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O perigo do caudilhismo

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Lideranças que não aceitam mais a pressão dos controles coletivos são destrutivas, desmoralizadoras e, finalmente, tóxicas - Fotos Públicas
Podemos ser melhor do que isso

"A ignorância força-nos a fazer duas vezes o mesmo caminho. A lição dos exemplos instrui mais que a dos preceitos. A dignidade proíbe o que a lei permite." (Sabedoria popular portuguesa)

Precisamos conversar sobre a militância e o tema da superliderança ou caudilhismo. Em todo processo de organização existe o perigo de que a autoridade das figuras públicas, em especial, parlamentares com mandato, mas não só, se agigante ao ponto de inibir, diminuir, ou até substituir a necessidade da construção da organização coletiva.

Ninguém se faz a si próprio sozinho. Construir dirigentes é um longo processo de formação de quadros. Mas formar lideranças públicas é muito importante e muito difícil. Há dois perigos extremos simétricos. O maravilhamento bajulador e a desconfiança paranoica.

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Em qualquer organismo de coordenação de militância é necessária uma divisão de tarefas. Ela deve respeitar variados critérios e perseguir diferentes objetivos. Um deles é a formação de especialistas. Ninguém tem máximo desempenho em todas as tarefas.

Alguns são organizadores que mantém constância e perseverança, outros são condutores de equipes que sabem cultivar a coesão entre os quadros. Alguns são inteligentes formuladores políticos, outros são hábeis propagandistas, etc. Todos têm o seu lugar. Mas não é verdade que todas as tarefas de direção na esquerda são equivalentes. Algumas são mais complexas. Entre elas, mas não só, as figuras públicas.

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A formação de figuras públicas é um tipo de especialização simbólica. Ser porta-voz é oferecer seu corpo, seu coração, sua mente e sua voz para encarnar um projeto coletivo.

Não é fácil ser um símbolo e manter a autenticidade. Ninguém entre nós é um ser humano perfeito. Mas a figura pública está sob permanente escrutínio. Está sendo julgada pelo que fez e não fez. Um erro seu não compromete somente a ela. Pode prejudicar a causa que ela representa.

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A representação pública de uma organização é, portanto, uma responsabilidade imensa. Tem peso avassalador. Exige um grau de entrega e doação à causa coletiva que tem, na dimensão pessoal da vida, um peso devastador.

Não compreender o desgaste do papel das figuras públicas, em especial quando são chamados à luta eleitoral, é superficial. Relações honestas entre os quadros dirigentes são indispensáveis para que a solidariedade humana seja respeitada.

Mas existem os perigos profissionais das figuras públicas em organizações de trabalhadores e oprimidos. Eles são, principalmente, três, e todos têm relação com a ilusão de grandeza ou ambição. Adaptação, corrupção e estrelismo.

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O perigo da adaptação decorre da intimidade com os representantes dos inimigos de classe. O perigo da corrupção decorre das pressões de classe. O perigo do estrelismo decorre da ilusão de ótica sobre seu papel.

Proteger a figura pública das pressões hostis e, às vezes, de si mesma, não deve ser uma responsabilidade somente daqueles que escolhemos para esta tarefa. Trata-se de uma responsabilidade coletiva. Uma organização saudável não lança um camarada “às feras”, e depois terceiriza a responsabilidade. Ao contrário, compartilha.

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Esse perigo passa a ser maior quando estamos em uma situação defensiva. Porque, quando estamos em uma situação defensiva, as organizações de esquerda perdem capacidade de atração e enfraquecem. Quando a possibilidade de alcançar vitórias é mais difícil, é menor, também, a disposição de uma militância que aposta em um futuro incerto.

Quando a lembrança de derrotas recentes é muito maior que a expectativa de triunfos futuros perseveram os mais firmes. Não são muitos.

O papel das lideranças, inevitavelmente, aumenta, e a pressão do estrelismo, também. A resistência nos locais de trabalho e moradia, de estudo e convivência assume uma forma molecular e quase invisível.

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O funcionamento coletivo para tomar decisões é sempre mais lento. A projeção dos dirigentes nas mídias assume mais protagonismo, a pressão da resposta rápida estimula as aventuras em voos solo. A urgência substitui a paciência.

O prestígio dos porta-vozes cresce à custa do trabalho em equipe, e culmina com a marginalização dos organismos. A fama alcançada por um dos nossos pode ser um instrumento ao serviço do projeto da organização.

Mas a reputação que vira celebridade pode, também, ser uma vitória que se transforma em derrota. Lideranças que não aceitam mais a pressão dos controles coletivos são destrutivas, desmoralizadoras e, finalmente, tóxicas.

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Mas o mais grave é o sacrifício da estratégia à tática. Uma organização de esquerda sem uma estratégia política é uma barco sem bússola. A estratégia que perseguimos responde à questão central da luta pelo poder, e deve obedecer a um critério de classe.

Não adianta chegar ao poder sacrificando o programa. O poder pelo poder, se não está amparado na mobilização e organização dos trabalhadores e do povo, é uma armadilha.

As táticas não são um fim em si mesmas. As táticas, quando não estão orientadas a uma estratégia, reduzem uma organização de esquerda a um imediatismo perigoso e estéril.

Podemos ser melhores do que isso.

*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Leandro Melito