De olho em 2022

Leonardo Sakamoto: Bolsonaro domesticado é ficção de elite que o quer como 3ª via de si mesmo

Parte do mercado nunca esteve preocupada com a proteção da democracia, mas com a liberdade para poder ganhar mais

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Questionado se daria um golpe, Bolsonaro respondeu: "quem quer dar um golpe jamais vai falar que vai dar"
Questionado se daria um golpe, Bolsonaro respondeu: "quem quer dar um golpe jamais vai falar que vai dar" - Foto: reprodução

Há uma parcela da elite brasileira que ainda acredita ser capaz de domesticar Jair Bolsonaro, apesar de ele já ter provado que não tem apreço pelas instituições e que não vai abandonar um jogo perigoso de aproximações sucessivas, com ataques e recuos à democracia.

Nos ataques, essa parcela fica indignada e surpresa. Nos recuos, celebra a "mudança de opinião", confiante que o capitão foi contido, torcendo publicamente para que ele continue. O que ajuda a explicar o porquê de o impeachment não ter apoio de uma parcela do PIB.

Esse grupo deve ter tido uma sensação de alívio próximo de um orgasmo diante de entrevista da revista Veja, desta semana, em que o presidente prometeu não "melar" as eleições do ano que vem, garantindo que o pleito será realizado. Além disso, afirmou que "a chance de golpe é zero".

As palavras valem tanto quanto uma nota de três reais. E ele mesmo deixou isso claro. Questionado ao vivo, em março do ano passado pelo apresentador José Luiz Datena, se daria um golpe, Bolsonaro respondeu "quem quer dar um golpe jamais vai falar que vai dar".

Sem contar que o bolsonarismo chama o golpe que Bolsonaro vem construindo de "contragolpe", defendendo que um golpe já teria sido dado pelo Supremo Tribunal Federal ao prender aliados do governo e "cercear a liberdade"

A ficção decorre de uma antiga crença de uma parcela dos liberais que acreditavam, desde as eleições de 2018, que seria possível colocar uma focinheira em Jair Bolsonaro. Ou seja, que o "Posto Ipiranga", o "czar da economia", o "todo-poderoso das contas públicas", Paulo Guedes, domaria o capitão. Com o tempo, quem terminou como poodle do presidente foi Guedes.

Uma parte do mercado financeiro nunca esteve preocupada com a proteção da democracia, mas com a liberdade para poder ganhar mais e mais rápido, inclusive passando por cima de regulações que preservam direitos sociais, trabalhistas e ambientais. Acreditavam realmente que seria possível reeditar algo como o período Augusto Pinochet, no Chile, com o neoliberalismo andando de mãos dadas com um governo autoritário.

Nesse sentido, se Jair matasse ou desmatasse, tudo bem, desde que não atrapalhasse os negócios.

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Além de ignorar Paulo Guedes, deixando claro que um "divórcio" levaria o ministro da Economia ao esquecimento, Bolsonaro tornou-se um fator de insegurança política e jurídica do país, sendo corresponsável pelo aumento no dólar (o que impacta o preço dos combustíveis, do gás de cozinha e dos alimentos) e da energia elétrica (devido à desastrosa gestão de seu governo diante da crise hídrica).

E ele próprio deixou claro na entrevista que não existe "Jairzinho paz e amor".

O seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, defendendo a cloroquina e atacando o isolamento social, criticando prefeitos e governadores por terem salvado vidas na pandemia, incentivando os malucos que acreditam na iminência de um golpe comunista, é prova disso.

Pode não estar em conflito com o STF neste momento, mas não deixou de atropelar a dignidade humana. Ironicamente, se continuar vendendo a si mesmo como moderado nessa fase de recuo, Bolsonaro corre o risco de ser escolhido por parte da elite econômica como o nome da terceira via a si mesmo.

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