ESPERANÇA

SP: Embaixo dos fios, hortas orgânicas brotam de terrenos abandonados e expandem agroecologia

Na capital paulista, o BdF foi conhecer famílias que cultivam alimentos saudáveis nas faixas de linhas de transmissão

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Há 22 anos, o paisagista Kleber iniciou a saga de transformar um terreno abandonado da extinta Eletropaulo, no Parque São Lucas - Pedro Stropasolas
Se cada um tivesse um cantinho de terra, daria para ter uma vida mais saudável

Há esperança embaixo dos fios de alta tensão da cidade de São Paulo. Em meio ao concreto, em pequenas porções de terra fértil antes abandonadas, é a agroecologia que tem brotado. 

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"Aqui era muito entulho, muita sujeira, o pessoal depositava entulho, cachorro morto, pneu, então comecei a limpar. Fui plantando uns pés de fruta, hoje eu tenho café, tenho banana, todo tipo de banana mamão, laranja, acerola, manga", relembra o jardineiro e paisagista Kleber Bonano.

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Há 22 anos, ele e a mãe, Cleusa Bonano, iniciaram a saga de transformar um terreno abandonado no Parque São Lucas, sudeste da capital, em um espaço repleto de pássaros, frutas, e hortaliças orgânicas.

"Se cada um tivesse um espaço em casa, tivesse algum cantinho de terra, daria assim pra ter uma vida mais saudável, sem produtos", afirma Kleber, que hoje atua em seis creches na região da Vila Prudente, onde cuida das hortas e distribui semanalmente cerca de 120 pés de vegetais para a alimentação das crianças.

"As crianças que não gostavam de salada hoje gostam porque viram como se planta, então as crianças pegam amor, né? E é isso, a gente quer fazer uma geração que vai gostar de verdura, de comer essas coisas, né? Uma berinjela tirada na hora, uma salsinha, uma cebolinha pra fazer uma sopa. E a gente cuida desse espaço com o nosso coração, a gente tem o nosso coração aqui", pontua Cleusa, que deixou de lado o trabalho como assistente social e hoje se dedica exclusivamente ao lugar, batizado de Recanto Araúna.  

O cuidado que começou com mãe e filho hoje reverbera no entorno do local. Os vizinhos se encantam com tanta natureza e diversidade. E claro, não deixam de levar sua verdurinha para casa.  

"Isso é tudo, né. Comer as coisas sem agrotóxico é tudo. Se a gente comesse só isso a gente teria uma saúde melhor né?", conta a trabalhadora Jandira Silva, segurando folhas de alface, rúcula e cebolinha fresquinhas colhidas no local.


Cleusa e Jandira, uma relação de amizade construída na horta orgânica do Recanto Araúna / Pedro Stropasolas

O uso dos terrenos

As regras definidas pela empresa Enel Distribuição São Paulo para o uso de terrenos nas faixas de Linhas de Transmissão inclui, entre outros requisitos, não ter árvores grandes e nem criação de animais. 

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Mas apesar das exigências, em geral, não é oferecido nenhum suporte para as práticas agroecológicas.

Salvo algumas exceções, como o projeto Hortas em Rede - organizado em parceria com a ONG Cidades sem Fome, na Zona Leste -  em geral, a transformação comunitária para uma vida mais saudável é inteiramente fruto do trabalho das famílias.

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É hora da Horta

No bairro da Casa Verde, Rita Cavalieri está há 15 anos embaixo dos fios. Assim como a família Bonano, ela entrou no terreno ainda antes da multinacional italiana adquirir a Eletropaulo, que era encarregada de distribuir energia elétrica para o povo paulista. 

A paisagista também encontrou um terreno sem uso, repleto de entulhos e materiais descartados. "Na verdade, eu passei quase três anos só tirando lixo. E assim mesmo hoje ainda tira alguma coisa", conta.

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Seu espacinho, chamado de “É hora da horta'', é conhecido como o viveiro das Pancs, na Zona Norte. Taioba, Araruta, serralha, ora pro nobis.. São tantas que é preciso cuidado para não pisoteá-las. 

"Há uns cinco anos atrás ninguém conhecia. Eram mais nossos avós, tataravós, que plantavam né? Ou porque plantavam, ou nasciam mesmo, porque a PANC ela nasce em qualquer lugar. Agora eu estou tentando domesticar, tentando por no canteiro, e ainda assim ela teima e sai pra fora", explica a agricultora.


Embaixo dos fios, Rita cultiva uma rica variedade de milho Crioulo / Pedro Stropasolas

Composteiras 

No espaço de Rita, toda a adubação e biofertilização é feito na própria horta. Por lá, se trabalha com o chamado solo vivo, onde se faz o uso apenas de micro-organismos.

As feiras e oficinas agroecológicas voltadas a educação ambiental, que eram frequentes antes da pandemia, agora aos poucos voltam a acontecer. Hoje, um dos projetos de maior integração comunitária são as composteiras termofílicas, em parceria com o projeto Pé de Feijão.

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É lá onde boa parte da vizinhança vem trazer seus resíduos. O processo de revirar, cobrir e fazer as paredes é feito coletivamente. "Esse projeto fez com que as pessoas viessem para a horta e dessem mais importância para o próprio lixo", explica.


Educação ambiental para crianças, uma das marcas do projeto é hora da horta / Pedro Stropasolas

Os princípios agroecológicos, para a agricultora que recebeu em sua horta a visita ilustre de Anna Maria Primavesi - mentora e grande difusora da agroecologia no Brasil -, é um caminho hereditário.

"É que nem um filho. Passagem só de ida. Não tem volta. Você começa e não tem como voltar mais pra trás".

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O outro lado

O Brasil de Fato entrou em contato com a Enel para entender os pré-requisitos para utilização dos terrenos e se a empresa oferece algum tipo de apoio (financeiro, técnico, ou em relação a infraestrutura) para auxiliar as práticas agroecológicas exercidas pelas famílias. 

Em nota, a empresa diz que desenvolve o projeto Hortas em Rede, que nasceu para "ampliar a qualidade de gestão das faixas sob as linhas de transmissão em um contexto complexo com a implantação e desenvolvimento de hortas urbanas". 

Aponta também que o projeto proporciona formação profissional, oportunidades de trabalho e geração de renda às comunidades e que, por meio da comercialização de produtos, mais de 470 famílias são beneficiadas, com 7 toneladas produzidas por mês.

A multinacional italiana também disponibiliza um link para os interessados em utilizar as áreas complementares nas faixas de Linhas de Transmissão 

 

Edição: Daniel Lamir