Jogo político

Com 2022 se aproximando, direita volta às ruas e pede união contra Bolsonaro

Figuras da direita defendem impeachment, mas união esbarra nas eleições presidenciais

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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O MBL foi um dos principais atores do movimento que levou a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) a ser impugnada, em abril de 2016, e o então deputado federal Jair Bolsonaro, a se eleger em 2018 - Alan Santos/PR

A direita está voltando às ruas. Desta vez, pedindo a união de todos os setores da sociedade, independente do espectro ideológico, em prol de uma única pauta: o impeachment do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). 

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Nas últimas manifestações, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) já esteve presente. No próximo dia 12 de setembro, é a vez dos movimentos Vem Pra Rua e Movimento Brasil Livre (MBL) pedirem a saída do capitão reformado da Presidência. Nas redes sociais, figuras de partidos como do Democratas (DEM), Partido Novo e Movimento Democrático Brasileiro (MDB) também já se posicionaram contra o presidente. 

Leia também: A proposta de semipresidencialismo de Lira e o jogo político anti-Lula: entenda cenário

Ao Brasil de Fato, Arthur do Val, deputado estadual de São Paulo pelo Patriota e integrante do MBL, disse que a “união não significa que deixaremos de discordar naquilo que discordamos”. Para o parlamentar que votou a favor de Bolsonaro nas urnas no pleito presidencial de 2018, o cenário atual não é mais uma questão de divergência em torno de programas políticos para o país. “É uma questão de humanidade”, afirma. "Nós temos um presidente que, por conta da sua atuação, centenas de milhares perderam a vida. Por isso eu acredito que essa união seja tão importante.”

“Não é mais uma questão do que a gente deve fazer com a Petrobras. Privatizar? Ampliar a estatização? Nós precisamos de mais agências reguladoras? Como vai ser a reforma tributária? Administrativa? Não é uma questão de divergências políticas", ressalta.

Mudança de rota

O MBL foi um dos principais atores do movimento que levou a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) a ser impugnada, em abril de 2016, e o então deputado federal Jair Bolsonaro, a se eleger em 2018. Na ocasião, o integrante do MBL afirmou que o seu posicionamento era favorável ao capitão reformado.

“Não é o candidato dos meus sonhos. Mas é o candidato que estou apoiando e espero que todos tenham consciência de que não votar em Jair Bolsonaro é colocar o PT de volta no poder”, afirmou do Val em uma entrevista à TV Gazeta, em outubro de 2018. 

A mudança de rota se deu logo no início de 2019,  primeiro ano do mandato de Bolsonaro. Durante a votação da Reforma da Previdência, o parlamentar explica que o MBL “viu que não existia nenhuma vontade do governo em articular essa reforma".

"Ali a gente já ficou com um pé atrás. Em maio de 2019, quando houve uma manifestação que nasceu de forma totalmente antidemocrática, uma manifestação que pedia o fechamento do Congresso e STF, a gente viu um apoio velado do Bolsonaro, a gente viu que o governo era perigoso”. 

Hoje, do Val defende que Bolsonaro traiu todas as pautas que havia prometido durante a campanha presidencial ligadas às reformas liberais e de combate à corrupção, e a pauta do movimento se tornou única: “Fora Bolsonaro”. 

“Desde o primeiro semestre de 2019, em nenhum momento ele deu um passo no sentido de amenizar as nossas críticas. Muito pelo contrário, ele sempre foi avançando cada vez mais no sentido de mostrar que é um completo despreparado e criminoso”, afirma o parlamentar.

Para as manifestações do dia 12 de setembro, do Val garante que todos serão bem-vindos. “Não só serão respeitados, como serão bem-vindos. Então se você votou no Haddad, você é bem-vindo. Se você votou no Bolsonaro, que é o meu caso, você também é bem-vindo. A pauta, por ser única, vai unir pessoas de diferentes espectros e que divergem”, afirma. 
 
Com as linhas de investigação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid apontando para os supostos esquemas de corrupção envolvendo a aquisição de vacinas contra a covid-19, não só o MBL tencionou progressivamente as críticas ao presidente, como também o movimento Vem Pra Rua.

Luciana Alberto, porta-voz da organização, afirma que a pandemia foi o ponto mais marcante para a mudança de rota do movimento e agora a CPI da Covid está trazendo novos rumos, "inclusive com envolvimento de escândalos de corrupção no próprio Ministério da Saúde", enfatiza.

"São atitudes incompatíveis com a liderança de uma nação, um chefe de Estado, que deveria estar preocupado em defender o uso da vacina, a aquisição de vacinas, proteger a população de pandemia bastante epidêmica”, afirma Alberto. 

O Vem Pra Rua, ao lado do MBL, também foi um expressivo ator tanto no impeachment de Rousseff quanto na eleição de Bolsonaro.

Entre 2016 e 2018, as manifestações desses movimentos de direita coloriram muitas ruas e avenidas do país de verde e amarelo.

“O Vem pra Rua, de certa forma, atuou como protagonista junto a outros movimentos sociais na condução da mobilização popular pelo impeachment da presidente Dilma, acreditando em uma renovação, em um discurso de combate à corrupção, de um candidato que se apresentava e oferecia uma proposta diferenciada para o país". 

Para ela, o ponto de virada foi a exoneração do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro. A partir deste momento, o movimento passou a entender que Bolsonaro não iria cumprir as promessas de campanha e de renovação política.

Para as manifestações do dia 12, Alberto também afirma que todos os cidadãos serão bem-aceitos. “O Vem pra Rua dialoga com todos, inclusive essa manifestação que está sendo organizada para o dia 12 de setembro é um convite para a população brasileira inteira aderir. Não é dirigido a um grupo específico. Nós estamos abertos ao diálogo, com diversos movimentos, além do MBL.”

Na mesma linha, o deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP), que se elegeu parlamentar pelo PSL, afirmou que está brigando pela “união”.

Para ele, as últimas manifestações, organizadas majoritariamente por movimentos ligados à esquerda, foram “uma coisa muito vermelha”. 

“Eu senti falta da bandeira do Brasil, das cores verde e amarela. O MBL e o Vem Pra Rua vão fazer uma agora em 12 de setembro, convidando o lado de cá. Eu acho que tudo o que o Bolsonaro quer é isso: o lado de lá e o lado de cá. A gente tem que unir forças, ainda que a gente fale e pense de uma maneira diferente, o Bolsonaro é um alvo a ser abatido e para isso precisa ter essa união.”

Como exemplo, o deputado citou o “superpedido” de impeachment, protocolado na Câmara dos Deputados, no dia 30 de junho. “Eu estava lá, convidado pela Gleisi Hoffmann [PT], pelo Alessandro Molon [Rede], pela Fernanda Melchionna [PSOL]. Independente de tudo, todos nós temos um objetivo que é tirar o Bolsonaro da corrida eleitoral de 2022”, defende o parlamentar. O pedido juntou 43 signatários, desde Joice Hasselmann a Guilherme Boulos.

Câmara vota com o governo

Existem hoje mais de 120 pedidos de impeachment na mesa do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL). Para a abertura de um processo, no entanto, é necessário o voto de 342 deputados, de um total de 513 parlamentares que compoem a Câmara.

Ocorre que, do total, 388 parlamentares votam com o governo em pelo menos 60% dos projetos ligados ao Executivo, de acordo com a plataforma Parlametria. Isso significa que mesmo que o presidente Arthur Lira venha a pautar algum dos pedidos, não há base o suficiente para abri-lo. 

De dentro da Câmara dos Deputados, Frota sinaliza para um tom pessimista. “Quem tem que olhar é o Arthur Lira, que hoje é um cúmplice do Bolsonaro. Para virar o Parlamento é muito difícil nesse momento, porque o Bolsonaro compra todo mundo, não só com as emendas, mas com as secretarias, autarquias, ministérios, cargos políticos, intervenções”, afirma o deputado.

É nesse sentido que Arthur do Val volta a defender as manifestações e a união de diversos setores da sociedade. “Nós precisamos de mais de 300 deputados votando pelo impeachment do Bolsonaro. Não quero saber se são os deputados do Partido Novo, PSOL, PT, MDB. Eu quero mais de 300 votos para que esse impeachment ocorra”, afirma o parlamentar. 

“Nós precisamos que esse pedido de impeachment seja pautado. E quando vai ser? Quando o presidente da Casa e a maior parte dos deputados entenderem que é inevitável colocá-lo. Como a gente faz para que isso aconteça? Só tem uma forma: é pressão popular, é gente na rua.”

Se diferenciar para 2022

A mobilização de rua é um dos fatores apontados por cientistas políticos como necessários para que ocorra um impeachment. Mas, levando o cenário atual em consideração, Tiago Borges, professor de Ciência Política do Departamento de Sociologia e Ciência Política, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), considera que "as elites políticas, não só da direita, estão pouco interessadas em levar a cabo um processo de impeachment".

"Estão um tanto preocupadas com a eleição do ano que vem. Há uma resistência das elites políticas em acatar e levar a cabo fortemente um impeachment".

Para o docente, isso explica o fato de nenhum dos mais de 120 pedidos de impeachment ter sido aceito tanto por Rodrigo Maia, no ano passado, quanto por Arthur Lira.

Borges também acredita que as manifestações que vêm ocorrendo até agora e a diminuição da taxa de aprovação do presidente, ainda que expressivas, não são suficientes para um cenário de abertura de impeachment.

O professor destaca que, para além da manifestação contra Bolsonaro, o novo posicionamento ocorre porque “parte da direita está se separando de uma maneira mais clara de Bolsonaro e de seus seguidores, tentando se diferenciar. E isso foi agravado devido principalmente pela pandemia”. 

“Tem setores que pertencem ao campo da direita e centro direita que são contrários à postura do Bolsonaro em relação à pandemia, mas também tem o contexto de 2022 que está se aproximando, com algumas lideranças que pertencem ao campo da centro direita que têm aparecido mais, como Eduardo Leite e João Doria.”

Ao Brasil de Fato, Luciana Alberto e Arthur do Val se colocaram contra Lula e Bolsonaro na corrida presidencial do ano que vem.

Assim como Alexandre Frota, defendem uma terceira via. O tucano, no entanto, já tem um nome. “Vou fazer de João Doria presidente do Brasil.” Isso mostra que a união contra Bolsonaro esbarra em um limite quando as eleições presidenciais são colocadas em jogo.

Mapa Adeus Bolsonaro

Luciana Alberto, do Vem Pra Rua, também considera que o impeachment é uma “questão política”. Nesse sentido, o Vem Pra Rua criou o site Mapa Adeus Bolsonaro, pelo qual é possível saber como votaria cada deputado federal caso um pedido de impeachment fosse pautado hoje: 112 são favoráveis ao impedimento de Bolsonaro, 45 são contra e 355 ainda não se posicionaram.

Pela plataforma, é possível ver a lista de deputados que são contra, a favor ou ainda não se posicionaram por estado da federação. Dos 70 deputados eleitos por São Paulo, por exemplo, 19 são a favor, 44 estão indecisos e sete são contra. São esses últimos: Capitão Augusto (PL), Carla Zambelli (PSL), Eduardo Bolsonaro (PSL), Guiga Peixoto (PSL), Guilherme Derrite (PP), Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL) e o pastor Marco Feliciano (Republicanos). 

Edição: Leandro Melito