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Em SP, iniciativa coleta alimentos descartados em feiras para servir cozinhas comunitárias

Após higienização, alimentos chegam a mais de 70 cozinhas e ocupações; Desde 2010, 70 toneladas de comida foram doadas

Ouça o áudio:

Desde 2010, Raquel recolhe alimentos desprezados na feira da Rua Caiubi, em Perdizes - Pedro Stropasolas
"Coletar alimento do chão não é revolucionário. Revolucionário seria não jogar no chão"

Se as feiras livres são um ótimo local para comprar alimentos frescos por um bom preço, elas também são marcadas por muito desperdício, inclusive de frutas, legumes e verduras que estariam bons para o consumo. Uma alternativa para resolver o problema é recolher e distribuir o que sobra das barracas, uma ação que vem ganhando cada vez mais espaço nas cidades do país.

Um dos grupos que põe a mão na massa para evitar desperdício de comida é a equipe da rede Creative Commes que desde 2010 recolhe, higieniza e distribui alimentos que seriam descartados em feiras de São Paulo. A iniciativa é feita em parceria com a rede de cozinhas de luta [email protected] [email protected] e a rede Banquetaço.

De lá para cá, pelo menos 60 toneladas de alimentos já foram recolhidos todas as quintas na feira da Rua Caiubi, em Perdizes, na Zona Oeste de São Paulo. 

"Quantos alimentos poderiam não ir para a lixeira e alimentar mais pessoas se ele não tivesse como único destino a mesa de quem tem dinheiro. Então eu acho que a feira é essa agente multiplicador", pontua Rachel Blaque. criadora do projeto. "Antes de dizer que eu sou ponta de lança, ou coletivos alternativos que coletam alimentos, existe um fator que é a invisibilidade das famílias que coletam a vida inteira, e que me ensinaram a coletar". 

Os próprios feirantes reconhecem o problema. Um deles é Fábio Godoy que não se conforma ao ver tanta comida boa indo para o lixo. Ele conta que boa parte de seus colegas prefere descartar alimentos no chão do que guardá-los para reaproveitar na xepa. 

"Essa realidade da reciclagem é um pouco triste, porque não recebe a devida atenção. É uma coisa importante e infelizmente o pessoal não leva a sério", pontua o feirante. 


Alimentos como a Erva-doce, um dos mais caros na feira, estão entre os mais encontrados no lixo / Pedro Stropasolas

Alimentos caros no chão

A variedade de alimentos descartados é farta e inclui até produtos caros e inacessíveis para grande parte da população na atual crise econômica e sanitária. 

"A erva doce é caríssima e é a mais jogada fora. Muitos alimentos não são vendidos. A alcachofra também é inacessível. É o coletar, ou o não ter vergonha de coletar, que gera o acesso", diz Raquel.

Os alimentos coletados são higienizados perto da feira, na Casa Amarela de Cultura Coletiva, espaço cultural independente de São Paulo. Parte dos alimentos é consumida pelos próprios moradores e o restante é distribuído em ocupações populares, alcançando pelo menos 70 cozinhas comunitárias. 


Frutas e verduras coletadas, antes da passarem pelo processo de higienização / Pedro Stropasolas

"Muitos destes alimentos precisam ser consumidos imediatamente, porque estão abertos, rasurados, machucados, e muitos a gente sabe que não vai consumir, então precisamos fazer esse caminho de doar para alguém", acrescenta Raquel. "Coletar alimento do chão não é revolucionário. Revolucionário seria não jogar no chão", conclui.

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Edição: Sarah Fernandes