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Velhinhos papudos

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A bebida era baratíssima e caprichavam nas doses. A cerveja era muito gelada e tinha as marcas que a gente gostava. - Julia Nastogadka / Unsplash
Ocupamos uma mesa do lado de fora, para apreciar todo o movimento do pessoal que passava pela feira

Em todos os lugares que eu moro, procuro conhecer logo algumas coisas que considero essenciais que existam nas proximidades: os bares e restaurantes, bancas de jornal, praças, padarias e farmácias, além de outros estabelecimentos comerciais e de lazer.

Então, quando me mudei pra Campinas, no estado de São Paulo, em 2003, no primeiro sábado, logo de manhã, saí de carro pra conhecer as redondezas, ver o que tinha por ali.

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Numa praça bonita, ao lado de uma área arborizada com vegetação original, conhecida como Bosque dos Italianos, havia uma feira de artes, livros usados, artesanato e antiguidades, o que já me interessou. Era um lugar bom para se passear aos sábados, com muita coisa para se ver (e comprar, se fosse o caso) e muita gente para conhecer e conversar.

Para completar, vi num canto da praça um botecão de esquina, tipo "sujinho", cheio de gente, com muitas mesas na calçada e mesmo na rua, à sombra de árvores com copas bem grandes.

Fui buscar a Célia, minha mulher, demos uma volta pela feira e fomos direto para o bar, que se chamava 1º de Abril. Era simpático, tipo bar de interior mesmo.

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Ocupamos uma mesa do lado de fora, para apreciar todo o movimento do pessoal que chegava e saía da feira.

A bebida era baratíssima e caprichavam nas doses. Para nossa diversão, entre os tira-gostos havia tremoços por um preço menor do que o do supermercado. A cerveja era muito gelada e tinha as marcas que a gente gostava.

Na mesa em frente, um grupo de idosos, com linguagem e jeitão típicos de militares, interrompia seus assuntos toda vez que passava alguma mulher jovem e bonita. Nenhuma escapava dos seus comentários garantindo que alguém já teve um caso com a dita cuja e falando umas safadezas. Nenhuma escapava. Eu estava me divertindo.

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De repente, veio em direção a nós uma moça novinha, toda bonita, de shortinho e mini blusa que deixava a barriga à mostra. Vi que os velhinhos olhavam para ela engolindo saliva, mas nenhum falava nada. Chegou pertinho e falou para um deles:

– Vovô, vim te buscar para almoçar.

Um dos velhinhos se levantou e acompanhou a moça, deixando os outros com olhares cobiçosos, ainda engolindo saliva. Todos calados. Eu ri baixinho e a partir daí virei freguês do 1º de Abril. 

*Mouzar Benedito é escritor, geógrafo e contador de causos. Leia outros textos

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Daniel Lamir