OPINIÃO

Artigo | Pela esperança e por um jornalismo plural

"Os tempos de agora mostram que o desafio é muito maior do que na época em que comecei meus passos na redação do JC"

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Com uma longa militância no movimento negro, sendo uma das primeiras mulheres negras nas redações gaúchas, vera Daisy hoje é presidenta do Sindjors | Crédito: Claudio Fachel

A entrevista concedida ao Brasil de Fato/RS marcou lembranças com o início da minha carreira, como repórter, no Jornal do Comércio, meu primeiro emprego no começo da década de 1970. Um local que tinha à frente o comando de Zaida Jayme Jarros que acompanhava com muita energia e competência as atividades da redação, demarcando a presença feminina num ambiente dominado pelos homens.

Lembro da elegância do caminhar marcado pelos seus escarpins pretos, óculos da moda e jóias. Na equipe de então, jornalistas tiveram papel fundamental na vida da repórter iniciante que cobria pautas do setor das editorias de Educação e Geral, lembrando de Paulo Poli, falecido, entre outros.

Na longa reportagem foi destacado o fato de ser eu a primeira negra a ocupar a presidência do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul – Sindjors numa história de 78 anos. Trabalho de intenso compromisso e responsabilidade dividido com o grupo de diretores/as em tempos de pandemia da Covid-19 e de múltiplas ações no teletrabalho nestes seis meses de confinamento.

Para além da vida sindical, sou militante do movimento feminista das mulheres negras. Ativismo que me oportunizou linkar, com maior conhecimento, o Jornalismo com a identificação do racismo e a discriminação de gênero. Dinâmicas que intensificaram a descoberta do lugar ocupado pelas mulheres e, em especial, as pretas e pardas no mundo da comunicação com pesquisas indicando que somos poucas nas redações. E como "fontes" o fenômeno se repete na identificação da ausência de protagonismo das mulheres na maioria das notícias e reportagens. O domínio é masculino, um fato que atesta, se bem observado, a naturalização do sexismo e, igualmente, do racismo, presentes na sociedade brasileira.

Por fim, é preciso reafirmar o compromisso ético que tenho com a profissão. Jornalismo, uma ação "política" – não confundir com política partidária – que venho exercendo há 49 anos. Instigando colegas, desde o tempo que participava das assembleias feitas nas redações, de que direitos trabalhistas se conquistam com luta e resistência. Os tempos de agora mostram que o desafio é muito maior do que na época em que comecei meus passos na redação do JC na avenida João Pessoa. Mas sou movida pela esperança e confiança naqueles que estão comigo na direção do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS, que é possível, mesmo nestes tempos difíceis, fazermos transformações. Algumas, em um ano, já conseguimos, mas queremos mais!

* Vera Daisy Barcellos é presidenta do Sindicato dos Jornalistas/RS

Editado por: Jornal do Comércio

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