Ditadura militar

Condor: Não há elementos para absolvê-lo, diz Justiça da Itália sobre ex-militar brasileiro

Átila Rohrsetzer é acusado de assassinato e teve processo contra extinto após falecer em 3 de agosto deste ano

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Átila Rohrsetzer, morto aos 91 anos, acusado de participar da morte e desaparecimento de Lorenzo Ismael Viñas Giglio - Reprodução

O processo italiano que julgava o ex-militar gaúcho Átila Rohrsetzer por crimes da ditadura militar brasileira ligados à Operação Condor foi definitivamente extinto no dia 29 de novembro, por conta da morte do réu. 

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No entanto, a corte romana disse que “não existem elementos para absolvê-lo no mérito”. 

Ou seja, se estivesse vivo, Átila provavelmente seria condenado à prisão pelo assassinato e desaparecimento do ítalo-argentino Lorenzo Viñas, ocorrido em 26 de junho de 1980. O ex-militar morreu no dia 3 de agosto, aos 91 anos, dois meses antes da audiência que decidiria sobre o caso.

No documento de seis páginas, que Opera Mundi obteve com exclusividade, Marina Finiti, juíza e presidente da Corte, percorre os principais elementos probatórios recolhidos nesses seis anos de julgamento. Para a corte, “todos os depoimentos foram claros, inequívocos e absolutamente convergentes”.  

As provas

O documento cita as testemunhas Giulia Barrera e Silvia Tolchinsky, “que reconstruíram o caso dos Montoneros e o sequestro de Viñas, destacando a colaboração entre a Argentina e o Brasil e apresentaram alguns documentos como uma carta que a Tolchinsky enviou a Claudia Allegrini, viúva da vítima, sobre a detenção do jovem na prisão clandestina Campo de Maio, onde descrevia as condições em que vivia devido às torturas que sofreu”. Allegrini foi uma das últimas a depor e, segundo a corte, “o seu testemunho foi lúcido e doloroso”.

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Viñas era um expoente juvenil peronista perseguido pelo regime militar, dado que militava nos Montoneros, movimento de esquerda que lutava contra a ditadura de Jorge Rafael Videla (1925-2013). Ele tinha 25 anos quando foi preso por agentes brasileiros na fronteira do Brasil com a Argentina.

O texto lembra “o quão significativo foi o depoimento da historiadora Federica Martellini, que reconstruiu os organogramas dos aparatos repressivos brasileiros e de seus principais representantes, incluindo os acusados”, referindo-se aos outros três réus que morreram no andamento do processo, isto é, os ex-agentes militares João Osvaldo Leivas Job, Carlos Alberto Ponzi e Marco Aurélio da Silva. 

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O documento também citou os depoimentos de Jair Krischke, presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, que denunciou a prisão de Viñas pela Polícia Federal brasileira e a sua subseqüente entrega à repressão argentina; o de Mario Firmenich que, como chefe dos montoneros, confirmou o desaparecimento do jovem argentino; e o do jornalista Marcelo Godoy. 

Para a corte, “a avaliação conjunta dos depoimentos e documentos que foram depositados no julgamento levam a delinear de forma unívoca o papel do Brasil no trágico caso e ainda o envolvimento direto e consciente de Da Silva Reis, Ponzi, Leivas Job e Átila nas respectivas funções''.