Vacina

Com Sputnik V, Argentina tem maior número de pessoas vacinadas na América Latina

O país imunizou de forma voluntária mais de 107 mil pessoas com a vacina russa, alvo de campanha de descrédito

Buenos Aires, Argentina |
As primeiras 300 mil doses da Sputnik V chegaram no dia 24 de dezembro na Argentina - Casa Rosada

A Argentina foi um dos primeiros países a iniciar a vacinação de sua população contra a covid-19 com a Sputnik V, vacina desenvolvida na Rússia. 107.542 mil trabalhadores da saúde já foram vacinados, segundo anúncio do governo argentino. O plano estratégico de vacinação começou a ser colocado em prática no dia 29 de dezembro, quando as 24 províncias do país sul-americano receberam doses da vacina proporcionais à população.

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Além do contrato com o Fundo Soberano da Federação Russa, a Argentina tem contratos para vacinas contra a covid-19 com a Universidade de Oxford e com a aliança internacional Covax.

De acordo com o monitoramento do Our World in Data, o país sul-americano está entre as 30 nações que mais imunizaram sua população por milhão de habitantes.

 

Segundo o Registro Federal de Vacinação do país, foram registrados 1.088 casos de efeitos colaterais em todo o país, de nível moderado ou leve, dentro do esperado, entre eles: dor de cabeça, sonolência, dor muscular ou reação local leve, que duram menos de 24 horas.

O governo estima que 24 milhões de pessoas serão vacinadas, de acordo com o quadro estipulado, iniciando a vacinação pelos grupos prioritários do país. O primeiro grupo imunizado são os trabalhadores da saúde. Essa etapa está em andamento e, quando concluída, alcançará cerca de 763 mil pessoas.

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A segunda e a terceira fase serão destinadas a idosos; a quarta, às Forças Armadas, demais forças de segurança e serviços penitenciários; a quinta, a pessoas com fatores de risco, como diabetes e doenças respiratórias; a seguinte, a profissionais da educação; e a última etapa imunizará populações estratégicas, como moradores de favelas, pessoas em situação de rua, povos originários, pessoas privadas de liberdade e migrantes.
 

Campanha de descrédito contra a Sputnik V

O chefe do gabinete de ministros, Santiago Cafiero, comemorou a marca de pessoas imunizadas, alcançada em 8 de janeiro, como uma grande conquista após os 10 dias do início do plano de vacinação do país. Como contraponto, criticou os "que se dedicam a desinformar", referindo-se aos governos que apostaram no negacionismo para lidar com a crise econômica e social gerada pela pandemia, como Brasil e Estados Unidos.

 

 

A desinformação atinge ainda a produção das vacinas contra a covid-19. Em meio a uma corrida de indústrias farmacêuticas pela fixação de preço e a consequente guerra geopolítica, houve uma forte campanha internacional de descrédito contra vacinas produzidas pela China e pela Rússia, com um tratamento midiático visivelmente diferente de outras vacinas de países desenvolvidos como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha.

As desconfianças instaladas questionam a suposta falta de publicação de resultados em revistas científicas e a rapidez do avanço das pesquisas, o que despertaria uma ideia de uma vacina insegura. A narrativa e as dúvidas despertadas sobre a vacina russa são mais frequentes do que as informações sobre as publicações dos resultados de pesquisas da Sputnik V na revista científica The Lancet e no fato de a Rússia ser um país de destaque em produção de vacinas com a tecnologia de vetor adenoviral, como a Sputnik V.

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A Sputnik V é a primeira e aparentemente única vacina contra o novo coronavírus a ter uma conta de Twitter própria e um site. Ambos canais destacam que a vacina russa contra covid-19 foi a primeira a ser registrada no mundo, e que possui 91,4% de eficácia. Além disso, em ambas ferramentas de comunicação discorre-se sobre as estratégias da mídia ocidental em cultivar a boa imagem dos laboratórios monopólicos da indústria farmacêutica e difamar sua concorrência.

No dia 16 de dezembro, a conta da Sputnik V no Twitter compartilhou uma matéria da NBC News sobre um caso que ficou pouco conhecido: uma trabalhadora da saúde no Alasca foi hospitalizada ao ter uma reação alérgica grave à vacina da Pfizer/BioNTech (EUA/Alemanha). Então, os administradores da conta russa questionaram: "como a mídia ocidental reagiria se fosse com a Sputnik V?"

O próprio presidente Alberto Fernández destacou que o Centro Nacional Gamaleya de Epidemiologia e Microbiologia, que desenvolveu a Sputnik V, conta com cientistas ganhadores do Prêmio Nobel em seu corpo de profissionais. "Estão gerando muitas dúvidas sobre a comunidade científica russa. Mas não temos a menor dúvida de que estamos recebendo uma vacina segura e eficiente."

O mandatário argentino afirmou, nessa mesma conferência, que seria a primeira pessoa a ser vacinada. No entanto, isso não foi possível já que a Rússia ainda não havia autorizado a aplicação a maiores de 60 anos. A etapa correspondente da pesquisa já foi concluída e a Sputnik V já está autorizada para aplicação em idosos.
 

Vacinas e a disputa geopolítica

"Para entender o que está acontecendo com as vacinas, é preciso considerar esses três níveis: a luta farmacêutica, o conflito geopolítico e as patentes", aponta Jorge Rachid, médico sanitarista e assessor do governador de Buenos Aires, Axel Kicillof.

"Todas as vacinas são desenvolvidas por instituições mundialmente reconhecidas e são confiáveis. Nenhuma relatou reações adversas além das naturais, como podem ter o ibuprofeno ou paracetamol de forma prolongada. De fato, a vacina tem muito menos efeitos nocivos que qualquer um desses medicamentos", diz o especialista.

Rachid também ressalta que a publicação em revistas científicas não é um fator necessário para a autorização do uso das vacinas pelos governos – e que, inclusive, a Moderna não publicou seus resultados ao ser autorizada nos Estados Unidos para uso emergencial. "Todas as dúvidas que emergem são instaladas pelos setores que não querem deixar outros jogadores, como Rússia e China, entrarem na disputa geopolítica", pontua.

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"Não tenho dúvida de que as vacinas mais confiáveis são as pesquisadas e produzidas por laboratórios públicos, como Cuba e Rússia, que não têm a pressão do capital de lançar um produto e tirar a maior quantidade de dinheiro possível dele", avalia Ángeles Maestro, técnica superior de saúde pública e ex-porta-voz de saúde no Congresso da Espanha.

Inicialmente, a Sputnik V cobrirá o plano de vacinação da Argentina até março. Após essa data, o governo espera já poder receber e aplicar a vacina da Oxford/AstraZeneca, que utiliza o mesmo método tradicional de vacinas que a Sputnik V.

A Argentina firmou um acordo com a Pfizer para testar e produzir a vacina em território nacional, com um preço competitivo em relação a outras vacinas, porém, o contrato não pôde ser firmado já que, segundo o ministro da Saúde Ginés González, aparentemente, há um problema de disponibilidade da vacina.

Na semana passada, a empresa farmacêutica União Química difundiu sua pretensão de produzir a Sputnik V no Brasil "o mais rápido possível". A Sputnik V também será distribuída na Bolívia ainda este mês, com o contrato para uso emergencial firmado entre os países no dia 6 de janeiro. O México avalia também receber a vacina russa para imunizar sua população.

Edição: Luiza Mançano