SAÚDE

Dermatologistas antecipam que mariposa é a causa “coceira misteriosa” em Pernambuco

Relatório é da Sociedade Brasileira de Dermatologia, que afirma que surtos ocorrem na fase de reprodução da mariposa

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As cerdas da espécie de mariposa do gênero Hylesia, penetram na pele humana e causam a intensa coceira e vermelhidão | Crédito: Gabriela Ruellan/Wikimedia Commons

A nota lançada hoje pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) sobre a causa da misteriosa coceira que atingiu mais de 400 pernambucanos pegou de surpresa o comitê da Secretaria de Saúde do Recife (Sesau) que há mais de um mês investiga os casos. Em uma matéria e uma nota técnica cheia de críticas não tão veladas assim, a SBD afirma que as lesões cutâneas acompanhadas de coceira são consequência das cerdas da espécie de mariposa do gênero Hylesia, que penetram “profundamente na pele humana e causam a intensa dermatite observada”.

Ao longo das últimas semanas, a “chanha misteriosa” foi alvo de grande especulação dos jornais e sites do Recife e até de fora do estado. Virou meme. Uma das suposições mais midiáticas era de que se tratava de uma escabiose (sarna) resistente à ivermectina – droga ampla e erroneamente usada na pandemia da covid-19.

Assinada pela dermatologista pernambucana Cláudia Ferraz e pelo professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Vidal Haddad Junior a nota afirma que “a hipótese de escabiose era absurda”. Isso porque tudo na escabiose difere das lesões investigadas: “o tipo de transmissão é outro, a distribuição e aspecto das lesões cutâneas eram distintos e nenhum ácaro foi achado em muitas amostras de exame direto e exames histopatológicos”, cita a nota técnica.

A nota da SBD pode levar a supor que foi um trabalho conduzido à parte, mas a dermatologista Cláudia Ferraz integra o próprio comitê da Sesau. O comitê é multidisciplinar, reunindo epidemiologistas, infectologistas, dermatologistas e médicos da atenção básica e da saúde da família. “A nota da SBD não é uma nota oficial do comitê. Foi liberada sem ter havido uma conversa com a Secretaria de Saúde do Recife, que é quem está conduzindo toda a investigação. Ao começar esse estudo, fizemos um levantamento bibliográfico de tudo que poderia ser. E, claro, escabiose não poderia ser inicialmente descartada, até porque recentemente houve um surto em São Paulo”, ponderou o infectologista Demetrius Montenegro, que faz parte do comitê, em entrevista à Marco Zero.

A hipótese de sarna, porém, ficou enfraquecida após as análises iniciais. “Quando íamos nas comunidades afetadas realmente havia casos de escabiose, que se misturavam aos casos da investigação e a outras doenças, como mão-pé-boca. Mas a hipótese da escabiose não atrapalhou a investigação. Depois dos resultados dos exames iniciais, nem foi mais levada em consideração”, disse.

A primeira notificação do surto chegou no dia 5 de novembro ao Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (Cievs) do Recife, como sendo uma intoxicação provocada por consumo ou contato com água contaminada. Essa hipótese foi a primeira ser refutada: os casos tinham fontes de água diferentes. Arbovirose foi também outra hipótese descartada, após exames sorológicos para tentar detectar vários vírus.

A que restou foi a de causa ambiental: picada de inseto, pólen e a mariposa eram as possibilidades mais fortes. “Quando vimos que as hipóteses de doença infecciosa estavam enfraquecidas, chamamos os dermatologistas para compor a equipe”, diz Montenegro. O primeiro dermatologista foi acionado cerca de duas semanas após a notificação do surto.

A nota da SBD cita apenas os dois dermatologistas que assinam a nota: “Um trabalho conjunto da Dra. Cláudia Ferraz, que pesquisou a história epidemiológica correta e descreveu adequadamente as lesões, além de suspeitar a provável etiologia, e do Dr. Vidal Haddad Junior, que havia testemunhado e publicado outros surtos, esclareceu a etiologia (origem) da erupção”.

Além de Cláudia Ferraz, outros dermatologistas estiveram envolvidos na pesquisa, como Valter Kozmhinsky, do Imip, o primeiro a analisar os casos levados pela Sesau. Ângela Rapela, do Hospital Oswaldo Cruz e os residentes de dermatologia do hospital, e Marília Delgado, da Santa Casa, foram ou ainda voltarão aos territórios iniciais (Dois Irmãos e Guabiraba), já que o estudo ainda não terminou. Vidal Haddad Júnior não chegou a vir ao Recife.

“Ainda não podemos dizer com precisão quando vamos terminar o estudo. Há cinco amostras histopatológicas que foram analisadas e onde foram encontradas cerdas das mariposas. Falta ainda receber o resultado de mais algumas amostras. Essa é a hipótese mais forte até aqui, sem dúvidas. Mas ainda não terminamos a investigação. Amanhã mesmo tem mais uma visita ao território”, explica a secretária executiva de vigilância ambiental do Recife Marcella Abath, que também coordena o comitê, em entrevista à Marco Zero. Ela acrescenta que também falta o resultado de um exame de entomologia, que está no Laboratório Central de Pernambuco (Lacen), para determinar o exato tipo do inseto.

Ao fim da investigação será publicado um relatório, com todas as hipóteses levantadas e o que levou até a principal suspeita. Abath cita que em 2018 houve um surto semelhante no Recife, nesta mesma época do ano, e que uma equipe de vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde chegou a fazer uma investigação, mas o resultado foi inconclusivo. A Marco Zero tentou contato com a assessoria de comunicação SBD nesta quarta-feira, mas não obteve resposta.

A conclusão da SBD e o tratamento indicado

Na nota, a SBD enumera os achados que fizeram os dois pesquisadores concluírem que se trata mesmo da mariposa. Além de encontrarem as cerdas nos exames de biópsia, eles citam a história clínica e epidemiológica “extremamente compatível” e relato de mariposas no local feito pelos moradores. “Concluímos que o mistério está resolvido e esperamos que os tratamentos corretos sejam ministrados à população”, diz a nota.

Os surtos de dermatite causadas pelas mariposas do gênero Hylesia não são raros e já foram identificados em várias regiões do país, geralmente entre novembro e janeiro, época em que se reproduzem. Ao entrarem nas casas, as mariposas se debatem contra os focos de luz. E é aí que liberam as minúsculas cerdas que penetram na pele humana.

“Além da inflamação inicial, descrita na histopatologia como um infiltrado linfocitário, existe a probabilidade de formação de granulomas em fases posteriores. A dermatite permanece por dias e até semanas, devido à permanência das cerdas (“flechettes”) na pele. Estas cerdas podem ser observadas na pele e exames realizados as mostraram com clareza”, afirma a nota.

De acordo com a SBD, o tratamento é feito com foco na inflamação com o uso de corticoides tópicos e anti-histamínicos e, por vezes, dependendo da extensão das lesões, o uso de corticoides sistêmicos. Para as residências, o uso de telas nas portas e janelas impede a entrada do inseto.

Conteúdo originalmente publicado em: Marco Zero Conteúdo

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