LUZES DA CIDADE

Sonhos não envelhecem

Miniconto de Otto Leopoldo Winck, autor de 'Que fim levaram todas as flores'

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“Além disso nem sequer gozara de um simulacro de felicidade” | Crédito: Arte: Vanda Moraes

Arqueado pelo peso dos anos e desenganos, ele entrou naquele bar onde um garoto franzino, de violão surrado, tocava velhas e novas canções. Aí ele pensou na vida, isto é, se valera a pena a sua vida. Nenhum de seus sonhos se realizara: não se tornara escritor, não mudara o mundo, nem mesmo o seu mundo, que afinal se tornara tão parecido com o de seus pais… Além disso nem sequer gozara de um simulacro de felicidade, muitas vezes trabalhando em ofícios detestáveis, aguentando pessoas mesquinhas, sendo mesquinho também… Vai ver a vida é isso mesmo: no final a gente sempre perde. Então, de repente, o garoto franzino começou a tocar “Clube da esquina nº 2” e ele se lembrou que tinha cerca de 18 anos quando ouviu aquela canção pela primeira vez, justamente quando, com uma mochila nas costas cheia de livros e sonhos, caiu na estrada. “Porque se chamava homem / também se chamavam sonhos / e sonhos não envelhecem…” Pediu mais uma cerveja, com uma dosezinha de conhaque ordinário. Sorriu e meio besta se viu enxugando uma lágrima furtiva. Pensou: se escrevo isso não vai passar de uma narrativazinha piegas. Mas dane-se, a vida é piegas e sonhos não envelhecem

 

Editado por: Pedro Carrano

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