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Artigo | Um olhar sobre o Cruzeiro para os próximos 100 anos

Livro com vários autores vai abordar a relação entre o Cruzeiro e o povo mineiro

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG) |
 Taça Brasil de 1966
Foto do primeiro título nacional: a Taça Brasil de 1966 - Créditos de foto: Arquivo Cruzeiro

Este ano de centenário contaremos várias histórias em livro, mas não um livro qualquer. Um material fruto de pesquisas e análises empíricas na relação entre torcedores/as e a sua paixão: o Cruzeiro.

Não se trata de algo meramente contemplativo, como são as paixões narradas em romances, mas um sentimento que ajudou a forjar a própria identidade de quem ama, o seu torcedor e, consequentemente, do povo mineiro. Essa relação dialética entre o Cruzeiro e o povo mineiro é algo em processo e constante modificação no que tange a sua forma de interação com o mundo.

Ao longo da história, o/a cruzeirense já foi o imigrante italiano, que vindo do interior com a dificuldade de se fixar na terra, em razão da estrutura latifundiária do país e a crise do ouro, com a consequente transferência da capital de Minas Gerais de Ouro Preto, chega para construir a nova capital Belo Horizonte.

Uma boa parte dos servidores públicos chega da antiga capital para se situarem na região Centro-Sul de BH, onde foi deslocada a sede administrativa do estado, em bairros mais nobres à época, que ficaram conhecidos como bairro Funcionários, região da Savassi, etc. Inclusive, nessa região, no bairro de Lourdes, está situada a sede do maior rival na capital.

Enquanto isso, a mão de obra decorrente do interior, seja de imigrantes ou de negros empobrecidos, atuava na construção civil para colocar Belo Horizonte de pé e foi se situando em áreas mais afastadas. Com o passar dos anos, e a não recepção dessa parcela da população nos espaços sociais já estabelecidos na capital, viu-se a necessidade de se criar um clube que recebesse a comunidade italiana, majoritária na capital àquela época, na região do Barro Preto, área um pouco mais afastada do centro administrativo. 

O cruzeirense também já foi o trabalhador braçal que, em 1923, sem qualquer ajuda do poder público, diferentemente dos outros clubes da capital, ajudou a erguer o seu próprio estádio no Barro Preto. O Estádio no Barro Preto, que tempos mais tarde se chamaria Estádio Juscelino Kubitscheck, sediava os jogos com a maior média de público da capital mineira até a construção do Independência.

Na década de 1940, a perseguição à colônia italiana era tamanha, que grupos tentaram incendiar o estádio, mas foram repelidos à época, sobretudo pela ação defensiva do povo palestrino das redondezas.

Tem também o caipira, o matuto ou o mero morador do interior, que acompanhava o Cruzeiro no radinho de pilha e, sobretudo, após a fundação do Mineirão, vai visitar a capital para ver o seu time jogar naquele grandioso estádio. Ir a BH passava a ser um animado programa de família.  

Não se pode esquecer das mulheres cruzeirenses, que se tornaram milhões de apaixonadas por todo o Estado. Essas, chamadas por alguns, pejorativamente, de Marias, para nós é mero substantivo de luta, de raça, de gana e de sonho sempre, referenciada na música de Milton Nascimento, todas as mulheres que passam a se interessar por futebol e lutam por reconhecimento e participação em um esporte que jamais deveria ter sido privilégio de homens.

O crescimento da torcida cruzeirense é proporcional ao interesse e participação das mulheres na própria esfera social e esse é um dos motivos pelo qual a torcida se massificou enquanto China Azul.

Hoje somos milhões que querem participar, cada vez mais, dos rumos do próprio Cruzeiro, até porque ele não é mais aquela pequena associação de imigrantes da capital em construção. Hoje, ele é patrimônio material e imaterial do povo mineiro, pois se manifesta desportivamente e, muito além disso, tem forte papel cultural construtor de subjetividades no meio familiar e identidades populares que também devem influenciar na sua própria transformação.

O Cruzeiro do século XXI é negro, é branco, é indígena, é católico, é do candomblé, é mulher, é homem, é pobre, é rico, é gay, é hétero, é trans, é cantor ou é camelô, é da roça e da cidade, é de Belo Horizonte ou de Piumhi, é de Minas Gerais, é do Brasil e é do Mundo.    

Todas essas formas vivas de manifestação do que é ser Cruzeiro têm o papel, e devem ter o protagonismo, de refundar o Cruzeiro dos próximos 100 anos.   

Dia 02 de janeiro de 2021, o dia do centenário.

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Fonte: BdF Minas Gerais

Edição: Camila Maciel e Elis Almeida