de Inverno que vão acontecer no país. Eles estão fazendo com muita cautela, mas a economia interna deles já tem esses mecanismos”, diz.

Xenofobia

Desde o surgimento da pandemia, alguns governantes, incluindo Donald Trump (Estados Unidos) e Jair Bolsonaro, fizeram declarações xenofóbicas em relação à China, atribuindo o coronavírus a um plano chinês de dominação mundial, o que estimulou dezenas de casos de agressão e violência contra a população asiática espalhada em todo o mundo.

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Para Marcos, os ataques evidenciam a falta de entendimento do alto escalão do governo sobre a política externa brasileira. “O Brasil não tem um projeto nacional, a própria reunião ministerial [cujo conteúdo foi divulgado na sexta (22) por decisão do STF] prova isso. Nenhum palavra sobre a covid-19 foi mencionada ali, mesmo neste estado de calamidade. É muito grave. A China é o nosso maior parceiro comercial. Aqui há empresas, portos e áreas de exploração do pré-sal que foram compradas pelo país. Os EUA não tem mais condições de fazer igual a China, porque ela produz muito mais barato. Enquanto isso, Trump afirma que órgãos como Organização Mundial da Saúde (OMS) são marionetes da China. Bolsonaro faz coro ao Trump com essas declarações, com o incentivo à cloroquina [para o tratamento de covid-19], sendo que as instituições internacionais já condenaram isso. É um tiro no pé o que estão fazendo, porque os países estão percebendo que eles estão se fechando” alerta.

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Vacinas

O presidente chinês, Xi Jinping, prometeu disponibilizar mundialmente qualquer vacina contra o coronavírus assim que desenvolvida, já que cinco testes estão avançando no país. O apoio total de Xi à OMS contrasta com a iniciativa dos governos Trump e Bolsonaro de suspender o financiamento para organismos de saúde global e o não financiamento de pesquisas para encontrar a cura para a doença “Trump tentou fazer um acordo com uma empresa alemã que está fazendo um remédio que pode curar a covid-19 e ele disse que só será produzido para os EUA. Essa é a América para os americanos”.

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Para além das questões relacionadas à cura do coronavírus, o professor explica que a política chinesa é de cooperação internacional. “A política externa chinesa que vem sendo estabelecida desde década de 1980 é de respeito internacional. Eles cometeram um erro com a invasão do Tibet, mas de forma geral a política internacional chinesa é de cooperação e do multilateralismo”, avalia.

Ressaltando os investimentos no desenvolvimento científico e nas medidas de apoio a população chinesa com as restrições adotadas para combater o coronavírus, o pesquisador critica a ação estadunidense. “Os EUA gastam 719 bilhões de dólares em armamento e isso implica em deixar de investir em coisas estruturais como saúde, alimentação, emprego, que é o que a população realmente necessita”, destaca.

Fonte: BdF Pernambuco

Edição: Marcos Barbosa e Vivian Fernandes