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Bob Jeff Road King e a decadência

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Trocou as cores originais de sua bandeira – vermelho, branco e preto – pelo verde-amarelo. Além da patriotada, abraçou o obscurantismo religioso, o armamentismo e o discurso de ódio - Reprodução/Twitter
Ao saber que o TSE dera o partido à Ivete, Brizola chorou naquele 12 de maio de 1980

A prisão do ex-deputado e presidente nacional do Partido Trabalhista Brasileiro, Roberto Jefferson, hoje adotando a marca de fantasia Bob Jeff Road King, é mais do que um instantâneo de décadence sans élégance, de uma derrocada pessoal. Funciona também como retrato de corpo inteiro de um partido que perdeu norte, sentido e conteúdo.

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Pelo menos, daquele partido que existia até ser sequestrado em 1980 por artes & manhas do general Golbery do Couto e Silva e presenteado à deputada Ivete Vargas com o beneplácito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

De 1945, sua fundação, até 1965, sua extinção pela caneta dos generais, o PTB fora uma mescla de abrigo para o mundo do trabalho, para o controle dos trabalhadores e dos seus sindicatos e uma barricada contra a expansão do Partido Comunista no pós-guerra. Ou seja, cumpria o papel que o alquimista Getúlio Vargas desenhara para sua criatura.

Consumado o crime nos estertores do regime de 1964, converteu-se em penduricalho do PDS, então o novo nome da Arena, a legenda incumbida de fazer a coreografia civil da ditadura militar.

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Na democracia, apoiou presidentes à esquerda e à direita. Juntou-se a Fernando Collor e votou majoritariamente pela reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Converteu-se a Lula e à Dilma, a quem traiu aderindo ao golpe de 2016.

Acreditou na ponte para o futuro de Temer e continuou respaldando o inquilino do Jaburu mesmo depois das tenebrosas transações gravadas por Joesley Batista, com direito ao vídeo do homem da mala de R$ 500 mil. Na ocasião, Bob Jeff Road King explicou que aquilo que o PTB fazia era para “cumprir a agenda das reformas” e “devolver a dignidade aos brasileiros”.

Em processo avançado de putrefação, a sigla ainda estava longe de dar o seu pior. Em 2018, fechou com Alckmin mas, quando a candidatura do PSDB se liquefez, ingressou com armas e bagagens na aventura bolsonarista.

Se já operava à direita, moveu-se para a ultradireita. Acolheu adeptos do integralismo – a versão nativa do nazifascismo -- em suas fileiras. Trocou as cores originais de sua bandeira – vermelho, branco e preto – pelo verde-amarelo. Além da patriotada, abraçou o obscurantismo religioso, o armamentismo e o discurso de ódio.

Ninguém interpreta melhor essa virada do que seu presidente. Como uma espécie de Chacrinha sinistro, surge armado até os dentes em postagens burlescas e delirantes nas redes. Em entrevista, pede intervenção militar e avisa que, no lugar de Bolsonaro, já teria fechado o STF.

Diz que a corte está recheada de “lobistas, desonestos e corruptos” ou “satanases” e “bruxas”, chama o embaixador chinês de “macaco” e o ministro Alexandre de Moraes de “cachorro”. A saraivada desses e outros pitacos enroscaram o presidente do PTB em sete artigos do Código Penal, três da Lei de Segurança Nacional e mais três normas de leis avulsas.

:: Para Lenio Streck, Supremo acerta ao prender Roberto Jefferson ::

Lembrar o quadro de decomposição atual é um tanto mais doloroso quando se sabe que, neste mês, iremos comemorar os 60 anos do movimento da Legalidade.

No Sul, um governador do PTB, Leonel Brizola, desafiou os três ministros militares e abortou o golpe contra a posse do vice-presidente João Goulart, também do PTB. Goulart e o PTB seriam derrubados três anos depois.

Se fosse hoje, os golpistas de ontem teriam, presume-se, o apoio do PTB recente esculpido à imagem e semelhança de Bob Jeff Road King. Aliás, não é por acaso que Bolsonaro cogita eleger o PTB como seu novo partido.

Ao saber que o TSE dera o partido à Ivete, Brizola chorou naquele 12 de maio de 1980. Disse que o PTB fora entregue a “um pequeno grupo de oportunistas subserviente ao poder”. Escreveu a sigla num papel e o rasgou diante das câmeras. Foi um gesto profético que o PTB continua reproduzindo todos os dias.

*Ayrton Centeno é jornalista, trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra, autor de livros, entre os quais "Os Vencedores" (Geração Editorial, 2014) e “O Pais da Suruba” (Libretos, 2017). Leia outras colunas.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Leandro Melito