Violência

Relatório aponta 216 mil vítimas de pedofilia na Igreja da França

Número sobe para 333 mil se forem considerados agressores "laicos" dentro de instituições católicas

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O presidente da comissão que apurou os abusos sexuais, Jean-Marc Sauve, falou com a imprensa em Paris. - Thomas Coex / AFP

Uma comissão independente nomeada pela Igreja Católica divulgou nesta terça-feira (05/10) um relatório que aponta que pelo menos 216 mil crianças e adolescentes foram vítimas de pedofilia por parte de padres e outros clérigos na França desde 1950.

De acordo com o inquérito da Comissão sobre Abusos Sexuais na Igreja (Ciase), chefiada por Jean-Marc Sauvé, ex-vice-presidente do Conselho de Estado da França, o número de padres pedófilos no país é estimado entre 2,9 mil e 3,2 mil. Ainda segundo Sauvé, o total de vítimas sobe para 330 mil quando se inclui "agressores laicos que trabalhavam para instituições católicas", como sacristãos e professores.

"Essas cifras são muito preocupantes, são assustadoras, e não podem ficar sem consequências", declarou o chefe da comissão em coletiva de imprensa. Sauvé afirma que a primeira recomendação da comissão para a Igreja Católica é "reconhecer sua responsabilidade" nos abusos sistêmicos dentro de suas instituições.

"A Igreja não soube enxergar, não soube escutar, não soube captar os sinais frágeis", disse Sauvé, afirmando que as instituições católicas têm manifestado uma "indiferença profunda e cruel em relação às vítimas", ao menos até o início do século XXI. 

O responsável pelo relatório, atual presidente do Instituto Francês de Ciências Administrativas, lembra ainda que os números publicados pelo relatório podem ser baixos em relação à realidade, já que as vítimas ouvidas se manifestaram por vontade própria, após uma convocação de testemunhas e que outras pessoas certamente decidiram não participar voluntariamente da investigação.

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Ele recomendou que a igreja "evite no futuro a concentração de poderes nas mesmas mãos", e que pessoas laicas, entre homens e mulheres, possam ter acesso às posições de decisão dentro da Igreja Católica.

O presidente da comissão ainda cobrou que a Igreja indenize as pessoas que sofreram violência sexual por parte de padres e que esses ressarcimentos não sejam vistos como "doações", mas como algo "devido".

Após a divulgação do relatório, o presidente da Conferência Episcopal da França, Éric de Moulins-Beaufort, expressou "vergonha" pelos crimes cometidos na Igreja e pediu "perdão" às vítimas.

"Meu desejo, hoje, é de pedir perdão a cada um e cada uma de vocês", declarou o bispo, acrescentando que os números revelados pela investigação são "devastadores". Já o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, disse que o papa Francisco já havia sido informado do conteúdo do relatório, o qual recebeu com "dor".

"Seu pensamento vai antes de tudo às vítimas, com grande desprazer por suas feridas e gratidão por sua coragem de denunciar, e à Igreja da França, para que, na consciência dessa terrível realidade, unida ao sofrimento do Senhor pelos seus filhos mais vulneráveis, possa percorrer um caminho de redenção", acrescentou Bruni, referindo-se ao pontífice.

O relatório de 2,5 mil páginas foi encomendado pela Igreja na França em 2018, e a comissão passou dois anos e meio investigando registros judiciais, policiais e das instituições católicas. A maioria das vítimas eram meninos, muitos deles entre 10 e 13 anos de idade.