RESPONSABILIZAÇÃO

Ouvidoria do Equador denuncia Lenín Moreno por crimes de lesa-humanidade

Mandatário é acusado de violações aos direitos humanos durante estado de exceção decretado em outubro de 2019 no país

Presidente equatoriano Lenín Moreno durante discurso na Assembleia Geral da ONU em setembro
Presidente equatoriano Lenín Moreno durante discurso na Assembleia Geral da ONU em setembro | Crédito: Bryan R. Smith / AFP

A Defensoria do Povo do Equador, ouvidoria nacional que investiga violações aos direitos humanos no país, divulgou, na última quarta-feira (17), um relatório sobre o Estado de Sítio de outubro de 2019 em que acusa o governo de Lenin Moreno de crimes de lesa-humanidade.

Segundo levantamento da Comissão da Verdade instituída há dois anos para investigar denúncias de abuso policial, o presidente é responsável pelas violações aos direitos humanos ocorridas durante 11 dias de estado de exceção, decretados depois dos protestos que condenavam o aumento do preço do combustível.

:: Relembre: Equador decreta estado de exceção em meio a protestos contra aumento dos combustíveis ::

Mediante um decreto presidencial, Moreno suspendeu todos os subsídios aos combustíveis, gerando um aumento imediato de 123% ao consumidor, que teve impacto no preço das passagens de ônibus e da cesta básica alimentar. A medida seria uma exigência do Fundo Monetário Internacional (FMI) para oferecer um empréstimo de US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 20 bilhões) ao país.

Sybel Martínez, presidenta da comissão, afirma que o direito à livre manifestação não foi garantido. O documento de 272 páginas detalha as denúncias de violência sexual, lesões oculares e execuções extrajudiciais contra os manifestantes.

"Temos informação e indícios suficientes que provam que houve violência generalizada contra a população", indica.


Defensor do Povo, Freddy Carrion declarou que o presidente e seus ministros de governo e defesa são responsáveis pelas violações aos direitos humanos durante os protestos de 2019 / Reprodução / Twitter

Segundo o levantamento, houve 123 violações à integridade física, 38 violações ao direito de liberdade, 22 atentados contra o direito à vida, 20 lesões oculares, seis execuções extrajudiciais e três casos de violência sexual.

O relatório ainda indica que 81 pessoas permanecem com danos psicológicos e 22 alegam ser perseguidas politicamente.

O defensor do povo Freddy Carrion ressaltou a imparcialidade do grupo que coordenou as investigações e afirmou que o relatório completo será encaminhado à Procuradoria Geral da República para iniciar o devido processo.
 


Protestos em Quito reprimidos pela polícia depois que preço dos combustíveis subiu 120%, após governo retirar subsídios para atender FMI / Cristina Vega/AFP

Entre as 249 vítimas entrevistadas no relatório está a governadora da província de Pichincha, Paola Pabón, que foi presa durante o estado de Exceção e, segundo o documento, foi uma das pessoas que teve seus direitos de acesso à justiça e à legítima defesa violados.

"Que o ocorrido em outubro de 2019 não aconteça nunca mais. Que possamos resolver nossas diferenças políticas com diálogo, democracia, e não com repressão estatal. Justiça, verdade e reparação já", declarou a governadora.

O grupo também conversou com 192 policiais para elaborar o documento.

A Defensoria ainda recomenda que o Estado realize investigações penais de acordo com padrões internacionais, ofereça tratamento médico, acompanhamento profissional a longo prazo e indenize as vítimas pelos prejuízos sofridos.

O relatório foi divulgado um ano e meio depois dos fatos e há menos de um mês para o segundo turno das eleições gerais do país. O Economista Andrés Araúz é o favorito na disputa contra o banqueiro Guillermo Lasso, apoiado pelo presidente Moreno.

Editado por: Poliana Dallabrida

|

Newsletter