LIBERDADE DE EXPRESS

Patrocínio MG: trabalhadores denunciam tentativa de censura pela prefeitura

Uma investigação foi aberta depois que uma professora criticou a Secretaria de Educação nas redes

Em Patrocínio, no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, a prefeitura da cidade abriu processos de sindicância sobre três profissionais da educação pública municipal | Crédito: Créditos da foto: Prefeitura de Patrocínio

Em Patrocínio, no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, a prefeitura da cidade abriu processos de sindicância sobre três profissionais da educação pública municipal. Movimentos e trabalhadores da área veem na medida uma retaliação por essas pessoas terem questionado o poder público, após o falecimento de uma servidora que foi vítima de covid-19.

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Morte de trabalhadora

Segundo os trabalhadores, tudo começou quando, no início de abril, a Prefeitura anunciou a volta às aulas presenciais para o dia 27 daquele mês, causando descontentamento entre os trabalhadores. Alguns desses trabalhadores, vinculados ao Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG), se manifestaram em programas de rádio, carros de som, outdoors e nas redes sociais, criticando a decisão e cobrando segurança sanitária, como condição para o retorno ao trabalho presencial.

A volta às aulas acabou sendo adiada para o dia 10 de maio, mas, 17 dias depois, faleceu a servidora Milta Beatriz dos Reis, que trabalhava na cantina do Projeto Guri, no bairro Matinha. Pouco antes de ser internada e mesmo após apresentar os primeiros sintomas, ela continuava indo à escola. Na época, outros servidores tinham testado positivo para covid-19.

Para nós, a sindicância é para calar uma categoria, cerceando a liberdade de uma liderança

Para Amália dos Reis, mãe de Milta, a morte da filha poderia ter sido evitada. “Ela tinha problemas de saúde, tinha o coração inchado e eles não quiseram afastá-la. Quando todo mundo afastou, tinha gente com o vírus, e ela ficou. Num dia ela fez comida para os alunos e foi consultar no outro dia. Depois, ela internou no pronto-socorro, ficou lá oito dias. Eu cheguei a procurar o secretário de Saúde para implorar ajuda”, conta, chorando.

Censura?

Revoltada com o adoecimento de Milta, a mãe deu entrevista em um programa de rádio, criticando o secretário por não ter tomado medidas para proteger a filha. Na mesma semana, a prefeitura publicou uma nota rejeitando as acusações. Na postagem, os profissionais novamente se manifestaram, questionando a gestão por esse e outros casos de adoecimento na rede municipal de educação.

No dia 18 de junho, foi divulgado no Diário Oficial do Município que a prefeitura estava abrindo uma sindicância contra três servidoras da Educação do município. “A sindicância, a meu ver, é uma perseguição. Eu fui a um post questionar o secretário, inclusive porque havia uma escola com seis pessoas infectadas. Depois eu soube que a sindicância era porque eu estaria ‘usando palavras acusatórias’ na fanpage da secretaria de Educação”, relata a professora Luanara Marysol, uma das profissionais citadas no processo.

Soube que a sindicância era porque eu estaria ‘usando palavras acusatórias’ na fanpage da secretaria de Educação

Outras duas trabalhadoras teriam sido acusadas de negligência na escola. Ambas testaram positivo para covid. “Para nós, a sindicância é para calar uma categoria, cerceando a liberdade de uma liderança. Quando ele cala uma liderança, ele está tentando calar a categoria. Ele acusa a professora de fazer acusações”, avalia Gilberto José de Melo, diretor do Sind-UTE na subsede de Patrocínio.

Pouco depois da entrevista, Gilberto tomou conhecimento de uma decisão liminar, proferida na Comarca de Patrocínio, determinando que ele retirasse do YouTube um vídeo no qual critica o secretário de educação pela sindicância contra as professoras.

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Apoios

Vista como perseguição, a sindicância ativou uma vasta rede de apoiadores dentro e fora da cidade. Os deputados Betão (PT-MG), Beatriz Cerqueira (PT-MG) e Andreia de Jesus (Psol-MG) se manifestaram em apoio à educadora. “Mais um caso de intimidação de professores chegou ao nosso mandato e, imediatamente, nós acionamos a Comissão de Direitos Humanos e [a Comissão] da Educação contra a perseguição infundada da servidora Luanara Marysol”, postou em suas redes o deputado Betão.

Uma carta em apoio a Luanara foi publicada, com as assinaturas de 34 organizações estaduais e 79 nacionais. “É possível criminalizar a opinião de um servidor fora do ambiente laboral? Existe alguma irregularidade? Se existe, está na conduta ameaçadora e truculenta da gestão municipal, que se utiliza dos meios já conhecidos para tentar silenciar aqueles que se levantam contra atos arbitrários e autoritários”, afirma o documento.

Outro lado

A reportagem fez contato com a assessoria de imprensa da Prefeitura de Patrocínio, com questões sobre a sindicância, protocolos sanitários e a situação da pandemia na cidade, e aguarda resposta.

Editado por: Larissa Costa

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