ENTREVISTA

"Normalidade" só volta depois de 70% da população estar completamente vacinada, diz médico

Imunização deve ser acelerada para evitar casos graves e mais mortes; variante delta é nova ameaça

Brasil de Fato | Curitiba (PR) |
Foco deve ser acelerar a vacinação e "não, neste momento, voltarmos à vida pré pandemia", diz Felipe Bueno - Divulgação

Passado quase um ano e meio desde o início do estado de emergência sanitária em Curitiba, por conta da pandemia de covid-19, a cidade começa a dar ares de volta à normalidade, após três ondas de contágio, sendo a última, mais grave, levando a óbito milhares de moradores e a um colapso do sistema de saúde público e privado.

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A cidade ficou ainda por 133 dias nas bandeiras laranja e vermelha, voltando à bandeira amarela apenas no dia 7 deste mês. A queda nos índices de contágio para menos de 1,0 e o avanço da vacinação trouxeram certo alívio após o aumento de óbitos bater a casa 40 por dia, em março.

A vacinação, apesar de atrasos na entrega do medicamento por parte do governo federal, já tem impactado positivamente o cenário. Neste momento, mais de 900 mil curitibanos já tomaram ao menos uma dose da vacina, e quase 20% da população está completamente imunizada.

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Apesar do otimismo, a circulação da chamada Variante Delta no Paraná já ameaça o clima de "controle". Até o momento do fechamento desta matéria, a Secretaria de Saúde do Paraná (Sesa) confirmou 13 casos da variante, com cerca de seis óbitos, incluindo ocorrências na Região Metropolitana de Curitiba.

::Paraná confirma mais quatro casos da variante delta na região de Curitiba::

Para saber mais sobre o atual cenário e as perspectivas de futuro da pandemia em Curitiba, a reportagem do Brasil de Fato Paraná entrevistou o Dr. Felipe Domenici Loures Bueno, clínico médico especializado na área de Medicina de Urgência e Cuidados Paliativos na Santa Casa de Curitiba.

Bueno, que acompanha a pandemia na linha de frente e analisa diariamente os dados apresentados pelo boletim da Prefeitura, alerta que "normalidade" mesmo "só em 2022, com 70% da população adulta completamente imunizada." 

Confira a entrevista:

Brasil de Fato Paraná: Como o senhor avalia o atual cenário de pandemia em Curitiba?

Felipe Bueno: O cenário atual é de controle dos casos ativos num platô de aproximadamente sete mil casos, mas com redução sequencial de óbitos e internações pela doença. O número de novos casos continua caindo, mas ainda de maneira lenta.

O avanço da vacinação está contribuindo até que ponto no controle dos índices de contágio, queda nos óbitos, e ocupação dos leitos de UTI?

Contribuição importante, mas sempre aliada às restrições de aglomeração e a recomendação do uso de máscaras. A contribuição é maior na redução de casos graves e óbitos que na transmissão.

Com a circulação da variante delta corremos o risco de voltarmos ao cenário de março?

Existe o risco caso tenhamos aumento muito grande de novos casos em jovens que ainda não tomaram duas doses de vacina. Porém, eu não apostaria numa onda tão forte quanto à de março.

Países da Europa anunciam medidas restritivas novamente por conta do aumento do contágio nas últimas semanas, mesmo com a população imunizada com duas doses chegar a quase 50%. É um alerta para nosso país?

Com certeza é um grande alerta. A mensagem é: mesmo com vacinação em massa, num primeiro momento não é a hora de relaxar todas as medidas restritivas.

Qual a perspectiva de futuro para Curitiba, levando em consideração as reiteradas suspensões da vacina por falta de imunizantes e a ameaça das novas variantes? Apostaria que a vacina conseguirá controlar a circulação delas?

A vacina continuará evitando casos graves e mortes em quem toma a vacina. A transmissão, principalmente com a variante delta, deverá continuar. A imunização precisa ser acelerada para que menos pessoas morram e para que não tenhamos mais colapso do sistema de saúde, o foco é esse e não, neste momento, voltarmos à vida pré pandemia.

Essa normalidade só ocorrerá com mais de 70% da população adulta completamente vacinada, e isso só veremos em 2022.

Fonte: BdF Paraná

Edição: Frédi Vasconcelos e Lia Bianchini