Cuidados

Um ano de pandemia da covid-19: respostas para tantas dúvidas que ainda restam

Alexandre Padilha responde perguntas sobre como combater o novo coronavírus e ficar longe da covid-19

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Cruzes no centro da Capital gaúcha lembraram as vítimas da covid-19 - Foto: Igor Sperotto

Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu oficialmente a pandemia causada pelo novo coronavírus. Eram, então, 118 mil casos da doença causada pelo vírus, a covid-19, em 114 países. E 4.291 óbitos.

Passado um ano, já são mais de 100 milhões de adoecidos em todo o mundo e as mortes somam 2,6 milhões, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos.

No Brasil, a doença cresce de forma exponencial, com o segundo lugar em número de óbitos no planeta. Passam de 11 milhões os casos de covid-19 e de 270 mil os mortos nesse aniversário macabro. Só os Estados Unidos perderam mais vidas para a covid-19: 525,2 mil pessoas. A velocidade das mortes, no entanto, cai entre os norte-americanos. Enquanto que por aqui se mantém em curva de alta.

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Ou seja, tanto tempo e conhecimento acumulado sobre o assunto ainda não serviram para reduzir a força e a letalidade do vírus no Brasil. O país padece sob um governo que nega o conhecimento científico e retarda a vacinação da população. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) exerce influência sob parte do povo ao ignorar o uso de máscara e incentivar aglomerações, o oposto do que determinam as autoridades de saúde. E esses que ainda o ouvem ajudam a espalhar a doença.

Tire dúvidas sobre a covid-19

Para tentar colaborar com esclarecimentos diante do descaso presidencial, a RBA inicia uma série de perguntas e respostas sobre a covid-19. Você pode participar enviando questões para [email protected] O médico Alexandre Padilha responderá as dúvidas.

Professor universitário e deputado federal (PT-SP), Padilha foi ministro da Coordenação Política no governo Luiz Inácio Lula da Silva, e da Saúde na gestão de Dilma Rousseff. Também esteve à frente da Secretaria de Saúde na administração de Fernando Haddad, na cidade de São Paulo. Pós-graduado em Infectologia, o ex-ministro integra a Comissão Externa de Covid da Câmara dos Deputados.

“O Brasil precisa acelerar ao máximo a vacinação. Não podemos aceitar esse ritmo lento do governo federal. Precisamos restringir as aglomerações e a circulação nas cidades para termos menos casos”, alerta o médico.

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Com o que se sabe sobre as variantes do novo coronavírus é possível afirmar que as vacinas darão conta de controlar a pandemia?

O que se sabe até o momento é que quanto mais lenta a vacinação, maior o risco de expandir essas variantes que infectam mais, que transmitem mais rápido, que podem acometer mais jovens. E que podem ter relação com gravidade. Ou seja, quanto mais rápido vacinarmos e quanto menos casos tivermos, menor o risco do crescimento das variantes e do surgimento de uma variante que a vacina não tenha eficácia nenhuma.

Diante dessas variantes, algo mudou nas principais orientações de segurança? É preciso fazer algo mais além de usar máscara, higienizar sempre as mãos e evitar aglomerações?

O Brasil tem uma combinação de uma tempestade perfeita. De um lado, há o estímulo à aglomeração, que parte inclusive do presidente da República; e a vacinação é muito lenta. De outro, há o surgimento de muitas variantes com poder de transmissão maior, que geram quantidade de vírus maior no corpo da pessoa. Por isso, neste momento, individualmente, as novas variantes exigem da gente cuidado ainda maior em relação ao uso da máscara, higienização e distanciamento social.

O que o Brasil precisa fazer para sair do topo na lista de adoecidos e mortos pela covid-19? Além de vacina para todos, é necessário o lockdown?

O Brasil é muito heterogêneo, diverso. O ritmo de circulação das variantes é diferente em cada região. A capacidade de atendimento também. Então, duas medidas enérgicas têm de ser adotadas. Primeiro: tudo para acelerar a vacinação. Bolsonaro precisa sancionar as leis que já aprovamos no Congresso Nacional que obrigam o governo federal a dar vacina para todos.

Precisamos pressionar para isso, para obrigar a comprar as vacinas oferecidas ou autorizar que estados e municípios comprem. Segundo: o fechamento da circulação nas cidades e regiões de Saúde com mais de 75% dos leitos de UTI ocupados pela covid-19. Essa ação precisa ser rápida e enérgica para a redução do número de casos. Ou teremos vários colapsos desses sistemas de saúde e o surgimento e multiplicação de variantes mais graves.

Quais as perspectivas do Programa Nacional de Imunização (PNI) em relação à covid-19? Existe alguma possibilidade de os brasileiros serem todos vacinados este ano?

Se depender das atitudes e dos obstáculos do governo, o PNI não irá vacinar todos os brasileiros este ano. Acredito até que Bolsonaro aposta nisso. Quer vacinar poucas pessoas para que os brasileiros continuem inseguros de sair para a rua. E também porque defende a abertura de um mercado privado de vacinas. O atual plano operacional de vacinação é ridículo, uma vergonha em relação à tradição do Programa Nacional de Imunização do Brasil.

O atual plano operacional de vacinação é ridículo, uma vergonha em relação à tradição do Programa Nacional de Imunização do Brasil

É perigoso viajar de avião? Existe alguma maneira considera mais segura para viajar?

Devemos evitar qualquer viagem neste momento. Seja de avião, de carro. Isso porque quando você viaja, se expõe a contato com outras pessoas e a situações em que você não tem controle. Por exemplo: hotel, casa de outras pessoas, pousada, você não sabe como foram os cuidados para fazer aquela alimentação.

De carro, pode ter uma parada no meio do caminho, abastecer, comer alguma coisa sem saber os cuidados tomados. Não é momento de viajar, passeio, férias, passar fim de semana na praia, pois isso é se expor, e coloca em risco a sua vida. Porque se você se infectar hoje, dificilmente terá um leito de UTI disponível, seja na rede pública ou privada, e ainda vai expor pessoas que você ama. Além disso, aumenta a pressão sobre os serviços de saúde: cada novo infectado é um leito a menos, profissionais de saúde mais expostos, com mais carga de trabalho.

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Agora, se você é obrigado a viajar por conta de trabalho, só faça viagens curtas. Quanto menor o tempo no avião, menor o risco. E utilize máscara apropriada. Enquanto não temos informação segura sobre as novas variantes, defendo o uso de máscaras mais apropriadas (tipo N95) quando estiver dentro da cabine de um avião, em local fechado para circulação.

É preciso usar duas máscaras? Em qual situação?

Use sempre máscara, inclusive as máscaras de pano, desde que bem utilizadas. Quanto mais gente usar, elas têm um poder muito importante. Se você estiver infectado, ou a outra pessoa estiver infectada e usando máscara, reduz muito a quantidade de vírus que se espalha. Se todo mundo usar máscara vamos reduzir muito o nível de transmissão.

Agora, se vai se expor a locais com alto risco de transmissão, como hospitais, unidades de saúde, use as máscaras cirúrgicas, hospitalares, as N95, PFF2. São máscaras que proporcionam mais proteção. Não recomendo o uso de duas ou três máscaras. Muitas vezes a utilização de mais de uma máscara ao mesmo tempo pode ser mais difícil de colocar, a pessoa manipula demais e aumenta o risco de contaminação.

Quem já teve covid-19 pode pegar de novo? E pode continuar transmitindo mesmo tendo sarado da doença?

Sim, quem já teve covid-19 pode ter reinfecção. São inúmeros os relatos de reinfecção. E sobretudo aparentemente aumenta o risco de reinfecção com essas novas variantes que surgiram no Brasil. Isso pode ser um dos motivos do crescimento importante de casos e colapsos duas vezes na mesma cidade, como aconteceu em Manaus.

É bem possível que as novas variantes tenham capacidade ainda maior de driblar anticorpos que já tinha e reinfectar as pessoas. E quem já teve covid-19 pode se reinfectar, ficar com quadro assintomático e estar transmitindo para outras pessoas. Então, quem já teve covid uma vez pode se reinfectar e pode ser um transmissor para outras pessoas.

Quem já tomou vacina pode continuar transmitindo o vírus mesmo não tendo covid-19?

As vacinas têm se mostrado extremamente eficazes para evitar mortes, internações, casos graves. Isso por si só já é motivo para você se vacinar quando puder, para que todo mundo se vacine. Elas vão ter um impacto muito positivo.

Dados de São Paulo já mostram redução de 70% nos óbitos de pessoas com mais de 90 anos pelo fato de ter expandido a vacinação nesse público. Lembrando que nenhuma das vacinas se mostrou 100% eficaz para bloquear a transmissão. Então, a pessoa que toma vacina pode sim se infectar pela covid-19.

::Por que a população deve tomar duas doses da vacina contra a covid-19?::

O fato de tomar vacina não é motivo para relaxar nas preocupações, no uso de máscara, nas atividades de precaução em relação à covid. Mesmo vacinado você pode se infectar. O risco é menor do que se você não estiver vacinado, mas mesmo vacinado você pode se infectar. E se você pode se infectar, pode transmitir para outras pessoas. Uma coisa importante é que as pessoas podem se infectar e transmitir mesmo estando assintomática.

Quando se pode considerar que uma pandemia está superada? É possível saber quando isso ocorrerá em relação ao novo coronavírus?

Uma pandemia é quando uma doença que acontece numa região do mundo acomete mais de dois continentes de forma sustentada. Toda vez que isso acontece, a OMS declara essa doença como uma pandemia. Ou seja, a pandemia da covid-19 só vai acabar quando a gente reduzir, quando a gente não tiver novos casos surgindo em mais de um continente no mundo. Lembrando a pandemia da H1N1, ela foi considerada pandemia durante 14 meses. De junho de 2009 a agosto de 2010.

Acredito que a pandemia da covid-19 continuará sendo declarada como pandemia pelo menos até o final do primeiro semestre de 2022. Isso pode se agravar caso as novas variantes que estão surgindo venham a inibir a ação das vacinas. Isso pode fazer com que essa pandemia se perpetue e passe a ser uma doença endêmica, presente, comum em vários continentes. Por exemplo, a pandemia do HIV-Aids. Foi a última pandemia do século 20. Ela continua até hoje, classificada como pandemia de forma endêmica no mundo.

A dengue é uma endemia que acomete o sudeste asiático, região dos trópicos nas Américas, África. Passou a ser considerada uma doença endêmica no mundo. Então acredito que teremos até o primeiro semestre de 2022 uma situação crítica de muita preocupação em todo o mundo e com restrição de circulação, fechamento das cidades enquanto não tivemos um grau de vacinação que garanta a segurança da população.

Quem trabalha em escritório com ar-condicionado central (prédio comercial) tem risco de contrair covid-19 mesmo observando a capacidade mínima de ocupação? Quais medidas adotar para diminuir os riscos?

Sim, o risco de contrair covid no ambiente fechado está presente o tempo todo. Toda vez que tiver contato com outras pessoas está sob risco de contrair a covid-19, em particular na situação crítica que estamos vivendo.

Devem ser fechadas todas as atividades não essenciais de toda região de saúde que tenha mais de 75% dos leitos ocupados por covid-19

Quero reforçar que defendo que, em toda região de saúde que tenha mais de 75% dos leitos ocupados por covid-19, devem ser fechadas todas as atividades não essenciais. Deveriam estar abertos apenas funcionamento de escritório de atividades essenciais. Mais importante é garantir circulação de ar num espaço como esse, ampliar fortemente o distanciamento.

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Muito cuidado e preocupação com as copas, onde todo mundo vai comer, tira a máscara. Esse é um local a ser evitado. Não deve existir uma copa como essa num momento como esse em nenhum escritório, em qualquer ambiente de trabalho. Ao contrário, deve se estimular que se as pessoas forem tirar a máscara para comer, o façam em um ambiente aberto e não fechado.

O uso correto da máscara dentro do elevador protege contra eventuais aerossóis deixados por outra pessoa que acabou de sair dele?

Sim. Ninguém deve estar sem máscara em qualquer ambiente de uso coletivo. Não só elevador, corredores, sala de espera, hall de espera do elevador. São locais extremamente arriscados de contaminação de uma pessoa para outra. E essas novas variantes têm poder maior de transmissão, isso está documentado. Elas podem aumentar a presença e a quantidade vírus em aerossóis (tosses, espirro, ato de falar). E com isso, esses espaços, seja elevador, corredor de compartilhamento no prédio, hall, academia, são sempre extremamente arriscados de se contrair a covid-19. Então, deve ser obrigatório uso de máscara em qualquer ambiente coletivo no prédio, nos condomínios em geral.