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Milicos, precisamos falar sobre o Jair

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Jair, aquele sobre o qual precisamos falar, abriu a semana dizendo “Eu sou igual ao cocô de vocês” - Marcos Corrêa/PR
Não me levem a mal pelo “milicos” aí do título, achei melhor ir logo quebrando o gelo

Não me levem a mal pelo “milicos” aí do título. Traz uma certa informalidade mas não é nada ofensivo ou desabonador na medida em que é usado, pelo que sei, corporativamente sem melindres ou nervosismo. E como nossa conversa será bastante descontraída, embora lide com assunto sério, achei melhor ir logo quebrando o gelo.

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Cá entre nós: lá no fundo vocês devem estar pensando que bem poderiam estar em outro lugar, talvez pintando meios-fios, fazendo ordem unida, caiando árvores, aparando grama. Isso daí a galera do baixo escalão. No andar de cima, a turma estaria talvez aperitivando uísque 12 anos, traçando um filé de bacalhau ou jogando cartas em vez de militar nesse governo que desmoraliza até as palavras. Por exemplo, ninguém acredita mais quando se diz “inacreditável” já que “inacreditável” é o nosso cotidiano.

Sim, eu sei que existem seis mil de vocês que, todo mês, acariciam o segundo holerite, geralmente em cargos do executivo federal para os quais não estão exatamente habilitados. Não seriam a primeira opção nunca. Então são gratos à mamata, aquela que havia sido abolida. Mas não se esqueçam que, para receber, haverá sempre um preço a pagar.

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Jair, aquele sobre o qual precisamos falar, abriu a semana dizendo “Eu sou igual ao cocô de vocês”. Já imaginaram um presidente da república dizendo isso? Um deputado? Um vereador? Não vale dizer que é “inacreditável” porque ninguém acredita que seja. Nada mais é “inacreditável”. Tudo é possível.

É muito possível também que o Jair esteja enrolado – não é só o amigo dele, o Queiroz, que faz rolos – na tentativa de compra superfaturada de vacinas. E fala-se, em decibéis cada vez mais elevados, que muitos milicos também estariam enterrados até o pescoço na lambança inacreditável – perdão pelo “inacreditável”, a gente avisa e acaba falando de novo – envolvendo na mesma dança o Ministério da Saúde, empresários picaretas, pastores evangélicos, cabos, sargentos, coronéis e generais. Ôpa, aí estão vocês de novo!

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Sei que vocês já se deram conta de que o Jair é um fracasso perfeito na gestão da pandemia. Tão perfeito que levanta a suspeita de que fracassar foi coisa de caso pensado, escorada na aposta na imunidade de rebanho e na recusa de adquirir vacinas em 2020. Obra que resultou em uma montanha de meio milhão de cadáveres. Nas decisões, ele teve a assessoria de militares. Olha aí, vocês de volta.

O Jair que defendeu a tortura e o assassinato de opositores é o mesmo Jair chegado aos milicianos que, por sua vez, são criminosos que se deram ao desplante de montar um “Escritório do Crime”, especializado em delitos sortidos, entre os quais a eliminação física de desafetos e dos desafetos de seus mandantes. E ainda há, no horizonte, as mortes ainda sem esclarecimento de Marielle e Anderson. Vejam o risco de andar em semelhante companhia.

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Aos olhos dos estrangeiros, o horror do mandato Jair é ainda maior, nutrido pela catástrofe da covid-19, os incêndios do Pantanal, a devastação da Amazônia, o ataque aos povos originários, o preconceito racial, a misoginia, a xenofobia, a homofobia, o culto à violência e o orgulho da ignorância.

Outros milicos, de outra geração, os generais Ernesto Geisel e Leônidas Pires Gonçalves e o coronel Jarbas Passarinho, tinham ojeriza do Jair. “Mau militar”, disse Geisel dele. Mas vocês gostam.

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A última pesquisa Datafolha foi mais longe do que Geisel. Concluiu que a maioria dos brasileiros considera o Jair desonesto, incompetente, autoritário, indeciso, falso e burro.

O problema para vocês, milicos, é que ganha corpo, cada vez mais, a convicção inabalável de que vocês e o Jair são exatamente iguais.

 

*Ayrton Centeno é jornalista, trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra, autor de livros, entre os quais "Os Vencedores" (Geração Editorial, 2014) e “O Pais da Suruba” (Libretos, 2017). Leia outras colunas.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Vivian Virissimo